18 de janeiro de 2009

Breve apontamento...

Ontem, fui a uma festa de anos de uma colega minha do Lab. Não me vou perder nos pormenores da dita, simplesmente direi que foi bom lá ter estado e que o ambiente era mt agradável.. Mas nao foi para isso que aqui vim. Vim aqui porque no meio de toda aquela festa, reparei numa coisa, tão simples, mas que me tocou imenso. Uma foto.

Não era uma foto qualquer. A foto era minha, tinha sido eu a tirar. Eu nem me lembrava que a tinha dado à Guadalupe, sei lá quando é que isso aconteceu... mas a foto era minha. E estava na parede de uma casa que não era a minha, ali, exposta, visível a toda a gente.


Como podem ver, não é nada de transcendente. :) É uma foto muito simples, num sítio que eu adoro, num ponto em que, quantas vezes eu lá vá, quantas vezes fico a olhar para isto (como se não houvesse lá mais nada para ver!). Não sei se é a geometria, não sei se é a simplicidade, não sei se é o simbolismo inerente da janela que se projecta, que projecta o olhar sobre o mundo, uma janela na Torre que pode enclausurar qualquer coisa desconhecida, o obscuro... E essa foi outra das coisas que me tocou: é que é uma das minhas fotos favoritas e que me diz tanto. Encontrá-la ali, em casa de outra pessoa, fez-me sentir (no mínimo) muito bem. E, em certa medida, senti-me ali, também, um pouco em casa.

"So, Home is not just where you lay your hat..."

Não, não é. É onde está o meu coração, é onde estiver parte de mim.

17 de janeiro de 2009



Já é noite, o frio está em tudo o que se vê...
Lá fora ninguém sabe que, por dentro, há vazio...
Porque em todos há um espaço que, por medo, não se deu,
Onde a ilusão se esquece do que o medo não previu...
Já é noite, o chão é mais terra p'ra nascer...
A água vai escorrendo entre as mãos, a percorrer
Todo o espaço entre a sombra, entre o espaço que restou,
Para refazer a vida no que o medo não matou...

Mas onde tudo morre, tudo pode renascer...

Em ti vejo o tempo que passou,
Vejo o sangue que correu,
Vejo a força que me deu quando tudo parou em ti...
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar e é em ti que vou ficar...

Já é dia e a sombra está em tudo o que se vê...
Lá fora ninguém sabe o que a Luz pode fazer!...
Porque a noite foi tão fria que não soube acordar,
A noite foi tão dura e difícil de sarar...

Mas onde tudo morre, tudo pode renascer...

Em ti vejo o tempo que passou,
Vejo o sangue que correu,
Vejo a força que me deu quando tudo parou em ti...
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar e é em ti que vou ficar...

Mas eu descobri a casa onde posso adormecer!
Eu já desvendei o mundo e o tempo de perder!
Aqui tudo é mais forte e há mais cores no céu maior!
Aqui tudo é tão novo porque pode ser Amor!...

E onde tudo morre, tudo volta a nascer...

Em ti vejo o tempo que passou,
Vejo o sangue que correu,
Vejo a força que me deu quando tudo parou em ti...
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar e é em ti que vou ficar...

Já é dia e a luz está em tudo o que se vê...
Cá dentro não se ouve o que lá fora faz chover...
Na cidade que há em ti encontrei o meu lugar
E é em ti que vou ficar...



14 de janeiro de 2009



"Estou além sono, num sonho de papel, fio de ópio, sombra chinesa tatuada no céu.
Hoje não me apetece ser do contra, uma enfant terrible
..."


Intangibilidade da vida. Tocarmos como se fosse a nossa própria mente e alma, a essência de outra pessoa (que não são só estas duas coisas...). Muitas vezes o disse e torno a dizer: nós não estamos preparados para nos apercebermos como é que outras pessoas estão a percepcionar o mundo, como é que nos percepcionam. Há algo que nos "tapa" o caminho e que nos deixa atónitos na espessa tarefa de compreensão do próximo. Pedimos uma bússola, pedimos um mapa para as profundezas do ser de outrem mas de nada serve pedir a um mapa a quem o não pode dar porque nunca ninguém se deu ao trabalho (nem conseguirá) conhecer-se o suficiente para delinear um mapa conciso e universal de si...

"...Quero apenas os novos códigos, quero apenas entrar e participar..."

Posso espreitar pelas janelas e observar de fora. Olho pelos portais do Tempo e observo que é isso mesmo que tenho feito, com raríssimas excepções: observo de fora, como que tentado pelo brilho das luzes e do calor de "lares" diferentes do meu... É o fascínio do diferente, procurando sempre, no entanto, o Semelhante, aquele gesto que compreende cada passo que se dá, cada gesto que se executa, sem dúvidas, sem confusões, sem pó que arranhe a agulha no disco da Partilha...

"
A cidade está submersa numa manhã chuvosa
Pântanos e dinossauros tomas de assalto as avenidas
A menina tem insónias e só às vezes dorme
Desaparece e acorda com fome... acorda com fome...
Esta é a minha nova dor. Diz-lhe olá... Não a faças esperar..."


Passando pelas ruas cinzentas, passeio as minhas dúvidas, incertezas, tempestades da Alma, do Coração e mesmo até da Mente... olho as Sombras e estabeleço imensas analogias, paralelismos, comparações e perco-me nas infindas hipóteses que se me levantam... somos um Universo interno, já se sabe... as Sombras que se levantam dentro de nós podem ter metros, quilómetros mas podem ser geradas por algo tão irrisório como um pequeno rato em frente a um projector. E é isso que as pessoas às vezes se esquecem: é que para haver sombras, tem de haver Luz, uma grande Luz, uma Luz tão forte que tudo ilumina os confins do Universo... é dificil não olhar para a sombra é mais confortável, a Luz pode cegar...
Prossigo. Por entre pedras, muros, calçadas e escadinhas aprecio o ritmo de uma comunidade que mal se olha nos olhos... têm medo de quê? de encontrar a alma dos outros?... é difícil... Entrando num tunel, abobadado, começo a cantar...

"
Oh! meu Anjo da Guarda, eu sei que te dou trabalho,
Eu e Tu somos iguais... eu queria tanto fazer-te feliz...
Não esperes que eu consiga mudar da noite para o dia..."


... e sem saber estou a fazer eco. Impossível! Num sítio tão populoso! A esta hora! Com o "barulho das luzes" ninguém deveria notar... noto eu... soa bem, estranho timbre que me é devolvido. Deixo-me entao levar pelo que canto e pelo que recebo, numa estranha fusão de sons, como se numa catedral me encontrasse, embalado pelos acordes celestiais de um canto sacro... penso o quanto a Vida não o será assim também: tudo o que fazemos tem uma repercussão, muitas vezes superior ao que esperamos e, quando esta a nós retorna, a fusão resultante pode maravilhar-nos ou ser extremamente dissonante e estarrecer-nos. No entanto, são sempre pequenos sinais que enviamos para o exterior, como fragmentos de uma imagem, de uma música, que em nada nos conseguirão definir... porque, para se conseguir compor a imagem, é preciso Querer e Tempo... e é de Tempo que não Queremos dispor.

"Quando as palavras não dizem o que somos,
Gastamos em tinta, prometemos em sonhos,
Quando as palavras não dizem o que somos..."



12 de janeiro de 2009





Já há uns tempos postei a letra desta música (aqui) mas acabei por nunca pôr a música em si... Acho que as coisas se proporcionaram para que voltasse a ser actual, daí que agora ponho a musica porque só a letra fica aquém do que se sente a ouvi-la... Note-se o pormenor de como, no final, os instrumentos vão desaparecendo um a um, e não é por acaso: assim também são as memórias das coisas que nos acontecem... Ontem, como hoje, o que escrevi em nota desse post, é válido...

E, porque é bom nunca esquecer estes ditos, do mesmo álbum (e para quem gosta de algo mais calmo) também a ultima música tem para mim, um sentido muito único... e diz ela assim:

"There will be days when you'll be reminded, days when you'll feel cold and abandonned..."



How right you are...

5 de janeiro de 2009

Flowing...


Quantos de nós não gostariam de levar uma vida mais simples? Eu gostava! Mas o que é, num mundo profundamente acelerado, 'simplicidade'?
Imaginam-se a viver numa cabana? Ou a ter de fazer fogo com um pauzinho? A ter de caçar e cultivar tudo o que precisam de comer? Sem electricidade, sem gás, sem televisão? Só com a companhia de um livro (se houver) ou de algo para entreter o espírito? Pois é... há coisas que são difíceis de imaginar, nos dias que correm. No entanto, estes exemplos que eu dei são extremos de algo bem mais fácil de praticar no dia a dia. Digo já que, quem me conhece, sabe que é difícil eu ter calma e "think simple". Sim, porque é preciso ter muita calma quando se quer enveredar por uma vida mais simples.

(faz o que o pai tomás diz, não faças o que ele faz ;) )

Que poderá ser, então, a simplicidade? A simplicidade pode residir em duas coisas: calma e aceitação (que é diferente da resignação). Como em tudo, é preciso treino, sobretudo depois de anos numa rotina acelerada, em que nos sentimos tantas vezes sufocados... Os constrangimentos culturais são pesados. O trabalho (porque é um trabalho) não se faz de um dia para o outro e há que ser perseverante. A perseverança é também um sintoma da simplicidade. Aproveito também para dizer que a simplicidade não é 'basicidade'. Uma pessoa pode continuar a sua vida de todos os dias, rodeado das suas coisinhas, mas adoptar uma postura perante a vida mais simples. Quando foi a ultima vez que aproveitaram, algures no dia, para parar e admirar um cenário à vossa volta, uma árvore, uma planta, uma cena qualquer no meio da rua que vos enternece, o sorriso de uma criança... quando foi a ultima vez que escreveram uma carta de amor a alguém de quem gostam? Por ventura já se lembraram hoje de perguntar a quem amam como é que eles estão, como é que eles se sentem, olhos nos olhos, e dar o vosso tempo, darem-se, simplesmente darem-se? E há quanto tempo é que não param no meio da rua, olham para o céu e pensam "que abençoado sou por ter saúde, por amar e ter quem me ame, por poder fazer isto e aquilo..."? E há quanto tempo não param um bocadinho e não sentem, nem que uns momentos, profundamente, que tudo está certo?... Estes são apenas alguns exemplos, a simplicidade é muito mais do que isto, mas isto é um bom ponto de partida. Sem saberem, a simplicidade entrará nas vossas vidas.
Ao mesmo tempo de tudo isto, há um trabalho de aceitação que convém que se faça: e é muito simples - as coisas são o que são. Se forem boas, se calhar poderiam ser melhores mas seria também óbvio se tivessem que ser melhores nessa altura. Todos nós passámos por isso. Das coisas más nem falo. Essas são imediatamente reconhecíveis como sendo melhoráveis (e daí o meu ponto anterior). E, aí, há que não nos resignarmos ao que dispomos. A ambição é nisto tudo um tempero a usar q.b.. E qual o porquê deste passo? Bem, simplesmente será o passo que vos chamará à realidade das coisas, ajudando-vos a colocar as coisas em perspectiva. Vendo o quão simples são as coisas (ou a grande maioria das coisas) na realidade, saberão intuitiva e automaticamente quais são as coisas que vos convém levar na vossa "mochila" pessoal e quais a que podem ficar pelo caminho. A Verdade (também) reside na Simplicidade (ou como dizia um prof. meu "A resposta mais simples é, na maioria das vezes, a verdadeira."). E sendo mais Simples, seremos cada vez mais Nós Mesmos. Bom, não é? Quem não quererá isto?... :)

3 de janeiro de 2009

Acordo, levanto-me e abro a janela... fixo o horizonte por uns momentos, recebendo o vento frio por alguns segundos na cara. Está frio e duro, o Vento, como a realidade. Acabo então o meu 'banho' de realidade e volto a deitar-me. Apetece-me música, só a música me pode 'curar', e ponho isto...

Hans Zimmer - Davy Jones (cliquem para ouvir)

E, assim que eu ponho a tocar, começa a chover, torrencialmente... Perfeito. E, nos meus olhos, também a chuva transborda...

"We are bits of stellar matter that got cold by accident, bits of a star gone wrong."
Sir Arthur Eddington

Um dia também queria ser assim. Um bocadinho de estrela que correu mal, que se transviou da sua rota, sabe-se lá porquê... No entanto, não me sinto minimamente dessa forma. É engraçado não é? Passo a vida inteira a dizer que somos Seres de Luz, que somos isto, que somos aquilo e, no entanto, não sou capaz de me aceitar como tal. Sou simplesmente levado por uma verdade mais profunda que leva a aceitar esse facto mas que o Consciente recusa liminarmente. Terrivelmente comum, não acham? Eu acho. Sei que sou composto da mesma matéria das estrelas, dos planetas, do Universo, mas seria isso o suficiente para estar em sintonia com o mesmo? Era bom que sim, afinal, é disso que ando à procura há mesmo muito tempo. A esperança é a última a morrer mas, sinceramente, começa a faltar... talvez este pedaço de estrela que vos escreve tenha arrefecido demais...

30 de dezembro de 2008

(para a... bem, ela sabe quem é...)

Passeio pelo que escreves. É o mesmo que passear pela tua alma. Desenhas com finos traços a tua alma cada vez que decides manchar a tela com os teus pensamentos, as suas sensações, as vontades irreprimíveis que assolam o teu Universo interno, as tuas lágrimas, os sorrisos… Ah, sim… os sorrisos. Queria eu sorrir como tu, com uma simplicidade que em ti revela a sensibilidade que os outros cega e que teimam em não ver. Para quê complicar? A Vida não o é já o suficiente? Tivesses tu o céu estrelado como tecto, e o mar como coberta, e não precisarias de mais nada… pois, simplifico: precisas das pessoas porque são elas o teu mundo; precisas tu dos “teus” porque são eles o teu Universo. Também eles estão no teu sorriso. Está lá tudo, aliás, é algo transparente como a água que veneras, o reino onde tu reinas…
Ao som da intocável matéria vais bordando na tela o teu ser. O que tu não sabes é que é ela também a tua Alma. Faz parte do nosso património colectivo, de todos… nós só retiramos um bocadinho para que nunca nos esqueçamos do que somos, sendo únicos e indivisíveis. Flutuando pelas águas do Tempo, muitas vezes entramos em deriva, perdendo o Norte, o Sul, o Leste e o Oeste… e ela, o nosso primeiro Amor, é a nossa tábua de salvação, o nosso porto de abrigo… também ela é Amor.

“A story without Love, isn’t a story worth telling.”

Tu sabes. Sempre o soubeste. E por isso bebes a Vida em tragos gostosos de Amor, intensos em Paixão (ou apaixonadamente intensos?...), loucos de Luz. E sempre com a serenidade que transportas para dentro de todos quanto o queiram. Porque tu, sensível, porque tu, a audaz. Porque tu,… porque quererás tu amarrar-te a um porto? Porque terás tu, agora, (ainda por cima agora) medo do teu reino? É o TEU reino, lembras-te? Não o conhecerás tu melhor que ninguém?... Ah, sim, falas-me em invasões, mas diz-me: quem pode invadir o inexpugnável? o inatingível? o intangível?... Pois, só aquilo que tu entenderes, por paixão, entregar…
Reina, Princesa, reina – que é como quem diz: vive Criança, vive. E Sê.

27 de dezembro de 2008


E era uma vez uma reino mágico... Bem, todas as histórias começam assim, "um reino mágico" mas o que interessa realmente é o que esse reino mágico contém. Para mim, ele continha um Bem em muito raro no resto do Mundo: Amor. "Oh", dizem vocês, "mas isso é uma coisa que há em qualquer lugar... E além disso como é que podes medir isso?". Fácil, digo eu! Basta ver passear pelas ruas e ver quantas crianças estão a sorrir! E, já agora, quantos adultos também.
Pois neste reino mágico, a magia era mesmo a do Amor. Mas os habitantes deste reino (escolham você o nome) sabiam trabalhar o Amor: sabiam moldá-lo, temperá-lo, enfeitá-lo e mostrá-lo com uma magnificiência a toda a prova. Isso era prova do seu avanço científico! Eles tinham passado grande parte da sua existência como povo a estudá-lo. Consideravam o Amor um tema de ciência de elevada relevância e importância estratégica para o seu país: cedo perceberam que sem Amor, nada pode avançar.
Se esperavam que agora vos dissesse que nesta terra, um dia, alguma coisa de má tivesse acontecido, enganam-se - outra coisa que eles tinham aprendido foi que o Amor é a maior força do Universo, sinónimo de Luz, e onde está a Luz, a Escuridão (que é a ausência de Luz) não pode entrar (é uma questão de Física, e uma das primeiras descobertas desse povo)...
Parafraseando o homenzinho naufrago "Eu quero voltar para a ilha!"... E quem não quereria voltar? Bem, é possível voltar, sim, mas só por uns tempitos... primeiro, tem que fazer as malas: largar todas as frustrações, preocupações, trabalhões, "coisas sem-importanciões" (aquelas coisas de pessoas adultas, sabem?) e ficarem só com o que de mais valioso têm - o vosso Coração, a vossa Alma, a vossa Essência; a seguir (esta é mais difícil) têm de largar o Medo - para isso têm de o vencer porque é ele o Dragão que guarda as fronteiras desse país (um pouco como vencer a burocracia para se obter um visto e um passaporte); isso cada um saberá como fazê-lo porque este tal Dragão é meio camaleão (pela parte da mãe) e disfarça-se "à medida do freguês". Por ultimo, peguem em vocês e vão fazer o que mais gostarem e que verdadeiramente vos faça sentir únicos, "preenchidos", como se cumprissem a vossa Existência com esse gesto. E, enquanto o fazem, "saiam" um bocadinho de vocês e sintam o prazer que têm ao fazê-lo... Bem vindos à vossa Terra!

24 de dezembro de 2008

Synchronicities

(o "reptil foi, mais uma vez, lançado pela ©, a foto é, mais uma vez, minha...)


Para uns é o acaso... para outros "estava escrito"... Para mim, é uma coisa e a outra!... É difícil de explicar mas vou tentar...
Às coincidências chamo-lhes outra coisa - sincronicidades. O termo não é meu, nem a definição mas a verdade subjacente é limpa e fácil de entender. Para nós, comuns mortais, quando algo acontece que calha (sem que façamos esforço para isso) na hora H, no momento M em que "dá jeito", o pessoal diz "olha! calhou!", ou "isso foi uma grande coincidência!". Mas agora imaginem que as nossas vidas de Humanos têm o seu timing próprio, têm o seu ritmo, cada qual com o seu destino, cada qual com as suas lições a aprender... Ora, convém, já que estamos todos interligados, que (de quando em vez) os nossos ritmos pessoais coincidam com os de outras pessoas. Isso pode acontecer intencionalmente - o que chamamos de encontros marcados, entrevistas e afins -, e pode acontecer sem querer - o que chamamos de coincidências. Quer num caso, quer no outro, isso são sincronicidades (do gr. Syn (ao mesmo) + chronos (tempo)). A diferença é que uma é propositada, e a outra não. E é esta última que mais nos espanta, acima de tudo quando é uma boa sincronicidade.
Mas a palavra a reter aqui não é a greek-derived. A palavra a reter aqui é LIÇÃO. Ah, e PROPÓSITO. Porque todas as sincronicidades têm um propósito, termo não só utilizado no sentido mais corrente, mas também no sentido "estava escrito". Assim tinha de ser, tem uma razão. E tinha de ser porquê? Lição. Ao aceitarmos uma sincronicidade estamos a aceitar a potencial lição ou o potencial pacote de lições que lhe estão intrinsecamente ligados. As lições podem ser as que bem imaginarem, cabe a cada um identificar (caso contrário não se terá aprendido nada). E há, como é óbvio, umas mais fáceis de engolir, mais adoçadas, e outras mais amargas e duras... quais delas duram mais na nossa memória? e quantas não se voltam a repetir? (sincronicidades fora, claro...)

21 de dezembro de 2008

Transparência



E se não fossemos feitos de carne? Se fossemos feitos de uma material volúvel, de composição variável, que mudasse sempre que o nosso estado de espírito também mudasse, estilo "Mood-ring" dos loucos anos 70's mas não só em cor, em textura também, e em flexibilidade e todas as outras propriedades físicas. É uma divagação de humano mas a verdade é que, naquilo que realmente somos, nós somos assim. Aquela sensação que temos ao levar uma nega, ao "engolirmos um sapo" no trabalho, ao aturarmos um chefe que implica connosco porque sim, ao encontrarmos uma "princesa" (ou um príncipe, no caso das senhoras) na rua que nos faz acelerar o rítmo do coração, ao receber uma notícia que nos deixa muito feliz, ao entregarmo-nos ao prazer, tudo isso é um reflexo que esse algo em nós, que eu acredito ser a Alma, está a mudar de forma e de consistência. E há mesmo sinais físicos de que o balanço interno está a ser alterado: as lágrimas, a Alma líquida que só apetece fugir do corpo em regatos, o sorriso que brilha quando a Alma irradia felicidade, o corpo que se agita e dança quando a Alma quer vibrar ao som da música, o olhar que se endurece, os músculos que ficam tensos quando a Alma coloca um letreiro à porta com os dizeres "BACK OFF!" ou "Não estou nem aí!".
Todas estas coisas, todas as suas formas, são uma forma, é, aliás, "A" forma que a Alma tem de deixar transparecer o seu estado. São nesses momentos que somos transparentes, tão transparentes que, tantas vezes, temos medo e sentimos uma necessidade gritante de esconder o estado da nossa Alma (seja por que motivo for).

Mas, qual é a necessidade de esconder?

Nada na nossa maneira de ser como Humanos, em qualquer aspecto (físico/biológico, espiritual, mental - estando tudo interligado) é futil ou despiciendo. Se temos uma dada reacção natural, porquê contrariá-la? Se a nossa Alma quer mostrar o seu estado, porquê obstruí-la?

20 de dezembro de 2008


Cena 1: Sonhei com amigos, sonhei com lugares onde há muito não vou, sonhei com presentes que me deixaram de boca aberta e... acordei.

Cena 2: Sonhei com adversários, lutas antigas, conflitos ardentes, discussões inúteis, personae non gratae, cenários de horror e... acordei.

Que há de diferente nestes dois acordares? Independentemente do cenário que neles desenrola, no meu caso, isto acaba por me influenciar para o resto do dia. Os sons, as cores, os gestos e movimentos do dia e da noite podem-nos influenciar... e quando nos transportamos para um mundo onírico? Qual é a impressão que transportamos do mundo de Morfeu para esta realidade? Será isto a acção da Alma?

Há convenções culturais que nos influenciam. No binómio dinâmico "influência externa-projecção externa", nunca se saberá qual terá maior preponderância em nós. Agora, que essa preponderância se manifestará em nós de maneiras diferentes, isso acontecerá sem dúvida. E, concordando com a ©, é a Alma o grande filtro. No entanto, acredito que muita da associação bom tempo/dia - bom estado de espírito, é um forte "imprint" socio-cultural.
Eu gosto de dias cinzentos. Gosto, aliás, de sair nos dias cinzentos, e ainda mais de ir para a beira-mar, caminhar na areia e sentir a chuva na cara. Quando estava em Gent, houve grandes chuvadas, alturas nas quais eu olhava para o céu e desejava que tivesse um meio de transporte rápido para me levar até à beira do mar do Norte (algo que nunca cheguei a fazer, fizesse chuva, fizesse sol).
E que dizer do sol forte das 11h-15h? Para mim, desde há uns anos, é uma altura profundamente deprimente. A polaridade da Luz (não sei se já vos contei) dessa fase do dia deixa-me muito rabugento e meio perdido. Se calhar é essa sensação de desorientação que me irrita, aquela luz sem cor, forte, que não gera sombras com significado, que dilui todas as cores numa única cor de pouca variação, mortiça e desértica.
Nunca ninguém me levou a isto, aliás, as memórias dos dias mais felizes que me lembro acontecem sempre em dias de Sol e sempre por volta dessa hora. E também nenhuma vez fui à praia em dias de chuva. Será esse imponderável, ou fora-da-razão, o factor Alma?

Mas... o que será a Alma? Quanto de nós é Alma, quanto de Nós é Emoção, quanto de nós é Razão? E que peso terá cada uma dessas partes nos nossos gostos, nos nossos "filtros"?

(sinceramente, e actualmente, após ter aprendido que a busca da razão das coisas não é um fim e pouco mais prazer traz, prefiro ir saboreando o que me aparece (nem que por isso vá apanhando uns 'amargos de boca') e levantar as perguntas quando a Vida a isso me leva, mas mais por piada que outra coisa, e esperar que a resposta, se assim for suposto, me chegue como as perguntas me chegaram)

...mas também o Dia pode ser o Estranho que se recolhe, a Sombra que oculta alguém, o Silêncio dos corredores das escolas entre as aulas, o Isolamento em si mesmo de alguém que passa, a placidez da calmaria numa planície solarenga, a imponência de montanhas ao Sol do meio-dia, o repouso do agricultor de ferramenta na mão (secando o suor), o turista que apanha o sol na esplanada (cobiçando-o só para si), o Sol que tudo incandeia de Branco...
E... a Noite, no seu manto, também é a Festa que celebra a Vida, a ocasião que reúne os Amigos (em alegria), a Energia que se vai buscar "sabe-se lá onde" para se fazer "sabe-se lá o quê", o destino desconhecido numa Viagem inesperada, o espaço e o tempo da Criação da Alma, o negro do Céu e do Mar, o Vento turbulento que tudo agita, o Festival das "Cities of Light", o glamour, a classe, tempo de Expansão major. Tudo isto enquanto uns dormem, enquanto outros trabalham, enquanto outros amam, vivem, São.

(obrigado pela frase inspiradora, ©!)



18 de dezembro de 2008

Experiências


Numa cidade de luzes mil, o que é a noite e o que é o dia?

E o que preferirá a Alma?



(cliquem nas imagens para ampliar... ficam melhor...)

20 de outubro de 2008

Oh brother I can't, I can't get through
I've been trying hard to reach you
Cos I don't know what to do...
Oh brother I can't believe it's true
I'm so scared about the future and
I want to talk to you...
Oh I want to talk to you...

You can take a picture of something you see...
In the future where will I be?
You can climb a ladder up to the sun
Or write a song nobody has sung, or do
Something that's never been done...

Are you lost or incomplete?
Do you feel like a puzzle?
You can't find your missing piece
Tell me how do you feel?
Well I feel like they're talking in a language I don't speak
And they're talking it to me...

So you take a picture of something you see
In the future where will I be?
You can climb a ladder up to the sun
Or write a song nobody has sung, or do
Something that's never been done, or do
Something that's never been done...

So you don't know where you're going
But you want to talk...
And you feel like you're going where you've been before...
You'll tell anyone who will listen but you feel ignored...
Nothing's really making any sense at all

Let's talk
Let's talk...

Let's talk
Let's talk...

Coldplay - X&Y - 2005

17 de outubro de 2008


Apetece-me entrar... E eu vou.

... so help me God.

11 de outubro de 2008

The man who writes about himself and his own time is the only man who writes about all people and all time. - George Bernard Shaw

Era de noite. Ele olhara-a com uma nítida noção que o tempo não tinha passado entre a imagem que ele tinha na sua cabeça e a imagem que ele tinha diante de si. A noite passava, assim, correndo e ia tomando conhecimento de coisas que o faziam tremer por dentro, mesmo não sabendo como é que as coisas se desenrolariam no futuro.
Nessa madrugada, as coisas evoluíram na forma de uma criatura de duas cabeças: por um lado, o desejo imediato, puro, sanguíneo, de que as coisas brilhassem com a intensidade de mil Sóis, como se não houvesse um Amanhã, aquele de todos os dias, um momento em que tudo pára e tudo corre ainda mais veloz; por outro, a permanente certeza que esse Amanhã viria, inexorável, pétreo, a nítida claridade que aquilo era, apenas e só, um momento, sem certezas, com todas as dúvidas, aquele instante em que o jogador faz as suas apostas e que sabe que tem mais hipóteses de perder do que ganhar...

No entanto, constante e transversal a tudo isso, a Esperança.

Mais do que o conflito entre os interesses entre pessoas, a questão fulcral de tudo está no conflito interno, entre os interesses que uma pessoa tem. Todos o que possam haver, surgem de igual para igual. A diferença está no peso que cada um adquire, conforme as nossas crenças, as nossas convicções. E aí o verdadeiro conflito: entre aquilo que desejaríamos, de todo o coração, sem olhar a tempos, sem olhar a situações, e aquilo que se afigura como uma hipótese real. E, infelizmente, normalmente a voz do coração fala mais baixo, perante a dureza ígnea do que intuímos como realidade, do palpável. Do que é que se abdica nessas alturas? Sabê-lo-emos? Teremos a profunda consciência de tudo aquilo que estamos a abdicar, ao olharmos ao que julgamos ser uma necessidade mas que não passa de algo tão fátuo e transitório como uma fagulha que passa de ar quente ao ar frio?
E quantas, quantas vezes, a verdade das coisas está à nossa frente, mais forte do que a realidade sombria dos nossos medos, daquelas ideias pé-concebidas, embebidas no nosso cérebro desde tenra idade, que nos impedem de ser verdadeiramente felizes, que tomamos por tão reais como a pedra que está à nossa frente...

Dia nasce...

... a criatura devora-o...

Ele regressou a casa com uma única certeza e uma miríade de dúvidas: tinha feito, no momento, o que o seu Coração tinha pedido. Sentia-se feliz e isso alimentara-lhe a Esperança, aquele Algo que se alia à sua profunda crença que o Amor é a maior Força Existente e que o fazia acreditar que um dia (um dia...) faria com que as pessoas ouvissem mais o seu Coração do que a Máquina que traduz o que Ele diz e à qual damos (quase) sempre o crédito de ser a Voz Única da Realidade em que mergulhamos... Até lá (e para além disso), só lhe restava pegar de novo na sua mala (por instantes pousada), e seguir Caminho...

27 de setembro de 2008

"If you would be a real seeker after truth, it is necessary that at least once in your life you doubt, as far as possible, all things." René Descartes

O cérebro humano tem uma propriedade prodigiosa: esquecer-se que tudo o que está à nossa volta é transitório. E dentro desta segurança nas coisas, está o facto de acharmos que muitas coisas há que são eternas e que estarão sempre lá. Aliás, essa tendencia de pensamento começa logo desde cedo: o normal comportamento de um adolescente é de fazer as coisas achando-se Imortal. A morte é, nessa idade, uma daquelas coisas que está mesmo muito muito longe... Há planos que se fazem tendo em conta isso mesmo. Aliás, um plano, para existir, pressupõe uma base solida e consistente.
O que fazer, então, quando essa base, na realidade, não existe?

Reparem, a Dúvida Sistemática de Descartes não é a negação da Existência das coisas. Uma coisa existe... mas também pode não existir. É uma espécie de plano de contingência. E, para mim, uma maneira de verificar a veracidade, a realidade das coisas. Descartes pensava da seguinte forma: "só tenho uma certeza: eu existo." Aliás, é dele a celebre frase, que eu parafraseei dando origem ao título deste blog: "Penso, logo existo (Cogito, ergo sum)". E a partir daí constroi-se todo um sistema de pensamento. A dúvida sistemática leva à evolução das coisas. Porque é como se se pusesse todo o Universo a trabalhar, a mover-se. Ao questionar as coisas, e tudo o que lhes diz respeito, adquire-se uma nova perspectiva, avaliando a necessidade da existência das mesmas coisas, a sua pertinência, se são adequadas, o que se deve mudar, como se deve mudar, entre outras belezas do género. Para tudo isto, é necessário um forte sistema lógico e a constante verificação das premissas de base, garantia que a dedução final é válida e logicamente real.
Podemos, com tudo isto, incorrer no erro de aceitar pressupostos e "realidades" de outros como nossas. Mas isso é um erro que vai contra a premissa fundamental "só eu existo (porque penso)". É importante questionarmos tudo, ams tudo mesmo. Não é, como se vê, um imperativo de cariz espiritual (ou só desse cariz). É um imperativo da Vida. Há que duvidar das coisas, duvidar da sua certeza, procurando justificar a sua existência com razões e provas válidas.

A busca de provas é algo que se prova, muitas vezes, infrutífera. A dúvida sistemática não obriga à procura de provas, mas simplesmente, raciocinando sobre a existência das coisas. É um princípio básico dos racionalistas e, como é natural, um racionalista só pens em termos teoricos, para depois poder aplicar as suas deduções à realidade. É claro que a teoria é a mãe da prática e, como boa filha, esta fornece à mãe as provas... quando lhe convém e elas sejam possiveis de ser entendidas pela nosso limitado aparelho sensitivo. É por isso que eu prefiro aplicar a dúvida sistemática como um ponto de partida. Mas não é fácil lembrarmo-nos de o usar. Como disse no início, o nosso cérebro gosta de ter dados seguros e certos sobre os quais trabalhar e, quando não os têm nem sabe se os terá, assume que eles existirão, algures... é um erro que causa muitos transtornos mas que pode ser evitado. Mas não se preocupem (as almas mais perturbadas por falta de solo firme). Porque assim que começarem a duvidar sistematicamente das coisas, rapidamente encontram pressupostos mais logicos e realistas que vos deixarão mais tranquilos quanto ao futuro (um futuro, lembro, do qual nunca fomos nem seremos donos). E assim, sem saberem, terão evoluido mais um bocadinho.

21 de setembro de 2008

Ele avançou pelo pavilhão adentro. Trazia o seu instrumento na mão e algum receio. "Está na hora", pensou e assim, levantou a cabeça. O que traria aquela noite? Uma coisa era certa: memórias, e isso já estava a trazer.
Sabia que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. Era inevitável, tal como ele sabia pela experiência anterior, que os dois grupos teriam que se encontrar para "medir forças". Não era fácil para ele estar agora no "outro" grupo, um grupo que ele próprio não via com bons olhos aquando da sua primeira passagem por aquelas paragens.

Metam isto na cabeça: nunca nos livramos completamente das situações que nos foram importantes. Mais cedo ou mais tarde acabamos por ir parar ao "local do crime". Mas as boas notícias são que as coisas nunca são iguais duas vezes. Ou antes, cabe a nós que as coisas não sejam iguais duas vezes. Vocês gostam de comer duas vezes seguidas (em duas refeições) a mesma coisa? Isso pode sempre acontecer mas está tudo nas nossas mãos, se gostámos da ultima refeição e queremos repetir, ou se queremos mudar. Deixando as dicas gastronómicas, são às lições do passado que devemos ir buscar as raízes das nossas escolhas, se é que queremos que tudo corra da melhor maneira possível, se queremos que alguma coisa mude, se queremos que as coisas sejam ainda melhor.

"-Tenho uma coisa para te dizer...
- Força!
- Lembras-te do quanto eu vos fazia a vida negra?
- Se lembro. Aquilo era terrível...
- Pois era. Na altura eu era um grande sacana, bastante diferente, acho daquilo que sou agora. E é por isso mesmo que te quero pedir desculpa por todas as coisas que eu te fiz e aos outros."

N. não respondeu. Continuou a falar das coisas estúpidas que lhes chegou a fazer mas ele reconheceu nos olhos de N. que este ficara surpreendido com o pedido de desculpas. Estava na altura de acertar contas e ele sabia-o. Assim o fez e isso trouxe-lhe um pouco mais de tranquilidade no meio de todo aquele remoinho de emoções. Foi com muita comoção que reencontrou velhos companheiros de caminhada, que suaram ao Sol com ele e apanharam chuva, que partilharam glórias e derrotas, com os quais se riu e chorou, com os quais partiu à descoberta de novos mundo, e, mais importante que tudo isso, com os quais cresceu. Reencontrar tais anjos no caminho é um prazer ao qual raramente se dava. No final, a ansiedade que antecipou o acontecimento deu lugar a uma tranquilidade e alegria que fez com que não quisesse sair dali. Afinal, há passados que vale toda a pena relembrar...

13 de setembro de 2008

Nuvens. Ontem vi algumas. Mas não eram nuvens normais. Achei estranho o carácter tão ténue e negro daquelas nuvens (se é que lhes posso chamar isso). Eram umas nuvens muito ligeiras, muito finas, não muito altas (tanto que pensei estar embrenhado nas mesmas) mas muito escuras. Nada mais havia no céu sem ser essas nuvens... e um pôr do sol magnífico. Era isso que me "perturbava", o carácter único dessas nuvens, no meio de um cenário tão positivo. E, além disso, notava-se claramente que elas estavam a ser sopradas desta zona para fora...
Olhei e sorri. "Que bela analogia!". As nuvens que se tinham aglomerado sobre a minha cabeça lentamente tinham começado a ser sopradas para bem longe, onde se podiam ver o quão ridículas eram, comparadas com tudo o resto que se passava à minha volta. No entanto tinham sido o suficiente para estragar a paisagem.

Tudo na Vida é uma escolha. É muitas vezes difícil de analisar imparcialmente, em absoluto (haverá absolutos na vida?) a dimensão, a gravidade de algo, a sua importância, o seu peso. Sabemos na pele o quanto nos afecta (quando nos afecta), o quanto dói e isso muda dramaticamente a nossa perspectiva sobre as coisas. Mas há que transcender as coisas, aquilo que nos acontece e eu sei o quanto isso é tão difícil, assim que começamos a centrarmo-nos em nós mesmos. É preciso olhar, abrir os olhos, se não formos capazes por nós, que procuremos alguém ou algo que nos ajude a fazê-lo. O poder está dentro de nós, é só querer mesmo alcança-lo, com propósito puro, com todo o coração e ver o que, querendo, aparece sempre. A Luz, como todos (consciente e inconscientemente) sabem, conquista sempre a escuridão, sendo que o contrário nunca se verifica.

Uma curva, outra curva, agora uma recta... acelerou. A paisagem deslizava suavemente a seus pés, os cenários sucediam-se a uma velocidade confortável. Estava com pressa, é verdade, mas sabia que aquele momento era irrepetível, que aquela manhã não voltaria a acontecer e, depois, tudo era novidade, tudo era fresco como o riso de uma criança. Apreciou pois. Memórias distantes assomaram à sua cabeça e ele riu-se. As nuvens, para ele, já estavam longe. Visíveis (ainda) mas longe. O seu coração era de novo isso mesmo: seu! Sentia-o no mais profundo do seu ser, sentia que a sua Vida (mais do que nunca) era isso mesmo: sua! Sabia também que a Vida iria ter as suas quezílias, chatices, lágrimas; era um facto assumido. Não agora. Ao rolar por aquelas estradas simples, rodeado de tão agradável paisagem, sentia que a sua Vida era como o cenário em que se deslocava; nublada ou solarenga, ela Era assim, em toda a sua plenitude e todas os seus matizes. Agora, era altura de aproveitar o Sol.

9 de setembro de 2008

Como pode um som nos fazer voltar à inocência perdida de outros tempos? uma aragem, um aroma regressar a tempos há muito passados, como se de um eco se tratasse? Subitamente o que julgávamos perdido volta. Não é doce, nem amargo, apenas é. Sempre esteve lá, sempre ocupou o seu lugar, sempre marcou a sua presença inequívoca que nós quisemos esquecer no dia-a-dia, concentrados em algo que entendemos que deveria acontecer.
Olhou para o telhado, para aquela pequena esquina onde quase se pendia, meio quebrada, uma simples telha e, sem dar conta, viajou no tempo a uma altura em que não havia electricidade ou gás, somente o calor humano de uma casa, um pequeno pedaço de lenha a arder sobre o lar e as conversas soltas (com mais ou menos entusiasmo) se faziam sentir entre as paredes. Passeou à chuva da manhã, da tarde e da noite, escutou silêncios que não voltam mais e chorou silenciosamente sem ninguém ver, entalado entre a emoção da perda e da descoberta das coisas que, espante-se, não mudaram.

Fez uma pequena curva. "Hoje vou por aqui...". Entrou num túnel e, tangivelmente, era um túnel do Tempo. Outro. Regressou à idade dos risos, das despreocupações, do epicurismo inconsciente que é a infância. Respirou fundo e pensou que, não podendo ser tudo, certas coisas haviam de ser sempre iguais... pelo menos o estado de espírito com que se vivia, se não noutras vidas, nesta vida, que, no fundo é aquela que importa. Mas sabia que as coisas têm que mudar, perdendo coisas, pessoas, lugares pelo caminho...

(...e, até que ponto, não nos perdemos a nós também? Creio que do ponto de vista (certo ou erróneo) que nós somos aquilo que nos rodeia e com o qual convivemos, se perdermos essas coisas à volta, acabamos por perdermos aquilo que somos. E a isto eu pergunto: aquilo que somos, ou aquilo que já não precisamos de ser? E esta pergunta acaba por eliminar o pressuposto que nós somos o que nos rodeia. Porque nós NÃO somos SÓ aquilo que nos rodeia. Isso, aprendi ultimamente, são meros sinais do ponto em que estamos. Também é, mas não somos só. Mais do que isso, podemos sempre voltar sempre àquelas coisas que ficaram para trás, sem que nos tornemos naquilo que éramos nessa altura.)

Mas, naqueles dias, tudo lhe parecia fora do vulgar. Parecia não existir neste mundo, sentindo-se um mero transeunte a observar e vigiar o que o rodeava. O porquê, não o sabia. Passava pelas coisas e as coisas não deixavam nele, por vezes, a mínima marca. Outras, as mais simples por vezes, deixavam nele uma indelével marca e faziam-no mergulhar numa espiral de pensamentos sobre o seu propósito no mundo. O mundo não era, a seus olhos, o mesmo mundo em que crescera, não se sentia integrado nas coisas, sentia que as coisas que fazia eram soltas como uma folha à deriva na superfície de um lago. Antes, sentia-se como que bem enquadrado numa figura, onde tudo o que fazia era suposto e tinha uma razão. Agora não conseguia perceber o motivo pelo qual as coisas aconteciam. Irritava-o esse desconhecimento ignóbil mas já tinha desistido de tentar perceber, por isso, (a contra-gosto) deixava-se levar. A incerteza dessa vida era angustiante por um lado). Ele não gostava de surpresas e não saber o que aí vinha era desesperante. Afinal, uma vida passada a régua e esquadro tinha sido o seu ideal até há uns tempos. Agora, nem isso. Era angustiante para ele sentir-se trancado numa esquadria que outros tinham desenhado por si, ou com o seu auxílio. Saber que o dia-a-dia seria sempre assim deixava-o fora de si.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

O meio termo é difícil de encontrar por vezes, e outras, (como é provavelmente o caso) está mesmo à frente e uma pessoa até desconfia por ser tão fácil. Fácil até pode ser, mas o busílis está em, dentro de nós, aceitarmos que, de facto, é mesmo aquilo que procuramos. As coisas nem sempre se apresentam na forma que esperamos. E no meio deste chorrilho de (creio eu) lugares comuns alguma coisa há-de ser verdade.
Na vida dele, a Verdade era algo que era e que não era. Acostumado a certas verdades, agora mentiras, encontrava mentiras de antigamente que se revelavam verdades estranhamente absolutas. Tentem reconstruir uma casa num terreno que não conhecem e verão. Ele não conhecia este terreno e, apesar de ter entrado nele de livre e espontânea vontade, não lhe agradava.... para já... Preferia muito mais, de vez em quando, voltar a visitar as pessoas, lugares e caminhos em que tinha vivido, voltar aqueles sítios segurinhos, bonitinhos (nos quais gostaria de ter ficado tranquilo - a ganhar mofo e desperdiçado, talvez) procurando (qual vampiro) alimentar-se dalguma da atmosfera que ainda aí se poderia sentir, voltando a sentir-se, por breves instantes, inteiro. Mas, por ora, a visão daquela telha, meio quebrada, com musgo, serviu para fazer virar uma pagina que, não querendo que existisse, teve que existir para que pudesse sentir/perceber que um ciclo se fechava e, assim, pudesse crescer.

27 de agosto de 2008

E eis que, no rescaldo de um fim de dia (de ontem) magnífico, e não querendo tornar este blog num lyrics book (se bem que já é tarde para isso, mas eu prometo que os "lençois" hão-de voltar), aqui fica a letra do "som"...

Wake up kids
We've got the dreamers disease
Age fourteen
They got you down on your knees
So polite
You're busy still saying please
Frienemies
Who when you're down ain't your friend
Every night
We smash their Mercedes-Benz
First we run
And then we laugh 'till we cry

But when the night is falling
And you cannot find the light
If you feel your dream is dying
Hold tight

You've got the music in you
Don't let go
You've got the music in you
One dance left
This world is gonna pull through
Don't give up
You've got a reason to live
Can't forget
We only get what we give


Four a.m. we ran a miracle mile
We're flat broke
But hey we do it in style
The bad rich
God's flying in for your trial

But when the night is falling
And you cannot find a friend
You feel your tree is breaking
Just then

[refrão]

This whole damn world can fall apart
You'll be ok follow your heart
You're in harms way I'm right behind
Now say you're mine

[refrão]

Fly high
What's real can't die

You only get what you give
You're gonna get what you give
Just don't be afraid to leave

Health insurance rip off lying FDA big bankers buying
Fake computer crashes dining
Cloning while they're multiplying
Fashion mag shoots
with the aid of 8 dust brothers Beck, Hanson
Courtney Love and Marilyn Manson
You're all fakes
Run to your mansions
Come around
We'll kick your ass in!

Don't let go
One dance left

New Radicals - Maybe you've been brainwashed too - 1998

Houvessem mais destas assim...

30 de julho de 2008

I'm not afraid
Of anything in this world
There's nothing you can throw at me
That I haven't already heard
I'm just trying to find
A decent melody
A song that I can sing
In my own company

I never thought you were a fool
But darling, look at you. Ooh.
You gotta stand up straight, carry your own weight
'Cause tears are going nowhere baby

You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment
And now you can't get out of it
Don't say that later will be better
Now you're stuck in a moment
And you can't get out of it

I will not forsake
The colors that you bring
The nights you filled with fireworks
They left you with nothing
I am still enchanted
By the light you brought to me
I listen through your ears
Through your eyes I can see

You are such a fool
To worry like you do.. Oh
I know it's tough
And you can never get enough
Of what you don't really need now
My, oh my

You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment
And you can't get out of it
Oh love, look at you now
You've got yourself stuck in a moment
And you can't get out of it
Oh lord look at you now
You've got yourself stuck in a moment
And you cant gt out of it

I was unconscious, half asleep
The water is warm 'til you discover how deep
I wasn't jumping, for me it was a fall
It's a long way down to nothing at all

You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment
And you can't get out of it
Don't say that later will be better
Now you're stuck in a moment
And you can't get out of it

And if the night runs over
And if the day won't last
And if your way should falter
Along this stony pass

It's just a moment
This time will pass

U2 (2000) - Stuck in a moment - All that you can't leave behind album


Pronto, eu sei que é U2 (sem minimizar, claro, mas nao é das minhas bandas favoritas) mas houve "Alguém" que pôs isto a tocar na minha jukebox mental e não pude resistir... Fits like a glove! ;) E "Eles" sabem...

P.S. - Como é natural nestas coisas, ao ir à procura da letra encontrei o video. Recomendo-o, como complemento do sentido com que postei a letra. Adoro a cena final! ;D

23 de julho de 2008

Surgiu-me nos últimos dias uma pergunta para a qual não tenho tido resposta: porque é que queres tanto dar a mão a alguém que não está, e ignoras as que estão estendidas?

Bem, é uma pergunta manhosa. Não tenho resposta e, francamente, sinto-me um pouco constrangido. Porque pareço ingrato, pareço desprovido de qualquer sentido de reconhecimento por aqueles que me cedem o seu tempo e boa-vontade, vendo-me mais em baixo (ou mais em cima), continuando-me a focar em quem não devia ter nenhuma consideração ou impulso de lembrança. O que é passado, passado está. No entanto, a nossa mente continua a processar e a lembrar-se de coisas perfeitamente inúteis ou que, existindo, só servem para nos magoar. Não é esse o caminho que quero mas também sei que bloquear-se esse tipo de pensamentos é inútil, uma perda de tempo e, em última análise, podemos ficar seriamente magoados. Que fazer então? Que fazer para esquecer a saudade do que nos fazia sentir bem?
A resposta óbvia é arranjar novas memórias, fixarmo-nos no presente e viver um dia de cada vez. Ora, isto, mais uma vez, não é fácil, e, de momento, é um trabalho de paciência. E essa foi outra coisa que me apercebi hoje. Este é um tempo para estar quietinho, esperar e ter paciência. Muita paciência. A inquietação e anseio por tempos antigos, em que a vida corria a 1000 à hora e pouco se pensava nela, pode assolar-nos de quando em vez mas há que reconhecer que tudo está certo no momento em que as coisas acontecem (como me vou rir quando reler isto). Não o tinha reconhecido até agora. Revoltava-me estar "quieto" em casa, não poder sair, ter sempre o mesmo dia-a-dia e, acima de tudo, esperar quando sentia (e sinto) que tudo à minha volta corre sem parar. "E eu aqui parado a olhar!", revoltava-me eu. Mas é suposto ficar a olhar (nem tudo o que é suposto sabe bem, não é?). É tempo disso. E, assim, esperarei.

12 de julho de 2008

Olho para trás, vejo tudo quanto escrevi e penso: serei este mesmo Eu? Penso na imagem que poderei dar ao escrever todas estas letras, todos os pequenos textos em que me exponho, em que tenho exposto toda a dor que me vem assolando (a qual é bem maior do que aquilo que descrevo) e chego à conclusão que devo parecer uma pessoa horrível, amargurada e totalmente desiludida com a Vida.

Estão certos.

No entanto, esse grau de desilusão a que cheguei permite-me largar todo o ser tendencial que existe numa pessoa que não desceu ao fundo do poço (será?) e poder tentar avaliar, imparcialmente, o valor que esta Vida tem.
É de noite e, por isso, as minhas palavras poderão sair mais... benevolentes. Hoje dei por mim a pensar, seriamente, que só as pessoas que receberam muito más notícias a seu próprio respeito e que vêm o seu futuro limitado é que (dizem) conseguem ver a Vida em todo o seu esplendor e beleza, dar o seu "real" valor (seja o que isso for). Pois nestes dias, apercebi-me que já dava à Vida algum valor no passado mas, no fundo, tudo acaba por correr em auto-gestão, ou seja, damos sempre tudo por garantido, que todas as coisas sempre estarão lá. Ora isto, quanto a mim, poderá ser duplamente perigoso: por um lado, isso é uma ilusão perigosa que, assim que se desvanece, mostra o quão periclitantes somos; por outro lado, desvanecida a ilusão em que se vivia, e tomado a consciência daquilo que aparentemente somos - um "grão" fugaz ao vento desta realidade - corre-se o sério risco de nos acharmos ainda mais diminutos e irrelevantes ao tomarmos consciência em simultâneo que, apesar de partirmos a qualquer instante, o mundo continuará, impassível e inamovível, como se nada fosse. "Céus, é a minha vida! Ao menos tirem um diazito de folga para pensarem no que se perdeu!", pensam então, e eu pergunto, vocês pensam nos milhares que estão a morrer de fome, de doenças, nos que estão a lutar contra doenças incuráveis, que dariam tudo para ter mais um dia como tiveram em tempos idos... o que eles não davam pelos tempos idos... Quando esses partem, lembram-se deles? Sabem sequer que eles partem? Não, pois não?... Por vocês também só os que vos são chegados é que se lamentarão mas o mundo continuará a girar e as pessoas a cantar no carro e a jantar alegremente em redor da mesa, enquanto que, ao redor de outra mesa, outras pessoas choram porque se extinguiu aquilo que para elas era uma Luz. E essas pessoas não serão as mesmas porque tudo na vida nos muda, e afinal, o mundo não é o mesmo porque essas pessoas mudaram. Porque o mundo somos nós. "Mas ele nao vai parar quando partirmos!!". Pois não. É angustiante, não é? Muito para além da mítica depressão de adolescente em que nos apaixonamos por correntes filosóficas que exploram essa vertente angustiante da Existência da vida.

A Existência? O que é isso?

Eu não sei e gostava que me explicassem. Porque as explicações que eu tenho, tenho-as tirado do que me acontece e, mesmo assim, não é com a frieza lógica de um raciocínio, o que contribui para uma franca confusão. São mais as excepções que a regra, antes, é mesmo a lógica de "cada caso é um caso". E é com base nisto tudo que olho e vejo (quando não estou perdido de nauseas e vertigens, deixando-me terrivelmente pessimista) que a Vida é, de facto, um milagre. Não o digo por ser bonito, não o digo tendo-o em mente todos os dias (nem de semana a semana, se calhar), não o digo porque estou quase a deitar-me e foi mais um dia que passou e ainda estou grato por estar vivo sem saber o que o amanhã me reserva. Digo-o porque é de facto um milagre, um milagre existirmos, um milagre termos essa capacidade de podermos mudar o mundo, de poder ter consciência do que nos rodeia (para o Bem e para o Mal), de apreciar (quando temos cabeça para isso) as coisas boas da vida, de sentirmos o Bem, o Amor, a Felicidade, a Alegria, a Vitória, o Mal, o Ódio, a Tristeza, a Desilusão, a Perda... Parafraseando o slogan de uma campanha, "É seres Humano, estúpido!". Se estou vivo, porque é que não hei-de aproveitar isso mesmo? É que mais facilmente estamos mortos (numa La Palissada de génio)! Isso sim, é que é para sempre! E aí é que não poderemos gozar nada (quem me conhece sabe que não sou totalmente desta opinião), não podendo usufruir, pelo menos, de tudo o que temos no presente. E essa história do Presente ainda é outra: sendo tudo tão fugaz e irrepetível porque é que não se há-de aproveitar tudinho até ao fim (desde que possamos)? Até as lágrimas, até as saudades...

É que somos um "grão", sim... mas um "grão" de Ouro!

4 de julho de 2008



Esta é sobre ti. Tem amor e ódio é para ires
ouvindo nas tuas horas de ócio.
Ínfima parte de um sonho perdido, libertei-o já
o tinha esquecido. É o sinal.
Espero um momento na sombra da rua, ouço
uma voz que me lembra a tua.
Passei pelo risco de sofrer por não ler
os teus sinais.
É o sinal para recomeçar.

Quero ver gente, quero ver a terra
chegar a casa e ter alguém à espera

quero um presente, quero ser bera
quero ser submissa, quero ser a fera
.

Leva-me às areias quentes que mastigam os
sentimentos e me deixam nua perante os
elementos. Ensina-me a escavar objectos sem
estragar, para que sorrir seja sempre vulgar.
Dá-me de beber finas gotas desse mel, para
que o meu saber não esteja só no papel.
Incita-me a lembrar do teu gosto pelo mar para
que um dia fique pronta a zarpar.

Espero que amanhã tudo seja diferente
e que tu possas estar presente.

Refrão (x2)

Incita-me a atirar os dados sem soprar
para que te vencer seja vulgar.

Refrão...

Mesa - Esquecimento - 2003(ou 4)

3 de julho de 2008

"In all affairs it's a healthy thing now and then to hang a question mark on the things you have long taken for granted."
B. Russell (o que eu adoro este homem!...)

Uhhnn?? A sério???...

Ao que eu adiciono (já mais a sério): e se nao formos nós a fazê-lo, a Vida trata disso.

29 de junho de 2008


Olhei-me há pouco ao espelho e não gostei do que vi. Não gosto do que vejo. Estou cansado, cansado demais para tudo. Sou a imagem da derrota, sinto-me derrotado por tudo, de inúmeras batalhas contra inimigos invisíveis, fantasmas, monstros horríveis, muitos dos quais que fazem parte do meu Eu físico. Dói-me tudo - corpo e alma. Sinto-me irremediavelmente perdido, só tenho vontade de chorar e não consigo, as lágrimas não me saem e ainda fico mais irritado por isso. E depois, pergunto-me: para quê? Para quê chorar, para quê entrar num pranto se vou continuar a sentir-me mal-disposto, derrotado, fraco, muito fraco... E prossigo, contendo tudo, tendo medo de tudo o que faço e de todos quanto encontro porque me sentirei mal e não posso sentir-me mal, "é uma vergonha, um homem assim e a sentir-se mal, olha para a figura que estás a fazer... Fraco, fraco!!..." Falta-me o ar, respirar fundo não ajuda, não me tira a dor, o mal-estar, não afasta os fantasmas, os dias passam e são somente "mais do mesmo"... a luz angustia-me, deprime-me (ainda mais, quem sabe), certos sons deixam-me atordoado, ainda mais mal-disposto, é a náusea que me invade e me persegue a cada momento do meu dia... é relato de dor este... de nada adianta contar mas esperava, secretamente, que ajudasse... no entanto, pelos vistos, este "mal" não desaparece nem por nada... é o fundo do buraco, é a Escuridão no seu pior, o espesso Medo para o qual resvalei e me fui afundando, estilo areia movediça... o Medo cerca-me em tudo o que faço, desde o primeiro acordar até ao ultimo bocejar antes de fechar os olhos... cada esquina da Vida me assusta, antes, o dobrar de cada esquina assusta-me, sem saber o que me espera mas sempre antecipando uma dor permanente e injusta... não há uma razão só para isso são muitas e muitas, com raízes profundas, de modo que agora cada coisa desconhecida que me apareça, cada coisa nova (mesmo com boas perspectivas) leva-me a uma desconfiança e falta de esperança atroz. Não esperar nada de bom é um pesadelo que ninguém deveria viver. Creio ser, até, contrário à natureza humana... mas é o meu dia-a-dia...

Que saudades de ser "normal"...

"I was standing by the edge of the water
I noticed my reflection in the waves
Then I saw you looking back at me
And I knew that for a moment
You were calling out my name
You took away my hero
Will you take away my pain..."

DT-1998

24 de junho de 2008

Look around
Where do you belong
Don't be afraid
You're not the only one

Don't let the day go by
Don't let it end
Don't let a day go by in doubt
The answer lies within

Life is short
So learn from your mistakes
And stand behind
The choices that you make

Free each day
With both eyes open wide
And try to give
Don't keep it all inside

Don't let the day go by
Don't let it end
Don't let a day go by in doubt
The answer lies within

You've got the future on your side
You're gonna be fine now
I know whatever you decide
You're gonna shine

Don't let the day go by
Don't let it end
Don't let a day go by in doubt
You're ready to begin
Don't let a day go by in doubt
The answer lies within...

Dream Theater - Octavarium (2005)

Dedicado à Cati, por... tantas coisas, escolhe umas...

17 de junho de 2008

Depois do ultimo comentário que recebi ao post anterior e enquanto estava a escrever a resposta ao mesmo, estava a lembrar-me de uma música (de um grupo do qual já transcrevi algumas letras para este blog). Como referi nesse comentário, uma das maneiras de nos sentirmos felizes é aliarmos a Paz com aquilo que Somos. E é nessa onda que vou transpor a letra, com a qual me identifiquei desde o primeiro momento em que a ouvi. Ressalvo que NÃO concordo com a linha que porei a itálico (pelos mesmos motivos que referi nesse comentário).

Once it was good, just to be alive
Life was so simple, I was satisfied with myself
You were a friend, it was crystal clear
I would have walked through fire for you, oh I swear

Look at me, I came to be the one you loathe
Now I know, it all makes sense
No defence, no more lies or alibis
Truth is pain
I feel for you no more...

Then I was lost, it broke my heart in two
Couldn't believe that you would sacrifice what we had
Now I get by, time will heal my wounds
Vengeance is mine when time will banish you into despair

Look at me, I came to be the one you loathe
Now I know, it all makes sense
No defence, no more lies or alibis
Truth is pain
I feel for you no more...


A.C.T. - Silence (2006)

P.S. - O "I feel for you no more" era a parte em que me andava a enganar... sem admitirmos as coisas, nunca se irá a lado nenhum.

10 de junho de 2008

O passado acaba sempre por nos alcançar. Sempre. Por mais que queiramos fugir, ele vem sempre ao nosso encontro, muitas vezes nem estando presente, sendo só a sua insinuação e possibilidade de existência que leva a uma materialização muito mais real (e agressiva). É como o azeite, é uma verdade que vem sempre ao de cima, por muito que o neguemos. Foge-se por vielas e travessas manhosas, recusando-nos revelar à luz do dia o bicho horrendo que personifica o Medo que nos atormenta. O pior de tudo é que ele ataca sem avisar e (ainda por cima) quando estamos com o pé em desapoio.

Isto é uma confissão.

A todos os que me conhecem pessoalmente e que, no último ano, conversaram comigo sobre este assunto (que direi a seguir) peço, antes de mais as minhas humildes e profundas desculpas. Menti-vos. Redondamente. E foi uma mentira que começou em mim e que, tendo-me mentido, menti-vos a vós porque foi uma mentira de Verdade pintada. A tinta, hoje, borrou.
No que é que vos menti? Simples. Tinha-vos dito que o que sentia em relação à Vânia era um assunto morto e encerrado. "Já a tinha esquecido, já a tinha ultrapassado, já não tinha efeito em mim", dizia eu, incauto da vergonhosa mentira a que me, e vos, submetia. Puro engano. Hoje fui brutalmente confrontado, não com ela (acho que cairia para o lado, extrapolando da reacção que eu tive hoje) mas muito simplesmente com uma situação em que, hipoteticamente, poderia vir a ser confrontado com ela, ou alguém desse tempo. Foram horas tormentosas, ficando sempre à espera de reconhecer em cada cara as "fatais" personagens, levando-me a ficar quase petrificado (e quem me conhece pode imaginar como fiquei), ou seja, o Medo atacava de novo e em força, apanhando-me completamente desprevenido.
No meio disto tudo não sei o que mais me assustava, se o simples acto de a encontrar (ou essas pessoas), ou da desilusão de a encontrar acompanhada (facto mais que natural, caso já tenha acontecido), ou a reacção dela caso me visse (e a minha também). Conjecturas. Factos a reter: sim, ela ainda "mexe" comigo (ou a imagem que dela guardei), em certas ocasiões sinto a sua falta e, mais ainda (e mais importante, provavelmente), nunca digam que aprenderam a lição. Como alguém, há bem pouco tempo, me disse: tu ouviste e fixaste mas não aprendeste a lição. Pois bem, eis-me de novo de volta aos bancos da escola. E, quiçá, ao canto da sala com as orelhas de burro. A todos, espero que me perdoem por faltar à verdade convosco.

6 de junho de 2008

... Do alto do meu promontório vejo-te chegar... Ainda não o sabes mas vejo-te chegar... estás lá longe, vais-te chegando à terra lentamente, como fina poalha que sobre uma mesa assenta... como que por acaso, chegas por entre rasgos de luz, danças de cores, brilhos mil que te rodeiam, pó de estrelas que, fátuas, surgem em pano de luzes e sombras... é uma dança, quase, inebriante, encantadora, com pés de sonho e toque de brisa... celebra-se e, ao longe, não se sabe porquê... a coberto da noite tudo é possível, o artifício do Homem tudo pode iluminar, tudo pode esconder, tudo pode festejar ou carpir... É insignificante, visto daqui, todo o aparato, mas, de facto, parece que só para ti tudo isto foi feito... Quem sabe se até foi?... Aproximas-te e tudo é celebrado, a chegada, a viagem, o que há-de vir e a Névoa onde tudo se esconde... mas ninguém sabe e, à vista de todos, este é o maior segredo que podemos guardar...

5 de junho de 2008

Naar zee, naar zee, naar zee,
O! mijn leven te water laten
Op zee, in de vind, op de golven!
Mijn smaak in grote reizen pekelen
Met door de winden opgeworpen schurm.
Mijn vleesvan avontuur met striemend water tuchtlgen,
Het bot van mijn bestaan in ocean kouden drenken,
Mijn cyclonisch en atlantisch wezen
Geselen, sneijden, kerven door winden, schulm en zon,
Mijn zenuwen als touwladders gestrekt,
Harp in de handen van de wind

Tradução:

“No mar, no mar, no mar,
Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas,
A minha vida!
Salgar de espuma arremessada pelos ventos
Meu paladar das grandes viagens.
Fustigar de água chicoteante as carnes da minha aventura,
Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência,
Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis,
Meu ser ciclónico e atlântico,
Meus nervos postos como enxárcias,
Lira nas mãos dos ventos!”


Alvaro de Campos

... a partir de um poema exposto em Oostende, provincia de West-Vlaanderen, Bélgica.

Quantos poemas à beira mar, nós, a nação que deu novos mundos ao mundo por via marítima, temos nós por cá?

1 de junho de 2008

Há regressos e regressos. Creio que, no imaginário de cada um, a palavra "regresso" possa evocar sentimentos bem positivos e algo nostálgicos. Não sei como é com o resto das pessoas, mas, para mim, "regresso" e "casa" são quase gémeos siameses. Não consigo, espontaneamente, associar regresso a coisas desagradáveis.
Não foi esse o caso deste meu último regresso. Este enquadrou-se perfeitamente no meu conceito: doce, sereno e esperado... rever esta terra bendita e amaldiçoada, sentir o ar (um pouco menos o sol, mas isso não importa), a energia que rodeia... Mas fui apanhado desprevenido. Passo a explicar: a adaptação a um país estranho (estando nós nesse país totalmente sós) é um processo complexo (não é fácil ser romano em Roma). Se não conhecermos a língua, habituarmo-nos à mesma é um trabalho árduo - se depois a queremos assimilar, mais trabalho ainda há a fazer. Depois, os ritmos. Cada país, cada cidade tem o seu pulsar muito próprio; sermos apanhados no remoinho do seu dia-a-dia pode ser complicado mas nada que não se preveja. Por último (e este não se faz em meses mas em anos) a mentalidade. Com este é preciso ter cuidado, não sejamos "contaminados" pela mesma. Uma coisa é compreender, outra é adoptar (a não ser os bons hábitos). Findo tudo isto, sentindo-nos medianamente integrados, a ideia que nos sobrevem é que apesar de tudo mantemos a nossa identidade como cidadão de outro país.

Tudo muito bem.

Experimentem, no entanto, regressar (depois de todo esse trabalho feito) ao vosso país de origem. Pois é, não é linear. Nós já NÃO somos aquilo que éramos. Não somos (no nosso caso) "só" Portugueses. Somos Portugueses e mais qualquer coisa... Qualquer experiência (pessoal) modifica a pessoa. Podemos não gostar, manter a nossa isenção ao máximo mas a questão é que estamos (subliminarmente) a ser modificados, sem nos darmos conta. Sem nos darmos conta, da mesma forma que dizíamos "no meu país, não é assim..." ou "nós fazemos de outra maneira...", passamos a dizer a mesma coisa quando regressamos "lá eles faziam assim...". Isto não implica, ressalve-se, que concordemos com uma maneira ou com outra. No fundo, creio que é uma forma de mostrar que passamos por aquela experiência, que aprendemos qualquer coisa com ela e que (espera-se) usemos do melhor. No meu caso, não nego que, na mudança subliminar, tenha aprendido a gostar do local onde estive; não sei o que é que gosto nele nem porque é que gosto dele - só sei que gosto (será um caso de síndrome de Estocolmo?). Citando Pessoa "Primeiro estranha-se, depois entranha-se...".
... E agora, à luz de tudo isto, pergunto(-me), regressei, ou parti?

12 de maio de 2008

Perder-me. Eis algo que tenho feito por aqui. Tenho-me perdido pelas ruas, com esse mesmo propósito: tão só e apenas perder-me. É uma decisão fácil, basta chegar a um sitio em que nunca tenhamos estado e dizer, "agora vou por aqui" sem saber o que espera ao virar da esquina.
Ontem foi o melhor desses dias (nesse objectivo): tendo ido a Antwerpen (leia-se Ántverpên), não sabendo o que me esperava, deparei-me logo à partida com uma cidade, de um tamanho da qual pensava que só Bruxelas teria neste país. Mas não. Tinha, pois, a tarefa facilitada. Cidade enorme, sem ponta por onde lhe pegasse. E, assim, vagueei...
Porquê perdermo-nos? Por vezes faz falta. Faz falta perdermo-nos, não termos certezas de nada na vida, ou, pelo menos, deixarmos as coisas que julgamos que são referências para que saibamos que podemos (ou não) viver sem essas referencias, desmascarar falsos ídolos, pés de barro, ilusões e miragens que nos desviam de onde deveriamos caminhar... Cada um saberá por onde... E depois as surpresas, os encontros inesperados, as descobertas, a intensa força de descobrir que somos auto-suficientes e conseguirmos, mergulhando na obscuridão, vencer o desconhecido (que tantas vezes assusta) e trazer Luz (ou trazer à Luz) coisas que estavam bem escondidas na bruma.
Acredito, assim também, que ao mesmo tempo que parto à descoberta de novas geografias, novos locais, parto analogamente à minha Descoberta, à procura de novos caminhos no meu Interior, de asteroides no meu Universo pessoal, de novas e maravilhosas galáxias que nos constituem, entrelaçando-se assim os dois actos de forma muito interessante. Perdermo-nos obriga a isso. Obriga a centrarmo-nos em nós mesmos, obriga a ter certezas pessoais, internas, saber que somos capazes, no meio do imponderável, de manter a serenidade. Tendo como ponto de referência o "Estou aqui. Este sou Eu e vim aqui parar porque quis." encontramos novos caminhos para outras paranças, porque aceitamos, à partida, a Responsabilidade do que fazemos (passo enorme) e quem somos. Só esse gesto é revelador, experimentem se o desejarem... Tudo o resto, cada um saberá o que encontrará.

23 de abril de 2008

Ainda a propósito do meu ultimo post, vieram mesmo a propósito as palavras do nosso Nobel estrangeirado. Não posso dizer que seja dos escritores que mais admiro mas é um dos nossos maiores escritores vivos, logo, o que ele diz sempre valerá "qualquer coisa". E rezou ele assim aos jornalistas...

"Não deixando de dizer que "este é um país de coisas negativas, mas é o meu País", revelou que em Lanzarote descobriu o português: "Temos a língua mais bonita do mundo, ela é o ar que respiramos." "Todos somos responsáveis por ela, a começar pela Comunicação Social. Leiam Fernão Lopes, Camões, Bernardim Ribeiro, António Vieira, Pessoa, Eça, Camilo, Antero, Almada Negreiros", aconselhou."

in DN Online, 23/04/08

E mais nada!...

14 de abril de 2008

Pois, passado que está este longo interregno, creio que é altura de dizer qualquer coisa sobre isso...

Não estou em Portugal. Estou, para quem não sabe, numa média cidade belga, chamada Gent. É uma cidade pacata (para uma cidade) tipicamente da Europa central, plana, sem um monte q se veja em milhas ao redor... A minha alma lusitana reclama pelas ondas, pelo cheiro do mar, pelos montes, colinas, serras, vales, pelo sol, pelo ar perfumado que temos e que, desgraçados Portugueses!, não sabem que o têm... Eu, que sabia que iria sentir falta de tudo isso, nunca imaginei o quanto poderia sentir essa falta absurda de uma energia tão portuguesa, de um solo, um ambiente que nos está enraizado no genoma (quase)... É uma sensação quase febril, um estado de falta de saúde, como se nos tivesse sido arrancado um algo que sabemos que nos pertence, nosso por direito e conquista, nosso por Vida.
Não sabemos as bençãos que nos foram garantidas mas isso, creio, é mal internacional... Não temos noção que a nossa maior riqueza é, definitivamente, a gente.. Não temos a "beleza" nórdica? Só para quem não quiser ver! Temos, invés, um coração genuíno e honesto, um coração que, mesmo quando fala pelas costas, pelo menos fala! "És um cabrão (mas não te guardo mais ressentimento do que isto...)". Cão que ladra não morde, já dizia a minha avó.

Falam do nosso Governo, mas esta gente aqui esteve mais de meio ano com um governo provisório! Uma diferença para melhor: ao menos têm os dois pilares da sociedade (Saúde e Educação) bem firmes e assegurados. De resto, tão mau ou pior que nós... Os salários são melhores mas isso é a consequência de bons politicos no passado (outra coisa que não tivemos), influências regionais e não dos políticos do presente... Este é um país à beira da cisão! Em Portugal, goza-se com os tripeiros, com os alentejanos, com os transmontanhos, com os beirões, com os algarvios, os açoreanos e os madeirenses, enfim, uns com os outros, mas nunca, nunca, ouvi dizer a alguém que outrem não era Português, que o Porto, Vila Real, Braga, Faro, Beja, Funchal, São Miguel não são, nunca foram, nunca serão Portugal... já aqui, não é bem assim... A Bélgica é uma ficção num mapa, quando um dia alguém traçou a régua e esquadro uma "zona tampão" entre a Alemanha e a França... no dia a dia, a Flandres e a Valónia são dois siameses que se odeiam (por "N" motivos) apenas unidos por um cordão que só merece o desprezo de ambas as partes por que os mantém estupidamente unidos: Bruxelas. Ódios, ressentimentos de décadas...

É a Saudade a falar?... Talvez... Mas, mais do que isso, é a identidade de ser Português e o contraste de maneiras de ser e viver deste povo que estão a chocar em mim e a revoltar-me... Olhem para todos os grandes vultos da nossa cultura do Passado que passaram pelo estrangeiro e tentem ver para além das linhas causticas que eles nos dedicaram... tentem reconhecer, num Eça, por exemplo, que cada vez que ele criticava os nossos costumes, não era para nos deitar abaixo e minimizar perante outros povos, mas sim, uma forma de nos "espicaçar", a acordar, a sermos tudo aquilo que podemos ser porque ele (tal como eu agora) percebeu que em NADA ficamos atrás desta gente, ela sim, mesquinha e mediocre...

Merecemos mais... é só acreditarem...