7 de setembro de 2009


We must be willing to let go of the life we have planned,
so as to have the life that is waiting for us.

E. M. Forster (1879 - 1970)

ou...
We're like actors, turned loose in this world to wander
in search of a phantom, endlessly searching
for a half formed shadow of our lost reality.
When others demand that we become the people they want us to be, they force us to destroy the person we really are.
It's a subtle kind of murder.
The most loving parents and relatives commit this murder
with smiles on their faces.

Jim Morrison (1943 - 1971)

ou ainda...
If you hear a voice within you say "you cannot paint,"
then by all means paint, and that voice will be silenced.

Vincent Van Gogh (1853 - 1890)

Estava sentado à janela. Na paisagem que contemplava, os campos iam alternando com as aldeias e as vilas, os rios com as estradas e pontes, os rebanhos com as pessoas. Tinham-lhe dito que a viagem iria ser longa, um pouco aborrecida até, mas ele não se importava. Tudo o que importava era o seu destino, o que iria fazer, por isso, mais valia aproveitar a viagem. E de aborrecida não estava a ter nada. Tudo era novo, tudo era grande, tudo brilhava com uma luz de novidade que dava um encanto especial a tudo quanto os seus olhos poisavam. Até os animais que via de passagem eram mais bonitos que os da sua terra ou, pelo menos, assim lhe parecia: as vacas mais gordas e com os úberes mais inchados, os cavalos mais luzidios, as ovelhas com mais lã e maiores, os porcos mais limpos e bem cuidados, os galos e galinhas com a crista mais encarnada e com a penugem mais vistosa, os gansos mais alvos. " 'A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha', é preciso não esquecer isso...", e com este dito sossegou a sua vontade de ter vivido por ali, por aquelas terras onde passava agora, e não na sua terra natal.
A sua terra. Era bem simples. Um punhado de casas no alto de um monte, uma capela com um pequeno largo, um cafézito (por iniciativa do sr. Alcântara, ex-emigrante inconformado com o facto do café mais próximo estar a 10 km. "O café mais caro que eu bebo é aqui 'no' Portugal!") e uma escola, já abandonada há largos anos. De facto, nem Daniel lá tinha andado, tendo que fazer os tais 10 km que o sr. Alcântara se queixava até à sede da freguesia. Depois foi ainda pior, ao ter que se deslocar até à sede de conselho, a 40 km daí, por estradas que nem lembravam ao diabo... ou antes, lembrar lembraram, o problema foi "ele" ter inspirado os engenheiros que as projectaram, com certeza. Naquelas manhãs cristalinas de inverno, indo na caixa da velha carrinha do pai - ou pior, de motorizada - ou enjoava ou perdia um membro com o gelo. Foi duro. As palavras de raiva do pai - "Agora a andar p'ra trás e p'ra frente com o menino, p'ra ele andar a limpar o cu aos bancos da escola... devia era andar a limpar o cabo da enxada co'as mãos, qu'isso é que é trabalho!" - Mesmo assim, no meio de tanta dureza, nos melhores dias, conseguia apreciar a beleza dos campos em redor, cobertor de grossa camade de geada ou da ocasional neve. Parecia que vivia noutro lugar, o que sempre ajudava a atenuar aquele perene sentimento claustrofóbico de nunca poder sair dali. Uma prisão de grades invisíveis. Sonhava um dia sair dali, para sempre, correr mundo, ver outras terras, o que estaria para além do mar que tanto lhe falavam e que nunca tinha visto uma gota dele sequer. Os pais, já de certa idade, também não - o maior curso de água que tinham visto, era o rio da vila. Daquela terra nunca mais quereria saber, excepção feita dos pais, claro, que não tinham culpa de nunca terem podido sair dali, daquela vida de lama pelos joelhos, estrume, pó, fome (quantas vezes...) e ignorância.

- Pai, quero ir para a cidade grande...
- Tu queres é um par de estalos nessa cara, nã' tarda! Já viste o serviço que 'tás a fazer?
Distraindo-se com os seus sonhos de ir mais além, de sair dali, tinha deixado cair o balde das batatas e uma das cabras que por perto pastoreava, atirou-se logo ao tubérculo.
- Sai daí, xô!! Vai... ala!!
A cabra levou a batata na boca e desapareceu. Daniel suspirou.
- Que é que foi rapaz?... Vá lá a ver que há 'munta' batata p'ra apanhar!
- Já vai, já vai, 'mê' pai...
Mergulhou nos seus sonhos de novo, com um olho na realidade e outro na fantasia. Minutos mais tarde, foi o pai que o abordou.
- Que história é essa de quereres ir p'ra a cidade? - perguntou enquanto andava debruçado a apanhar batatas.
- Oh... coisas da 'inha cabeça... - encheu mais um balde de batatas.
- ...tua cabeça não, Daniel Zé. Eu conheço-te 'munto' bem. Quando começas a congeminar, nã' descansas 'enquante' nã' conseguires.
Daniel sorriu. O pai conhecia-o bem.
- Mas ind'é cedo... 'Inda não acabei de estudar, p'ra ter um pouco mais de segurança p'ra quando p'ra lá for trabalhar.
- Esses estudos, esses estudos... e quando é qu'isso acaba?... Já andas a estudar há sei lá quantos anos e ainda 'nã' te vi com ideias de formar família... 'nã' te chega o exemplo de casa? Eu e a tua mãe já nos casámos tarde e até que te tivessemos foi o cabo dos trabalhos... E depois p'ra que é que serve tant'estudo??... no 'mê' tempo 'nã' s'ia à escola e uma pessoa aprendia a trabalhar na 'mêma'... e asinha!
- Oh 'mê' pai, não é nada disso... vocemessê 'nã entende... não ando a estudar pra isto...
- 'Atão' é p'ra 'queia', rapaz?
- Eu... nada... esqueça...
- Ahhhhh... isso nã' me 'chêra' bem... Daniel, filho, a tua terra é aqui... foi aqui que nasceste, foste aqui criado... é aqui que tens as tuas coisas, a terra, a criação... sempre foi aqui c'a nossa familia se deu, desde que nos lembramos... ist'é uma riqueza maior c'áquilo que pensas!
- Eu sei, 'mê' pai... mas à medida que eu fui avançando na escola, fui sabendo de mais coisas, c'a vida 'nã' é só isto c'a gente aqui tem! Há mais terra p'lo mundo, uma vida melhor... 'ê' comecei a sonhar co'a cidade grande, em correr o mundo, em ter essa vida melhor...
- A escola, a escola... essa coisa só dá é despesa e só traz infelicidade... andam só a pôr coisas na 'miolêra' da cachopada, a fazê-los pensarem que são melhores c'ós outros. Depois saem de lá e fodem-se quando dão c'os cornos no duro...
- Oh... olhe que vocemessê 'tá enganado... nã' é bem assim...
- Ah nã' é? 'Atão' 'nã' leves a manta que 'nã' é preciso... ohhh rapazinho, tens muito que aprender... Leva mas é o balde p'ro tractor e mexe 'mazé' essas unhas que 'háqui' muito que fazer...


Anos mais tarde, Daniel acabou o secundário. Apoiado por alguns professores, decidiu seguir para Engenharia Agrícola. Não foi uma situação fácil...

- Mê' pai... eu tenho andado a falar com os 'mê's professores e eles acham que eu tenho capacidade para ir para a Universidade... - disse ele num serão, perto do final do ano.
- Ires p'ra onde?... - inclinou-se no cadeirão.
- P'ra Universidade... estudar pr'a ser Engenheiro... - disse, receoso.
- Engenheiro?... Tu? - disse a meia voz, incrédulo - Quem é que te meteu essa coisa na cabeça?... Alguma vez tens cabeça p'ra seres engenheiro?
- Os meus professores dizem-mo... e eu até tenho notas razoáveis...
- E quem te disse que podes ir? - disse, começando a levantar o tom gradualmente. Daniel remexeu-se no cadeirão, desconfortável - Quem te disse que tens condição p'ra seres sustentado lá? Que podes sequer sair de casa assim, como queres?? Diz-me Daniel, DIZ-ME!!...
- Eu... sei lá. Os meus professores dizem que tudo se arranja...
- "Tudo se arranja"?... - riu-se com escárnio - Coitadinho, oh coitadinho, eheheheh... - e, mudando de tom rapidamente - eles querem é ver-te cair, estatelares-te no chão para depois gozarem contigo...
- Ah sim?? E o que é que eles têm a ganhar com isso?... Dinheiro é que 'nã' é de certeza!
- Errr.. hmmm... - virou a cabeça para o lado e voltou a olhar para ele - Mas o que tu conheces das pessoas para saber o que é que elas têm a ganhar ou não?... Há pessoas p'ra tudo, Daniel, P'RA TUDO!
- Olhe, 'mê' pai: nunca na vida lhe faltei ao respeito e sempre lhe fiz o que quis; ajudei-o sempre que pude, até ao limite. Mas a vida é minha, só minha. Por isso, so lhe pergunto isto, uma vez: tenho o vosso apoio?
- A vida é tua? TUA? Enquanto aqui viveres, tu aqui fazes o que eu mandar, ouviste bem rapazinho? E se eu disser que 'nã' vais, não vais mesmo, e nem t'atrevas a desobedecer porque ainda sou homem p'ra te dar umas bordoadas nessa cara, ouviste bem??
O pai estava possesso. Daniel nunca o tinha visto assim. Nessas alturas sabia que o único remédio era não dizer mais nada. Saiu, com ímpeto, para o calor da noite.
Dias mais tarde, voltou a fazer a mesma pergunta aos pais. A mãe, como sempre, achava que não tinha voto na matéria, só torcia o avental com a tensão do momento. O pai declinou qualquer apoio. Não o olhou na cara. Disse que estava por sua conta e risco, se era assim que ele queria, que se desembrulhasse. E que, insistindo nessa ideia, não voltasse aquela casa enquanto ele fosse vivo.


Daniel foi. Partiu, com lagrimas nos olhos e um punhal no coração, sem olhar para trás. Ao saber que tinha sido colocado na Universidade da capital, tratou, com a ajuda dos professores e de alguns funcionarios da câmara da vila, de arranjar quarto na residência universitária.

Saiu do comboio e pousou as malas. Ficou extático a olhar para a enorme estrutura metálica que compunha a estação. Nunca na sua vida tinha visto algo assim tão... colossalmente grande... "Quer dizer, já tinha visto nos livros mas... ao vivo... é completamente diferente...".
Tirou um papel do bolso e dirigiu-se à praça de taxis. Daí pediu para que o levasse à residência universitária. Era um edifício moderno e havia outros colegas a chegar nesse instante.
- Olá! És novo por aqui, não és?
- Sim... - disse, desconfiado.
- PESSOAL!!! TÁ AQUI UM CALOIRO!!!
Daniel já sabia que isto ia acontecer. Os professores tinham-no avisado e ele já sabia que era só uma brincadeira que eles faziam ao pessoal novo na faculdade. Decidiu falar pouco e só quando lhe mandavam. Após a brincadeira, encaminharam-no para o quarto, tendo em conta as informações que lhe tinham dado antes e instalou-se.
Os primeiros tempos foram dificeis, obviamente. Sem o apoio dos pais, candidatou-se a uma bolsa de estudo e teve que encontrar trabalho para pagar o resto das propinas. O seu tempo era dividido entre o trabalho e o estudo, que incluia aulas e trabalho de casa: muitas vezes só dormia 3 ou 4 horas por noite. Mesmo assim, o seu desempenho não foi mau.

Os anos foram passando. Daniel sentia falta da sua terra natal. Como não podia? Era a SUA terra! Ela estava-lhe no sangue! Por vezes, na rua, no Verão, sentia o aroma da terra quente, o cheiro da flores da sua terra. Parecia-lhe ouvir, de tempos a tempos, as vozes das pessoas da sua terra trazidas pelo vento. Sempre que lhe perguntavam de onde era, dizia sempre o nome da aldeia de onde era, com todo o orgulho, e nessas horas quase que podia sentir as palmadas nas costas dos seus conterrâneos, inchados de orgulho. Nas férias, conseguia, a título excepcional, manter o seu quarto na residência, sendo que as refeições ficavam por sua conta.
Custou-lhe acabar o curso. Sobretudo na Queima das Fitas, em que via os pais de toda a gente a celebrar com os filhos. Ele estava só. Doía, mas essa dor só lhe deu mais força para continuar.

Estava sentado à janela. Na paisagem que contemplava, os campos iam alternando com as aldeias e as vilas, os rios com as estradas e pontes, os rebanhos com as pessoas. Tinham-lhe dito que a viagem iria ser longa, um pouco aborrecida até, mas ele não se importava. Tudo o que importava era o seu destino, o que iria fazer, por isso, mais valia aproveitar a viagem. E de aborrecida não estava a ter nada. Tudo era pequeno, pequeníssimo, como alfinetes: os campos, pequenos remendos; as pessoas, nem se viam; as estradas como pequenos riscos brilhantes no meio do chão; as cidades como um chão coberto de mosaico ao qual confluiam, e no qual rabiscavam, os riscos brilhantes. "Como somos pequenos, tão pequenos... se é assim que Deus nosso Senhor nos vê...", pensou, completamente espantado. Riu-se. Já não pensava daquela maneira havia algum tempo, sobretudo estando já na cidade e trabalhando há alguns anos numa empresa importante. Mas, afinal, o menino que ele fora, o pequeno aldeão da terra gelada de Inverno e ardente no Verão, o caloiro desnorteado e jovem Engenheiro-Chefe, ainda trazia a terra a circular-lhe nas veias. Por momentos o coração gemeu de saudade. Pensou "E se eu tivesse cedido e tivesse ficado em casa, continuado a mando dele?... que seria de mim?... Seria mais feliz?... Estaria satisfeito com a minha vida?...Não sei, e creio bem que nunca o saberei...". Riu-se novamente, olhando para a janela. Mesmo sendo tão pequeno como os que não conseguia ver lá em baixo, ele era diferente. Ele era Seu.

5 de setembro de 2009


This is the true joy in life,
the being used for a purpose recognized by yourself as a mighty one;
the being thoroughly worn out before you are thrown
on the scrap heap;
the being a force of Nature instead of a feverish selfish
little clod of ailments and grievances
complaining that the world will not devote itself
to making you happy.

George Bernard Shaw (1856 - 1950),
Man and Superman, Epistle Dedicatory
...e...
Just to be is a blessing. Just to live is holy.

Rabbi Abraham Heschel

Olhou para as mãos rugosas. Olhou também para as mãos lisas da neta que, por sua vez, o olhava atentamente - era uma espécie de adoração silenciosa, um estudo delicado mas firme de outro alguém que sabia ser só seu. O contraste das texturas era belo, doce, poderoso: em cada ruga das suas mãos, o Tempo fazia-se sentir como força inexorável, aliado forte de dias passados que, alquimista de corpos, transformara a suavidade original em relevo acidentado. Nos calos que as mãos exibiam, mil cantares se encerravam, risos e lágrimas partilhados durante a labuta pelo "pão nosso de cada dia", gestos repetidos com ardor, ânimo e persignação. Agora, nesses montes da carne, poisavam os seus olhos, cantando a alegria da jornada que findava a um sol que se punha plácido, na contemplação longínqua dos ribeiros de suor transpirado com prazer, nuns dias, com resignação, noutros. Do alto dessas colinas avistava as lisas e frescas planícies das mãos da neta, potencial de Tudo, terreno a ser semeado, casa a erguer, simbolo do Devir, sonhos a cumprir. A beleza de todo esse "pode ser que...", o encantador mistério encerrado na pele imaculada, por trabalhar, era para ele como jangada em águas calmas de um espelho de água de margens indefinidas, transportando-o em inércia a todos os lugares onde gostaria de ter ido, visitando gestos que gostaria de ter feito. Era tempo certo de o fazer.
Sorriu, com beatitude. Era uma doce sensação que gostaria que perdurasse em si para poder saboreá-la com a calma que o momento merecia. Não foram muitos os momentos em que tal sensação lhe adveio: os raros elogios do pai, austero; a conclusão de um trabalho particularmente árduo e exigente; o primeiro olhar trocado com a sua mulher; o primeiro beijo, a primeira noite de amor; o primeiro sorriso dos filhos e dos netos; todas as vezes que viu o mar, que mergulhou nele; a descoberta de uma música que o tocava; as paisagens de perder o fôlego; as novas sensações que inundavam os sentidos...

- Avô, tens as mãos bonitas! - pausou, inclinando ligeiramente a cabeça, sorrindo - Quando for grande quero ter umas mãos como as tuas.
- Hás-de ter, querida! Mas tens de dar tempo ao Tempo... - e riu-se, num riso rouco, calmo.
A neta não respondeu. Não sabia o que responder. Continuava em adoração, o olhar viajando entre a cara do avô e as mãos. Fixou-se nos grandes olhos azuis que o avô tinha. Sabiam-lhe bem, eram bonitos, faziam-na sentir-se bem, confortável, em casa. Família.
- Tens a certeza que vou ter assim as mãos?... Que é que fizeste para tê-las assim?
Nova riso rouco. Às vezes, parecia que ela só lhe fazia estas perguntas para o ouvir rir.
- É muito simples: não tive medo de viver. Tudo o que quis fazer, e tudo o que tinha que fazer, fiz. Imagina a vida como um grande baile com incontáveis convidados, todos muito bem vestidos nos seus trajos de gala. Durante o baile, sempre alguém me pedia para dançar, ou queria dançar com alguém, dançava. Uns têm dois 'pés esquerdos', outros sabem dançar como anjos, mas o que importa é a dança em si, o movimento, o saborear a música, o sentir-mo-nos a rodopiar com outra pessoa que não tinha obrigação nenhuma de dançar connosco, a partilha de uma experiência, a acção. - pausou, de olhos postos nela - Sabes o que é o Tempo, querida?
A neta parou pensativa. Era uma pergunta que era mais complicada do que o que parecia.
- Não sei. O Tempo é o mexer dos ponteiros, não é, avô?
Uma estrondosa gargalhada ecoou na divisão iluminada pelo sol da tarde.
- Como tu és sábia, minha querida!... É quase isso. O Tempo é o que a Vida é. É o decorrer da Vida. É o que tu fazes na vida. São todos os instantes que acontecem, é tudo o que acontece. - olhou para a neta, para ver se ela o estava a entender - Os relógios só enganam. O teu verdadeiro relógio é o teu coração. - disse, picando-a ternamente com a ponta do indicador no peito.
Ela sorriu com a ideia do coração ter uns ponteiros e, de vez em quando, um cuco a saltar lá de dentro. De vez em quando, quando se assustava ou estava muito triste, sentia uma dor no coração. Será que era o cuco a picar-lhe o coração?
- Avô, gosto muito de ti! Quero ficar sempre contigo... - disse, com um sorriso na cara e uma seriedade de eras no que dizia, solene, sólida, ponderada. O momento era de uma doce violência que o apanhou desprevinido: era intenso, um daqueles momentos em que o Tempo se condensa, expandindo-se para lá da percepção dos sentidos, para lá da Razão. Os olhos do ancião marearam-se de lágrimas.
- Estás triste, avô? - disse, assustada.
- Não, querida, não... - respondeu, tranquilizante - Estou muito feliz. Também quero ficar contigo para sempre. E vou ficar contigo para sempre. - disse, inclinando a sua cabeça na direcção dela, encostando por fim a sua testa á testa dela - É uma promessa que tenciono cumprir! - e beijou-a na testa, sorrindo.
A neta saltou do colo do avô e correu para o jardim, aos saltinhos. Ele observou-a, na perfeição do momento. O conforto, o alpendre em que se encontrava, o jardim completamente florido, o perfume que se libertava das flores, intenso de calor e sensações, a neta que brincava por entre elas, no seu mundo perfeito. Um dia, o Tempo cobraria o preço desta e de outras bençãos, levando-o para outro mundo, desconhecido, por vezes assustador mesmo. Mas agora não era tempo disso: ele estava ali e isso, como poucas vezes na sua vida, fazia todo o sentido. Alongou o seu olhar até à linha do horizonte, vislumbrando o mar ao longe e deixou-se mergulhar noutros pensamentos de Verão

A neta voltou ao colo do avô com um bicho que tinha encontrado no jardim. Era uma pequena lagartixa, apanhada desprevinida durante um banho de sol. O avô riu-se quando lha mostrou.
- Avô, o que é que as sardaniscas comem?
- Bicharada mais pequena que ela. Aranhiços, mosquitos, coisas assim... - Uma nuvem passou pelo rosto da neta.
- Que pena... se elas comessem o mesmo que nós, ficava com ela e dava-lhe de comer. Depois podia brincar muito com ela! Não era bom, avô?
- Era muito engraçado, querida, mas sabes... eu acho que é melhor as sardaniscas ficarem no jardim e nas pedras onde apanham sol. É que elas não gostam de viver em casas, como as pessoas, os cães, os gatos ou alguns passarinhos. Aborrecem-se muito. Depois ias querer brincar com ela e ela não ia querer. Não gostavas que isso acontecesse, pois não, linda?
Ela abanou a cabeça, olhando para o bicho que estava fechado dentro das suas mãos, só com a cabeça de fora, imóvel.
- Vou pô-la no muro outra vez. Assim ela fica contente! - sorriu - Se a voltar a encontrar, depois brinco com ela.
O avô riu-se e a criança foi a andar para o jardim, olhando para o bicharoco. Quando regressou, o idoso pegou de novo nas mãos da neta. Estavam agora ligeiramente sujas de terra e ele sacudiu-as com carinho, beijando-as no final. Eram tão pequenas comparadas com as suas. Parecia-lhe difícil acreditar que, um dia, também as suas foram assim. Era quase mágica essa modificação, mas assim era o Tempo: mágico, impassível no seu ritmo e seus humores, silencioso; um artista plácido. Embalado nestes pensamentos, continuou a embalar-se e à neta na cadeira de baloiço, saboreando o sol que se abeirava da linha do horizonte e a brisa cálida com sabor a sal, terra quente e mato que, em brincadeira, fazia breves aparições aos seus sentidos. Naquele momento, sentia os dias cinzentos, de lágrimas, de tristezas, tão úteis como o cimento entre os tijolos nas paredes de uma casa: não eram bonitos mas eram necessários para que a casa crescesse, sólida e inabalável a tempestades futuras, confortavel e acolhedora a dias de sol.
Olhou para a neta, que já dormia, mergulhada em sonhos de fábula que só ela sabia. As mãos, entreabertas e indefesas, pediam carinho sincero e amor livre, às mãos cheias, e ele beijou-a ternamente na testa. Aconchegou-a mais para si e, neste ninho improvisado, viajou pelos vales, montes e covas das suas mãos, olhos de regatos, olhando de novo para o Futuro, saudoso.

3 de setembro de 2009


If you hate a person, you hate something in him
that is part of yourself.
What isn't part of ourselves doesn't disturb us.

Hermann Hesse (1877 - 1962)

"Bolas! Grande bruto!", pensou uma senhora que lhe passou ao lado. "É melhor sair daqui depressa, não vá ele virar-se para trás e fazer-me qualquer coisa..."
- Anda, Vicêncio... - puxou pela trela do cãozito que acabava de fazer as suas necessidades ali perto. O pobre Pequinês emitiu um pequeno latido e começou a caminhar, após uns breves momentos de arrasto. A senhora de idade, apressou o passo, afastando-se e olhando sempre para trás.
Cristovão não ligou. Estava habituado àqueles olhares constantemente, sobretudo naquela pequena vila do interior, mais ainda depois de ter vindo da cidade grande, onde vivera quinze anos longe do local onde nasceu. A sua passagem em público fazia notar-se com todo o estrepidar de correntes que ostentava de vários pontos da sua vestimenta, os numerosos piercing's que exibia, as tatuagens nos braços e pescoço e a roupa constantemente negra. Era uma indumentária que marcava bem a sua posição: "não se metam comigo, eu não me meto convosco". O seu rosto era também um cartaz desse aviso, bem exposto.
À sua passagem, a rua esvaziava-se. As crianças que brincavam na rua, desapareciam e o seu riso e gritos de brincadeira cessava de se ouvir; as conversas na esplanada dos cafés cessava; as pessoas de idade, mais frágeis, tomavam um rumo um pouco semelhante à das crianças, mantendo (como se viu pela senhora do cão) a sua posição até que Cristovão passasse. Eventualmente escutava pedaços de conversas meio cochichadas que sabia serem sobre si: os olhares atirados em simultâneo com esse opinar não deixavam margem para dúvidas (caso as houvesse) - "... aquela figura!...", "... vergonha nenhuma na cara...", "... um morto autêntico...", "... mais ferro que a minha casa inteira...", "... o pai dele o visse...", "... drogado...", "... entrava em casa, não!...". Cristóvão passava ao largo destas opiniões, seguindo sempre o seu caminho, impassível.

D. Perpétua era o espelho da pequena comunidade. Impecável e sobriamente vestida, com o seu cabelo de prata quase geometricamente penteado, passava na rua, sendo cumprimentada pela população em geral. Frequentava os melhores círculos sociais, a igreja (da qual era a secretária do sr. Padre), líder da Liga Moral Comunitária e era largamente influente na opinião das pessoas que lhe pediam opinião sobre qualquer assunto, desde a culinária à politica local ou nacional, passando pela jardinagem, apicultura, moda ou etiqueta. Estava, portanto e sem admirar, sempre informada de tudo quanto se passava na vila. Era, no fundo, a verdadeira líder daquela localidade. Pessoa que não a cumprimentasse, ou fugisse do seu olhar, tinha os seus dias contados na estrutura social: sabia dos podres de cada um naquela terra e não hesitava em usar-se desses (ou doutros) "trunfos" (sempre cordialmente, claro está), nos bastidores ou (em casos mais drásticos e raros) frontalmente, para atingir os seus objectivos e (mais que tudo) manter a sua posição na pirâmide social da vila. No seu quadro perfeito e (quase) imaculado da sociedade perfeita que se orgulhava de ser a Criadora e Garante maior, só uma pessoa borrava a pintura: Cristovão.
Lembrava-se perfeitamente do dia em que regressou à vila. Ia a passar pelo Talho Central e viu, do outro lado da estrada, uma figura negra, cheia de metal, coberto de tatuagens de figuras inomináveis que descia do autocarro com uma mala igualmente negra. "Se os meus olhos não me enganam," pensou ajustando os pequenos óculos rectangulares, "Mas aquele é o 'pequeno' Cristóvão Gil, se não me engano!... Deus do céu, que figura horrorosa!!... espero que esteja só de passagem...", abanou a cabeça, seguindo caminho. Mas rapidamente desejou saber mais do que se estava a passar, mas sabia que a melhor maneira de saber era esperar que a notícia começasse a circular: rapidamente lhe chegaria aos ouvidos, dominando os canais de comunicação como dominava.
Mas nada se soube. Perguntou no Mercado, na Farmácia, no Talho, na Padaria se tinham ouvido algo "daquele jovem tão estranho...". Nada.
- Como assim nada?
- Nada, D. Perpétua! Ninguém sabe de nada, ao que ele vem, se vai sair de cá... não se sabe de nada. Só que ele está a viver na casa que era dos avós, Deus os tenha no seu Eterno descanso. - disse a Padeira, tão espantada como Perpétua.
- É impossível! Alguém tem que saber! Ele tem de se dar com alguém! Não pode viver sozinho, desligado de tudo e todos!
- Aí está a estranheza, D. Perpétua: ele vive isolado de tudo e todos. Sai de casa a meio da tarde e não se sabe a que horas chega de madrugada. Com aquele aspecto, de certeza que vai roubar, para arranjar dinheiro para a droga!...
- É o mais provável - disse Perpétua, olhando para o chão, pensativa - mas há que ver que só temos suposições.
- Pois e como diz o mandamento: "Não levanteis falsos testemunhos.", não é verdade D. Perpétua?...
- Pois, pois... - disse, com um ar saturado e gesticulando como que afastando qualquer coisa - mas um caso como o dele é especialmente grave. A segurança da Comunidade e a manutenção da Ordem, Moral e Bons Costumes podem estar em perigo. O Cristóvão é um mau exemplo! Pense nas crianças! Imagine o que é eles crescerem com... aquilo... ao pé deles. Inconscientes como são, os pobres anjinhos, não demorava muito a adoptarem o mesmo estilo de vida, arruinando-as, quiçá, para o resto das suas vidas.
- Tem razão D. Perpétua, como sempre!... O Cristóvão tem de sair daqui da terra o mais rapidamente possível.
- Humpf... - disse suspirando e pegando no saco com o pão - enfim... Na reunião de Quarta-feira da Liga, falaremos mais em pormenor deste assunto...
- Sim, D. Perpétua. Já agora, como está o marido da senhora? Já não o vejo há tanto tempo...
- Ai... muito mal, muito mal... - disse, tomando rapidamente um aspecto sofredor - aquele problema não tem maneira de melhorar... já está assim há tantos anos, desde que sofreu o AVC, coitado... a única coisa que posso fazer é proporcionar-lhe o maior conforto possível, dar-lhe o melhor que tenho e todo o meu tempo, a minha vida... mas enfim... - suspirou - só rezo para que Deus o mantenha comigo pelo maior tempo possível... todos temos a nossa cruz, não é verdade D. Silvina?
- É sim, D. Perpétua, é sim... - disse, abanando a cabeça - Então olhe, as melhoras para o seu marido! Tenha um bom dia para si e Deus vos guarde!
- Deus nos guarde a todos e nos dê o melhor conselho... Adeuzinho, D. Silvina! - e saiu, no seu passo decidido e algo apressado.
Ao longo dos dias, a curiosidade de Perpétua passou de uma ligeira comichão dentro de si para uma ferida no seu orgulho. Tinha de agir, e depressa, para que aquela situação se resolvesse rapidamente. Afinal, certamente a sua imagem estava em risco: a prolongar-se aquela situação, seria vista como incompetente e a sua margem de manobra, influência e reputação seriam severamente atingidas. Foi então que decidiu 'aumentar o lume' e começou a emitir opiniões sobre a hipotética vida de Cristóvão. E assim começaram as conversas em surdina e o clima de suspeição subiu de tom. Mas as coisas mantiveram-se na mesma: Cristóvão manteve o seu estilo de vida e a ferida moral dentro Perpétua começava a tornar-se numa chaga que obcessivamente lhe tomava a vida.
Decidiu então usar a artilharia pesada: o Padre a exortar os fiéis na homilia a afastarem-se de toda e qualquer influência das "ovelhas trasmalhadas da congregação", algumas insinuações públicas que as pessoas deviam fazer qualquer coisa pelas suas mãos e a influência sobre o chefe do posto da Guarda, seu sobrinho-neto, que eles tinham de o travar e investigar quais eram os seus intuitos.
- Sabe-se lá o que é que ele já armou por aí ou roubou!... - dizia, toda vermelha, tal era a sua ira.
- Não se preocupe, minha Tia. - disse o Tenente Vítor, com bonomia - Os meus homens vão tratar disso... vá descansada...
- Mas é mesmo para tratares disso! Não sejas como o teu avô, que Deus o tenha em descanso, que era um preguiçoso e incompetente de primeira apanha. A única coisa de jeito que fez foi casar-se com a minha irmã Maria do Carmo (nunca soube o que é que aquela rapariga viu nele!), que sempre lhe pôs alguma coisa no juízo e o tornou nalguma coisa útil à terra.
Nos dias que se seguiram, Cristovão foi várias vezes interpelado pela Guarda, sem que tivessem obtido informação relevante.

- Está na hora do remédio, Adolfo!... Levanta-te, vá! - disse Perpétua, com desdém.
O pobre Adolfo, com um braço paralizado, consequência do AVC sofrido anos antes, tentava-se sentar na cama com muita dificuldade. Olhou para ela e nos seus olhos bailou um pedido de ajuda que lhe era difícil de verbalizar.
- Ohh, raios! Não faças esses olhos para mim, inútil de um raio! - disse, falando entredentes, enraivecida, dando-lhe uma palmada no ombro, que fez Adolfo desequilibrar-se e descair para a cama de novo. - Levanta-te já, maldito!... oh, tristeza da minha vida!...
Novamente, com esforço, Adolfo, melhor ou pior, conseguiu pôr-se sentado na cama. Perpétua fui até à caixa dos remédios e regressou com uma mão cheia de comprimidos.
- Toma! 'Tá aqui o copo de água... agora engasga-te ou vomita que é para me dares mais trabalho ainda!... até era melhor que te engasgasses, para ver se sufocavas e ias desta para melhor... velho empecilho!!
Adolfo levou os comprimidos à boca com a mão que ainda funcionava, trémula. Tomou-os com cuidado e bebeu a água com ainda mais cuidado.
- ...b'i'aado... - balbuciou o melhor que pôde.
- De nada, estropício! Agora vê se ficas aí quieto! Vou para a sala ver TV... qualquer coisa, geme alto...
Perpétua afastou-se sob o olhar mortiço e meio choroso do marido. Sentou-se na sala com a velha cadela aos pés, pegou no comando da TV e ligou no programa favorito que seguia com entusiasmo. Não pôde deixar de pensar no marido e como foi hábil em relegá-lo a uma posição meramente ornamental na sua vida.
"A minha mãe sempre disse: 'Filha, nunca deixes que um homem mande em ti!' e tinha toda a razão. Era o que faltava ter um idiota a dizer-me o que podia ou não podia fazer, ler, pensar ou ir. Eu é que mando em mim, não um artolas armado em chefe." Lembrou-se de seguida do AVC de Adolfo, de como tinha sido providencial para que ele ficasse definitivamente afastado da sua vida. "Bem, ele poderia não vir a ficar incapacitado como está. Felizmente o meu sobrinho Albano é que o assistiu durante o AVC e 'compreendeu' o que é que eu pretendia sobre o estado de saúdo do Adolfo. Se não 'compreendesse' podia ser que a mulher e os colegas ficassem acidentalmente a saber de uns 'comportamentos' e 'hábitos' muito interessantes que ele tinha, e se nao me engano, ainda tem." Riu-se interiormente e, de dentro de uma cesta com revistas que tinha junto ao sofá, retirou do fundo uma pequena garrafa com whisky e deu um pequeno golo, deu um arroto curto, e continuou a ver o seu programa, satisfeita consigo mesma.

Madrugada alta, Cristóvão regressava a casa. Já no quarteirão onde vivia, a algumas portas de distância, surgiram cinco ou seis encapuçados que o cercaram.
- Que querem? - disse, numa voz calma.
- O que é que estás cá a fazer, monte de lixo? - disse um deles, com tom ameaçador.
- Nada que vos interesse... - disse no mesmo tom calmo, tentando seguir em frente. Barraram-lhe o caminho com mais força.
- Sai da nossa terra, insecto! Isto não é lugar para criminosos! - disse um deles, com voz esganiçada
- Drogado! Agarrado duma figa!! - atirou-lhe outro mais enfurecido.
Cristóvão sentiu então o impacto de um objecto contundente na cabeça, sentindo uma dor fina e perdendo os sentidos de seguida. O que se passou de seguida foi um arraial de pancada épico que o deixou num estado absolutamente lastimável. Passados um par de horas, recuperou consciência e tentou levantar-se. Foi com dificuldade que conseguiu e que se arrastou até casa, onde conseguiu chamar uma ambulância que o assistisse.

Depois de alguns dias internado, regressou a casa, com um braço engessado e várias zonas que tinham sido suturadas. A velha casa dos seus avós, onde tinha sido tão feliz em infância, tinha sido o último refúgio de uma vida que lhe tinha trazido recentemente uma profunda tristeza, um inenarrável sentimento de perda e de dor. Todos dias, ao regressar a casa, em silêncio, após uma tarde no trabalho como dono de uma loja de discos em segunda mão e uma noite a prestar auxílio a quem mais precisava nas ruas da cidade grande, pegava numa das poucas coisas que trouxe da sua vida anterior: um álbum de fotografias. Percorria-o religiosamente, página por página, acariciando de quando em vez o rosto daqueles que tinha perdido numa tragédia da qual não eram culpados.

No regresso de uma viagem pelo país, na companhia dos pais e da noiva que amara (e o amara a ele) desde criança, sofrera um violentíssimo acidente de viação, tendo um camião desgovernado ido contra o carro em que seguiam. Os pais morreram de imediato e a noiva ficou em estado crítico, não tendo conseguido resistir após alguns dias em coma. Cristóvão recuperara a consciência e conseguira sobreviver à tragédia com alguns ossos partidos e inúmeras escoriações quando soube do triste destino que os que mais amava sofreram. Durante alguns meses, tentou retomar a sua vida mas tudo à sua volta o relembrava da vida anterior e das pessoas que perdera. Tentando expiar a sua dor e disfarçar as cicatrizes do acidente, dedidira ir-se tatuando de simbolos e cenas dessa vida do passado, levando as fotos da família, da noiva e de situações em que todos estavam presentes aos artistas para que as imortalizassem na sua pele. Quis transportar essa dor também para um plano ainda mais físico e decidira colocar os vários piercings em diversas partes do seu corpo. Mas a dor não partiu, nunca partiu, nunca o deixaria, sabia-o. Extenuado de uma vida de farsa, deixou o anterior emprego, vendeu a casa onde vivia e a maioria do recheio e decidiu mudar-se para a casa dos avós na vila, onde melhores memórias o rodeariam...

Cristóvão pousou o álbum. Deixou-o escorregar, sem reacção, entre os dedos, para cima da cama. Como sempre, tinha os olhos mareados de lágrimas que teimavam em não escorrer pela face, como se nem os seus olhos tivessem a força para exprimir qualquer emoção mas apenas um vislumbre da tempestade que o assolava interiormente. A dor física, a viagem da cidade até casa, mais que tudo, a saudade, a dor que trazia na sua Alma, a indignação do que lhe tinha acontecido, tinham-no extenuado e ele inclinou-se lentamente na cama, deitando-se de lado. No meio da tormenta interior e da chuva que lhe caia das janelas da Alma, Morfeu consolou-o, embalando-o nos seus braços.

2 de setembro de 2009


As human beings, we are endowed with freedom of choice,
and we cannot shuffle off our responsibility
upon the shoulders of God or nature.
We must shoulder it ourselves. It is up to us.

A. J. Toynbee (1889-1975)

Ocupado com algum trabalho, não me foi possível escrever nenhuma ficção ou um ensaio mais demorado hoje. Por isso escolhi uma citação de um famoso historiador inglês que, por si só, diz muita, muita coisa. Achei muito interessante o facto de ser a pessoa que é, com a sua carga de isenção e agnóstica como supostamente um historiador deve ter, a reconhecer duas coisas que sublinharei: o facto de reconhecer perfeitamente que a liberdade de Escolha é um Dom Humano (coisa que, normalmente, é um dado adquirido). A segunda coisa é o reconhecimento da responsabilidade pessoal enquanto seres individuais e humanos. Consequência do Livre Arbítrio, a Responsabilidade é a filha natural, e para muitas pessoas é como se fosse filha bastarda, de tão renegada que é. Estes dois factos estão, portanto, interligados. Toynbee faz a síntese perfeita numa frase, englobando também Deus e a Natureza. Sim, é um facto que Deus está presente em tudo e que a Natureza, Seu heterónimo, é o modo como tudo se articula. Mas não é a justificação última dos nossos actos e nossos gestos. O facto de ser livre é precisamente o garante de uma responsabilidade pessoal, não alheia. Pessoalmente, creio que Deus existe, sim, em tudo, mas tudo o que acontece é consequência de actos nossos, escolhas nossas ao ver, pensar, fazer... No fundo, creio ser tudo uma questão de deixar Deus mostrar a sua cara, ou escondê-la em véus de Egoismo.

1 de setembro de 2009


He had discovered a great law of human action, without knowing it - namely, that in order to make a man or a boy covet a thing, it is only necessary to make the thing difficult to obtain.
Mark Twain (1835 - 1910), "The Adventures of Tom Sawyer", Chapter 2

Todos os dias ele passava à frente daquela loja. Era mais forte do que ele. Ficava exactamente 5 minutos em frente da montra, especado a olhar para a bicicleta esmaltada. Entrava num estado quase hipnótico, de adoração profunda por aquele objecto, um amor superior ao que tinha pela maioria das pessoas que conhecia. Nessa altura não se lhe podia dizer nada: quem se atrevesse a tamanho sacrilégio, era capaz de apanhar com um pontapé nas canelas, uma pisadela nos pés ou uma ferroada na mão. Mas com força. Era o 'seu' momento. Nada o podia estragar.

Valério não tinha uma bicicleta. Era o único miudo da sua rua que não tinha uma bicicleta, o que o colocava no ponto mais baixo da escala social do seu grupo de amigos e de fora de muitas das brincadeiras. Para eles, as bicicletas não eram só bicicletas, eram os seus cavalos, os seus carros, os seus aviões, as pernas e as asas que os levavam para longe daquela rua, em direcção a um mundo tão real e possível como o jantar que tinham na mesa à sua espera, à noite. Valério não tinha, às vezes, jantar à espera dele. Muitas vezes, em substituição, tinha uma carga de porrada por ter estado a brincar em vez de ter ido trabalhar, que é como quem diz, ir pedir na rua ou ir com o pai apanhar cartão nos caixotes para vender às fábricas para reciclar. Então, quando se dignava a fazer o único emprego que era suposto exercer, recebia em géneros: colheres de pau, lambadas, uma cadeirita ou outra ou até uma mesa quando ia de encontro às mesmas. E jantar que devia ter, era mentira. "Nesta casa só come quem trabalha! Já para a cama, bandido!", gritava-lhe a mãe enquanto o fustigava. Por isso, sempre que lhe advinha uma forte vontade de brincar, Valério não perguntava à sua consciência ao que é que queria brincar; perguntava, isso sim, ao seu estômago se tinha muita ou pouca fome nesse dia. Conforme a resposta, haveria brincadeira ou não.

A bicicleta lá estava: nova, reluzente, com os pneus por estrear (ainda com aquelas espículas de fábrica), mesmo da sua côr preferida. Era o seu sonho, nunca abdicaria dele. Um dia, levá-la-ia dali e com ela faria a mais longa viagem da sua vida, para longe da sua rua, para longe daqueles amigos que o ostracizavam, dos pais, dos irmãos que ainda eram piores, dos colegas da escola (que de quando em vez diziam que cheirava mal - mas como, se ele tomava banho todos os dias!), no fundo, para longe da realidade em direcção a um mundo em que não houvesse pancada, em que o jantar existisse sempre a tempo e horas na mesa (de preferência, bifes com batatas fritas e ovo estrelado), em que os colegas não dissessem que cheirava mal e em que os amigos não o deixassem para trás. Aquela bicicleta era a chave, a Liberdade, o Sonho, o seu Tudo. Mas 5 minutos depois, o sonho terminava. O sr. Freitas fechava a montra e a visão que ele tinha acabava. Não o sonho, esse perdurava na sua fértil mente pelo resto da tarde, pela noite dentro. O sr. Freitas não era mau: simplesmente tinha de fechar, e Valério compreendia. A noite estava a chegar e as pessoas tinham o jantar à espera na mesa; se fosse ele também ia a correr. A noite também era a melhor parte do dia para Valério. Era quando tudo ficava em silêncio, quando não havia ninguém que o chateasse (tirando um eventual espernear de um dos 4 irmãos com quem dividia a cama), quando a seguir havia o pequeno-almoço antes de ir para a escola, mas era, acima de tudo, quando podia mergulhar no seu mundo de sonhos e, assim, visitar a sua montada de sonho. Todos os dias, ao acordar, pensava 'Aquela bicicleta vai ser minha!' e depois de esfregar a cara com um pouco de água fria e sabão azul e branco, lá se preparava para ir comer uma pequena côdea de pão meio-seco com marmelada e um copo de leite.

Era o fim das aulas daquele ano. Como sempre, a criançada saía a correr das aulas aos gritos, com mil sonhos alimentados a dias de Sol e banhos de Mar. Todos menos Valério. Ele saía de mãos nos bolsos, meio acabrunhado, a olhar para trás, a desejar ardentemente que as férias acabassem no dia a seguir. Valério gostava da escola - mas não dos colegas que diziam que ele cheirava mal -, da professora, de desenhar, do giz na ponta dos dedos, do que lia nos livros. Era bom saber que havia mais terra para além daquela em que vivia, que havia coisas diferentes e novas a ver, caminhos a percorrer, comidas a experimentar, pessoas a conhecer. Na escola, como à noite, Valério sonhava.
Saindo dos portões, ia caminhando para casa, passando como sempre pelo sr. Freitas. Hoje tinha mais tempo, tinha saído mais cedo, e o seu coração estremeceu de entusiasmo - podia ficar a ver o que mais desejava durante mais tempo, sentia que ia ficar mais perto dela. Mas a hora chegou e a loja teve de fechar. Como sempre, o sr. Freitas saiu cá fora e começou a puxar o gradeamento, sorrindo para Valério.
- Olá Valério!
- Olá sr. Freitas. - respondeu, meio envergonhado, desviando por momentos o olhar da bicicleta.
- Então? Último dia de aulas, não foi?
- Sim. Foi bom. Houve uma festa, os meninos levaram bolos, cantámos, desenhámos... mas já acabou.
- E tu? Levaste bolos?... - perguntou Freitas, dando à manivela do gradeamento, conhecedor da situação da criança.
- Não... - baixou os olhos por instantes - Levei uma garrafa de sumo. Os bolos são muito caros.
- Pois são... E agora, que vais fazer nas férias?
- Não sei. Devo andar com o meu pai a apanhar cartão por aí. E depois vou à ribeira tomar banho se ele não tiver nada para me dar a fazer. Os meus irmãos que ainda vão à escola também vão estar de férias.
- E tu brincas com eles? - Deu um empurrão final, com algum esforço, ao gradeamento, trancando-o.
- Não. Eles já são muito velhos, não me querem nas brincadeiras deles. - disse, olhando para o chão e à volta.
- Entao e tiveste boas notas na escola? - disse Freitas, olhando para ele.
- Tive. - esboçou um sorriso - A sra. Professora disse que tive boas notas e que me porto muito bem nas aulas, tirando quando dizem que cheiro mal. Aí vou até a quem me disse isso e dou-lhe um estalo. Mas a sra. Professora nunca me bateu por isso, só me afastava e dizia para me sentar logo, e eu ia.
- Pois, tens de ter mais calma. As coisas não se resolvem com pancadaria. - Valério olhou para o lado, envergonhado. - Mas ainda bem que tiveste boas notas, Valério!
- Sim... - encolheu os ombros.
- Olha, tive uma ideia. Vamos fazer um trato: eu tenho uma bicicleta muito parecida com esta no armazém. Era do meu mais novo, só que ele cresceu e já não pode andar nela. O trato é: se quiseres vir aqui dar-me uma mãozinha no armazém, a tirar as coisas que chegam dos caixotes e a trazê-las para a loja e a fazer estes trabalhos assim mais levezinhos, eu vou-te emprestando a bbicicleta dele. Se te portares bem, no final do Verão, dou-ta. Mas tens de cá vir todos os dias, percebes?
Os olhos de Valério brilharam como uma estrela ao nascer. Seria possível? Uma bicicleta sua? Só sua? A chave da sua Liberdade ali tão perto, tão à mão? Sorriu largamente e olhou para o sr. Freitas.
- Sim!! Eu prometo que venho cá todos os dias!
- Óptimo! - disse, passando-lhe a mão pelo cabelo, despenteando-o. - Eu vou falar com os teus pais para eles ficarem a saber. Mas tens que cá estar todos os dias às 9h da manhã! Combinado?
- Combinado!!

O sr. Freitas acompanhou-o então até casa e falou com os pais. Ao início, não estavam a gostar muito da ideia mas Freitas sabia esgrimir bem os seus argumentos e assim, após largos minutos de conversa, os pais deram a sua permissão - pelo menos o miúdo sempre iria ter alguma recompensa pelo trabalho que faria, e andava entretido em vez de andar na boa vida.
Nessa noite Valério mal dormiu. Ao jantar ouviu os mil conselhos dos pais (com algumas ameaças à mistura) e foi-se deitar. Desde o 'sim' que não caminhava: pairava pelo chão. Mal via a hora de pôr as mãos na bicicleta e sair por aí pedalando, rolando, voando pelos caminhos fora. O entusiasmo era tanto que mal dormiu nessa noite. Só queria que a manhã chegasse.
E chegou. Como prometido, e depois de mais uma sessão de avisos da mãe, às 9h lá estava ele à porta da loja.
- Bom dia Valério! Estás bom? - disse sorrindo. Via bem na cara da criança que todo ele irradiava de antecipação da felicidade.
- Bom dia, sr. Freitas. Sim, estou!
- Estás pronto para um dia de trabalho? - Abriu a porta da loja.
- Estou!
- Ainda bem! Olha, já comeste?
- Já... comi o costume, um bocadinho de pão e leite.
- E não querias mais?
- Não, não tenho mais fome!
- Tu vê lá!... se tiveres fome diz que vamos ali à frente e eu compro-te um bolito...
Valério encolheu os ombros, meio envergonhado.
- Não é preciso, obrigado!
- Então olha, toma lá esta chave, vais buscar a manivela e vais puxar o gradeamento da montra.
Parecia um sonho: ele, a abrir a montra do sr. Freitas. Os colegas nem iam acreditar nele quando lhes contasse. Ao abrir, com alguma dificuldade, o gradeamento, viu de novo o seu sonho, ali, em frente a ele.
Ao longo do dia, seguiram-se mais tarefas: trazer alguns brinquedos para a loja, limpar o pó a algumas coisas em armazém, varrer o chão do armazem, contar quanto é que havia de cada produto armazenado. Ao chegar ao fim do dia, o sr. Freitas disse-lhe:
- Valério, anda cá. Quero-te mostrar a bicicleta. - disse, dirigindo-se às traseiras do armazém. Descobrindo um velho oleado, lá estava ela. Os olhos de Valério brilharam. Não era muito diferente, de facto, da bicicleta da montra - a côr era diferente e estava mais esbatida, e tinha alguns arranhões no quadro. Os pneus estavam, obviamente, vazios, e os calços dos travões estavam meio gastos, mas serviam para o efeito.
- Que tal? Temos de lhe dar um bocado de ar, claro, mas é quase como se estivesse nova. Só tem uns 7 ou 8 anos.
- É linda sr. Freitas.
- Então olha, o teu trabalho para o resto do dia de hoje é ires dar-lhe ar. Se vires que a câmara de ar está rota, pegas nela e vais ali ao sr. Germano, da oficina, e pedes-lhe para remendar ou, se for preciso, trocar a câmara.
Valério acenou com a cabeça e foi à procura da bomba de ar. Assim que encontrou, começou a bombear com algum esforço. Sabia, pelo que tinha visto dos amigos, que não podia dar muito ar senão rebentava. Esperou alguns minutos e ia encostando o ouvido aos pneus para ver se ouvia alguma fuga. Teve sorte, parecia não haver. Imediatamente pegou nela pelo guiador e pôs-se a andar com ela às voltas pelas traseiras da loja. Ao ver isto, o sr. Freitas disse, espantado:
- Então rapaz, não te montas nela?
- Não, sr. Freitas! Eu não sei andar...
- Não sabes andar? Ora essa!! É tão fácil!
- Pois, mas eu não sei... - e virou a cara envergonhado.
- Temos de tratar disso. - olhou para fora do armazém - Anda p'ra ali p'ra fora. Bem, agora prepara os pedais como se fosses começar a pedalar e põe um dos pés em cima de um deles. Isso... Agora, quando começares a pedalar, sentas-te logo e continuas a pedalar sempre. Olha sempre em frente, nunca te esqueças disto! Se precisares de travar, carrega no travão de trás que é este da direita ou, p'ra não ser tão complicado, nos dois ao mesmo tempo. Eu vou estar sempre aqui a segurar-te atrás. Percebeste?
- Sim!
- Estás pronto?... - Valério acenou com a cabeça - Então vá. Primeiro os pedais... Isso... E agora, upa!... Vai, continua a pedalar, sem medo, isso... vamos...
- Não me largue! - exclamou, começando a olhar para trás.
- Não, fica descansado!... olha sempre em frente!... vai... agora vira, dá a volta, isso... trava, vais muito depressa... boa, agora só com o direito... Isso, vai... continua a pedalar... dá a volta outra vez mas não te esqueças de travar antes de curvar... boa, é isso tudo... vá, já chega, agora trava para parares... quando estiveres quase a parar põe um pé no chão... Isso! Vês? Está quase!
- Siim!... - disse Valério, ofegante.
- Quando fecharmos a loja, vamos para a rua, que sempre tem mais espaço e depois treinamos mais um bocadinho. Agora arruma um bocado a bicicleta, põe-na no descanso e vem-me ajudar.
Os minutos custaram a passar até ao fecho mas lá chegou a hora. Depois da loja fechada, Freitas e Valério pegaram na bicicleta e foram para a rua em frente.
- Lembras-te do que te disse?
- Sim! Preparar os pedais, olhar sempre em frente, travar antes das curvas e sempore com o direito.
- Muito bem! Então vamos lá!
Freitas pegou no selim e ajudou Valério a começar a pedalar. Passados 15 metros, Freitas soltou-o.
- Estou a ir bem, sr. Freitas?
- Estás, continua a pedalar e não olhes para trás... isso... vai...
Instantes depois, Valério olhou para trás e percebeu que Freitas já não estava a segurá-lo. A suspresa levou-o a desequilibrar-se por momentos mas continuou em frente. Quando achou que estava longe, deu a volta, como Freitas lhe tinha ensinado e dirigiu-se a ele. Assim feito, travou com o direito, quase desequilibrando-se ao parar.
- Muito bem Valério! Viste como foi fácil!!
- Eu assustei-me sr. Freitas! Devia ter-me dito que me ia largar!
- Hahahahah!! Se to dissesse irias ficar sempre à espera. Assim, percebeste que conseguias andar sem mim! Que tal a sensação?
Valerio não respondeu. O seu sorriso dizia tudo, aquele sorriso de criança que vale mais que todas as palavras do mundo, que qualquer descrição. Freitas sorriu também.
- Então agora vais dar mais uma voltinha, mas só tu, que é p'ra depois irmos embora, ok? Vai lá...
Assim foi. Posto isso, foram arrumar a bicicleta e seguiu cada um para o seu lado, despedindo-se com um caloroso 'ate amanhã'. Freitas olhou para trás e viu Valério a correr, saltitando.

No resto do Verão, Valério fez sempre mais ou menos a mesma coisa na loja, empenhando-se sempre no que fazia e chegando sempre a horas. Freitas admirava-lhe a aplicação nas tarefas, a pontualidade e bebia da sua alegria. "Este rapaz se assim se mantiver, tem um belo futuro pela frente. Que pena lá em casa aquilo... enfim...". De vez em quando iam lanchar juntos mas a hora pela qual Valério ansiava era sempre a do fecho, a hora do reencontro com as suas asas. A cada dia que passava, aventurava-se cada vez mais longe, pelo que perto do início do ano lectivo já dava a volta ao quarteirão. E o sorriso mantinha-se sempre.
Chegou-se ao ultimo dia de férias. Freitas, à despedida, disse-lhe:
- Amanhã começas as aulas, não é?
- É sim... - Valério baixou os olhos.
- Bem, este Verão passou a correr não foi?
- Foi...
- Bem... - Freitas olhou para o lado - se quiseres vir cá de vez em quando, quando tiveres tempo, sabes que preciso sempre aqui de uma mão.
- A sério? - Valério ficou com um miste de felicidade e espanto na cara.
- Sim, claro! Gosto muito de te ter por cá. Se quiseres vir cá amanhã, fico muito contente.
- Se eu amanhã tiver tempo, eu passo, eu prometo! - disse, aos saltos.
- Então cá te espero... Até amanhã Valério... e entra com o pé direito!
- Está bem! Até amanhã sr. Freitas!
Dito e feito. Nesse ano, Valério ficou com as aulas de manhã o que lhe deixava as tardes livres. Assim que saiu da escola, foi ter com Freitas de sorriso nos lábios. Antes de entrar, reparou que a bicicleta que sempre quisera já tinha desaparecido da montra. Freitas, ao vê-lo, sorriu também.
- Olá miúdo!
- Olá sr. Freitas!... puf... - expirou de cansaço.
- Então, estás cansado? Como foi o dia de aulas?
- Foi bom, a sra. Professora é a mesma!
- E trabalhos de casa? Já tens?
- Já... tenho a composição sobre as minhas férias para fazer.
- Então olha, ainda bem: Aproveitas para descansar um bocadinho, sentas-te ali à secretária do meu escritório e fazes a composição. Depois vamos lanchar, que dizes?
- Está bem! - pegou na mochila coçada e foi para o escritório, pondo-se a fazer a composição. Quando terminou, lancharam juntos. Durante o lanche Valério perguntou:
- O que aconteceu à bicicleta da montra?
- Vendi-a. Uma senhora passou por cá e comprou-a de manhã.
- Ah... está bem... - e calou-se, resignado. Valério sempre quisera aquela bicicleta mas, tendo aprendido na outra, começara-se a afeiçoar a essa, pelo que a surpresa não o deixou muito aborrecido.
Aproximou-se a hora de fecho.
- Valério?... Anda cá se faz favor.
- Diga!...
- Não vais andar de bicicleta um bocadito?
- Posso ir, sr. Freitas? - disse, sorrindo como costume.
- Podes, mas olha que de manhã chegaram umas encomendas e tive de arrumar a bicicleta debaixo do oleado outra vez. Vai lá e tira-a com cuidado!...
- Ok, sr. Freitas, obrigado! - e saiu a correr.
Freitas ficou com um sorriso nos lábios. Valério, ao chegar ao oleado, puxou-o para trás com cuidado. Ao fazê-lo o seu coração pulou de alegria e os seus olhos nem podiam acreditar: a velha bicicleta estava lá mas tinha companhia. Ela era brilhante, cromada, com mudanças e suspensão, com um volante muito mais estilizado até que a bicicleta da montra, o seu velho sonho. Percebia-se nitidamente que era um modelo mais recente. Valério esfregou os olhos imensas vezes.
- Sr. Freitaaas!!! - gritou ele, chamando.
- Diz Valério! - respondeu ele, imediatamente por trás dele, sorrindo.
- Esta bicicleta... é nova!
- Sim, é!
- É do seu filho, ou do seu neto?
- Não Valério.
- Então é de quem?
- É tua Valério! Comprei-a para ti.
Freitas nunca tinha visto tamanha alegria. Valério pulava, gritava, corria de alegria. Quando parava, ficava especado a olhar para a prenda, quase com medo de lhe tocar. Era bom de mais para ser verdade. Desaparecendo para o interior do armazém, Freitas comovido, ia fechando a loja. Valério, esse, vivia aquilo que era.

31 de agosto de 2009


Anything that has real and lasting value is always a gift from within.
Franz Kafka (1883 - 1924)

O Sol pôs-se.

Sentado. Fumo a escoar-se lentamente entre os dedos.

Não era um facto extraordinário, era comum, banal, certo... Tinha-o visto tantas vezes mas, desta vez, aquele astro flamejante punha-se com cores que lhe evocavam um estado de alma algo melancólico... melancólico não era a palavra, nostálgico. Isso sim, era isso que aquilo lhe parecia: uma ode à Nostalgia, à Saudade. Sabia-o bem, os tempos de antanho não voltariam mais, os centos de 'pôres-do-sol' que viu não voltariam atrás, os beijos trocados sob essa Luz ingrata, encantadora e ladra, os risos partilhados, os silêncios em reverenda adoração de um deus cronométrico e luminoso, os abraços quentes que se desejavam infindos e tão brilhantes quanto aquele que nos aquecia, também não.
"Oh, the Hell with it!", pensou e deu a volta ao carro.
O sol poente ainda queimava na retina, mas mais do que isso, queimava-lhe na alma a fuga inevitável do tempo e dos acontecimentos entre as mãos. A intangibilidade do que tinha acabado de acontecer era-lhe 'mind boggling', sempre o tinha sido e não iria deixar de ser. Inconformado com o correr do tempo, tentava agarrar eternamente, congelados, os momentos que melhor lhe sabiam mas mesmo esses, saboreados até quase à exaustão, teimavam em escapar-se-lhe pela 'mão'.
"One day, I'll freeze the freakin' Time...".
Máxima incongruência, o Tempo não se congela fisicamente. Ele apenas se cristaliza em minúsculas fracções na nossa mente, em lâminas, por vezes, tão cortantes como o gelo de Tempo que ele queria criar com a sua máquina revolucionária. Não lhe chegava magoar-se tantas vezes mental (e emocionalmente) com os cristais mentais? Era preciso cortar-se também fisicamente para saber que estava vivo? Esvair-se lentamente em sangue como em lágrimas de dor ou de saudade boa? Não lhe restava outra alternativa senão esperar que aqueles momentos que vivia se pudessem repetir novamente, e novamente, e novamente, numa 'perpetuum mobile machinatio' que, ainda assim, não lhe chegaria...

Sucedânio de Idealismo Fasível.

Cada momento é único precisamente pela sua volatilidade, por ser tão ténue, tão intocável ou incompreensível. Perpassa. E ele sabia disso. Ao querer desejar tornar palpável aquilo que ele não compreendia, arriscava-se a criar um monstro (ou mais, quem sabe) que o poderia(m) dominar 'ad vitam'.
"Too risky".
O instante cristalizado é a energia do 'todo-agora' concentrada num momento tangível. A mais destruidora das armas. A anti-matéria definitiva. Para que é que quereria ele criar isso? Mero capricho de um ego insatisfeito? Desejo de ser um deus à sua maneira?
"It'd be cool, 'though..."
Não se é senhor do Tempo. Ninguém o é, pelo menos deste lado da história. Nem no rio que corre, se pode agarrar na água toda, nem que esteja ela congelada. Não é dele, não é de ninguém. Para que é que seria preciso tocar na água toda? O precioso cenário que vislumbraria ficaria então arruinado pois é na intangibilidade do momento que reside a graça do que se assiste e se vive. E nem pensar em congelar as emoções adjacentes, para para sempre ficar nesse estado de êxtase e pura euforia. Também isso não é vida, pelas razões que, obviamente, se conhecem. É, no entanto, mais possível e há quem o consiga... e quem tenha sido destruído por isso.
"A Brazilian friend of mine used to say: 'quem vive de Passado, é livro de História e traça de biblioteca!' "

Ao chegar a casa, olhou pela janela da sala e viu a lua, gorda que nem um queijo, a sorrir-lhe por entre mares e continentes. O desejo de fixar esse momento assaltou-o de novo mas a sua alma simplesmente agradeceu, fez uma educada vénia, tirou-lhe uma foto, apagou o cigarro que fumava e dedicou-se ao seu jantar, o seu 'Agora' gritante, fugaz e imediato, completo.

17 de agosto de 2009


Perhaps when we find ourselves wanting everything,
it is because we are dangerously close to wanting nothing.
Sylvia Plath (1932 - 1963)

Um dia encontrei-me a desejar tudo. Não sei como cheguei a essa situação, mas um dia chegou até mim. Veio sorrateiramente como uma sombra cresce na noite, à medida que nos afastamos da luz que se projecta sobre nós. Começa por um simples desejo de algo que não podemos ter, passa-se para outra coisa que não podemos ter, na vã tentativa de compensar a falta da primeira, e assim por diante, acabando-se por desejar quase tudo, num ciclo quase infindo de desejos impossíveis...

Imaginemos isto: no início era a Ordem, e a Ordem mantinha tudo a funcionar em harmonia e perfeição. Certo dia, uma das partes do Todo que era a Ordem, ganhou vontade própria e olhou à sua volta. A vontade que lhe adveio deu-lhe personalidade (ou teria sido vice-versa?) e deu consigo a querer não ocupar aquele lugar mas sim outro que tinha visto ao longe. O problema é que ele tinha sido criado para ocupar o espaço onde normalmente estava e qualquer outra função era impossível de ser desempenhada com eficácia. No entanto, esta vontade impeliu-o a partir e a ocupar a posição que desejou. Assim chegado, tentou fazer aquilo que pensava conseguir fazer mas só conseguiu fazer o que normalmente fazia. Vendo que aquela posição lhe era adversa, olhou novamente em redor e encontrou outra posição que ambicionou. De novo, moveu-se e tentou fazer o que nessa posição era preciso mas de nada lhe serviu. Assim continuou indefinidamente. Entretanto, esquecera-se do local de onde tinha provindo e de como aquilo qe fazia, por pequeno que fosse, era importante para o bom funcionamento do sistema em que estava incluído, para a boa manutenção da Ordem, pelo que, a cada nova tentativa de adaptação, o sistema desequilibrava-se um pouco mais visto que as outras partes dependiam do que lhes chegava às mãos, e o que lhes chegava às mãos não era o que devia ser. Não se estranhe, pois, que, lentamente, a Ordem foi dando lugar ao Caos. Tendo visto que o Caos avançava, essa parte que tinha vontade própria tentava, tudo por tudo, manter-se nas zonas onde a Ordem ainda se verificava mas, a cada coisa que tentava fazer, o sistema ficava cada vez mais desequilibrado. Certo dia, parou. Olhou em seu redor e viu que, agora, era o Caos. O sistema tinha ficado desequilibrado irremediavelmente. Olhou em sua volta e viu que não havia sítio nenhum ao qual desejava pertencer. Pior, tentou lembrar-se do sítio ao qual pertencia e não conseguiu. Tudo lhe era estranho, já não era o sistema que tinha conhecido. Tentou lembrar-se do sistema mas também não conseguia: só tinha o leve vislumbre de que aquilo não era suposto estar a acontecer. Por fim, não aspirou a mais nada, nao sabia ao que aspirar, o seu propósito tinha expirado. Porque, no fim, tudo era o Caos e nada estava certo; porque, no fim, tinha-se iludido que poderia ter algo para o qual não tinha sido feito, estava num mundo que não era o seu.

Olho à minha volta e reconheço as coisas que aí estão. Sei que já aí estive, que já aí vivi uma parte da minha vida mas parece-me tão remota que nem parece ter sido nesta vida... parece ter sido uma outra, bem distante... não sinto as minhas raízes, não sinto o que fui, nada disso me diz o que quer que seja... É uma sensação estranha, mas é quase como se me tivessem derrubado tudo e dissessem: "agora, reconstroi.". Que quero agora? E como?

10 de agosto de 2009


- Can it be true that human life means nothing in this country?
- It depends whose life, madam...


Nikita Mikhalkov, Сибирский цирюльник (O Barbeiro da Sibéria), 1998

(de voortzetting...)

Na escuridão do quarto, ele não dormiu. As imagens que lhe corriam pela cabeça, as sensações, as emoções, fantasmas que o mantinham agarrado a um passado recente que ele nao desejou futuro. As lágrimas sacrificadas a um nada que se desvaneceu como nevoeiro (via-o agora), corriam agora dentro de si... E a culpa, essa miserável sensação de culpa, de algo que a Razão lhe dizia constantemente que não era responsável, atormentava-o com a sua mão fria e inclemente. "Porquê eu?? Porquê eu??..." A noite, caixa fechada à clarividência, ecoava os gritos que lhe ia na alma...

***

Encostado a uma árvore do jardim, embrulhado numa manta, observava as operações de rescaldo do que, horas antes, tinha sido um braseiro épico. Ainda não conseguia crer que todo aquele aparato tinha sido causado por si. As raízes daquilo eram mais profundas do que alguém poderia imaginar. "Tanta fantasia que poderia ter escolhido, tanto personagem histórico, tinha que arranjar um com uma espada... e o gordo tinha de pegar precisamente na minha cimitarra... local muito errado à hora errada...".
Perdido que estava nestes pensamentos, eis que duas pessoas se abeiraram dele e o interpelaram:
- Bom dia! Polícia Judiciária. Sou o agente Carvalho e este é o agente Liberato.
- Bom dia... que desejam?...
- Para já, a sua identificação, por favor.
- Aqui está.
- Entregou-lhes o B.I.
- Muito bem... Pode-nos dizer então, o que se passou esta noite?
Ele contou o que se passara dutante a noite. Os agentes escutaram com atenção e tomaram notas em silêncio, sem mostrar qualquer emoção.
- Quer dizer que foi tudo um acidente? Que não conhecia o dr. Vasco Garrido?
- Quem?
- disse ele, completamente às aranhas.
- O falecido... não o conhecia?
- Nunca o vi mais gordo. Já lhe disse que nunca tinha ouvido falar deste... convívio, muito menos deste 'resort' ou de quem por cá passa. Podem confirmar com os meus colegas.
- Já lá iremos. De qualquer forma, não se afaste muito... podemos vir a precisar de voltar a falar consigo. Resto de um bom dia...
- e afastaram-se.
- Porreiro...
Ele olhou para o ar. O dia adivinhava-se quente, abafado, um tormento mais para além do turbilhão já existente na sua mente. Sentia-se apertado, sufocado, cercado por todos os lados... e depois, Esperança, a culpa...
- Posso sentar-me?
Olhando para cima, viu Selena, também ela embrulhada num cobertor, e já vestida com um fato de treino. Ele esboçou um sorriso e apontou para o seu lado.
- Esteja à vontade...
- Bem... isto é que foi uma noite, não?... Comida, bebida, musica, dança... sexo... morte...
- Sim, acho que isto é o que se chama "o programa completo" de festas... só falta o café e o bagaço.
- Escuta... aquilo que aconteceu entre nós...
- ... foi so trabalho, certo?
- Não. Não foi. E tu sabes que não foi.
- Pois... é isso que me preocupa. Selena, escuta... eu não sei como lidar com isto. Tudo o que se passou hoje à noite... mesmo que só tivesse acontecido o nosso envolvimento já me daria imenso em que pensar. Não te conheço de lado nenhum, embora tenha a 'estúpida' sensação de te conhecer há uma vida inteira... eu sinto-me uma pessoa bem casada. O meu casamento nem está a passar por nenhuma crise nem nada. Não posso simplesmente chegar a casa e dizer "Esperança, desculpa mas quero o divórcio.". Não posso, por muito que me tenha sentido terrivelmente atraído por ti, por muito que tenha empatizado contigo... vai contra todas as regras lógicas...
- Eu compreendo... tu tens a tua vida, obviamente... Mas, apesar de saber que não adianta nada, também te posso dizer que a minha vida fora disto inclui duas crianças que tenho de sustentar porque o pai... evaporou-se (à falta de melhor eufemismo). Compreendo que, se fizesses isso, irias causar imenso sofrimento à tua família...
- ... que não é assim tão grande... ainda...
- ... e precisamente por isso, pelo que pode ser, eu compreendo que aquilo que se passou ontem tenha o mesmo destino que o sítio onde ocorreu: cinzas que o vento levará.

Ficaram em silencio durante um momento, olhando para os restos do salão Noir... por uma noite, uma vida diferente tinha-se-lhes desenhado em frente dos olhos. O que lhe fazia confusão, o que lhe continuava a fazer confusão, era o porquê de pôr em jogo todo o seu dia-a-dia, toda a sua rotina, no fundo, o seu mundo como o concebia, se esse mesmo mundo (como o concebia) não tinha razão nenhuma para ser abalado, modificado, derrubado, mudado num milímetro que fosse. Quanto a ela, quem sabe o que lhe ia pela cabeça: a esperança de uma vida melhor para si e para os seus, a alegria do encontro de uma alma com que identificasse, a ideia de uma partilha com alguém assim...
- Bem... acho que vou andando - disse Selena - Até... qualquer dia...
Os seus profundos olhos azuis diziam "quero ficar!" mas as suas pernas disseram outra coisa... Ele só a viu afastar-se, sabe-se lá para onde, sabe-se lá para que vida, que filhos, que emprego... a única memória que lhe iria restar era a do corpo, a daquela noite sumptuosa, e de como se afastou querendo ficar. A pergunta seguinte que lhe veio à mente foi: que vida, agora? Levantou-se e foi até ao quarto. Felizmente, esse edifício ficava numa zona à parte, pelo que o incêndio se restringiu unicamente ao salão Noir e mais um ou dois salões adjacentes. Ao entrar no quarto, foi com surpresa que viu que tinha lá visitantes inesperados.
- Bom dia senhor Arquitecto... Espero que a sua estadia aqui no nosso 'resort' não tenha ficado... demasiado... prejudicada com os tristes acontecimentos desta madrugada. - enquanto falava, de pequenos olhos negros fixos nos seus, tinha o tique de esfregar a ponta dos dedos uma nas outras, como se estivesse a apurar o tacto.
- O senhor é que é o responsável por este maravilhoso estabelecimento? De facto, os acontecimentos desta madrugada são deveras trágicos mas creio que já lhe foi transmitido que não tenho a mínima culpa nos acontecimentos. Havia mais lâminas na sala, o sr. Garrido podia perfeitamente, no estado em que se encontrava, ter pegado noutra qualquer. De qualquer forma, pelo andar da carruagem, a morte de alguém era, no mínimo, inevitável, fosse eu, ele ou a acompanhante. Nada foi planeado, como disse à Policia, tudo o que aconteceu foi um acaso.
- Correcto. Mas há um pequeno problema... o dr. Garrido era um dos nossos maiores accionistas e um dos principais investidores. Com a sua morte, o resort encontra-se agora com um futuro bastante incerto. Mais para mais com as obras que precisarremos de fazer devido ao incêndio. E depois disto, já ouvi diversos convivas que afirmaram que seria a última vez que participariam no nosso... 'sarau'... ou, até mesmo, que viriam aqui passar alguns dias de férias. O impacto do... 'acidente' de ontem é bastante superior ao que se pensaria imaginar 'a priori'.
- Sim, claro... compreendo... mas que desejam de mim, então?... qual o porquê da vossa visita aqui ao meu quarto? Digo-vos já que é um sinal de extrema rudeza e falta de maneiras, para além de profissionalismo da vossa área de actividade, como é óbvio...
- Sim, sim, mas tudo isso é agora... acessório. Perdemos uma peça muito importante para o nosso negócio, é verdade, mas estamos abertos a novos... investidores. Permita-me que lhe apresente dois dos meus sócios, o dr. Pascoal e o sr. Vassili Nikolaievitch Andreev. O dr. Pascoal é um industrial de sucesso, tal como o dr. Galhardo era, com inúmeros negócios de sucesso no estrangeiro, incluindo na Rússia. Foi aí que travou conhecimento com o sr. Andreev, também industrial de sucesso, com uma enorme mais-valia ao nível da sua carteira de... conhecimentos. Foi graças a essas ligações que este... 'sarau' se pôde realizar.
- Ainda não percebo aonde querem chegar...
- O que queremos dizer é que precisamos urgentemente de outro investidor para que este 'resort' se mantenha viável... Julgo saber que o sr. Arquitecto é sócio a um atelier de Arquitectura bastante conceituado, não é verdade? é até o grande responsável pelo sucesso do atelier... correcto?
- Sim...
- Então poderá, sem dúvida, convencer os seus colegas a entrar com uma participação do atelier na nossa empresa. Afinal, tendo um peso tão relevante na sociedade, eles não ousarão recusar-lhe esse pedido ou retirar-lhe a participação na sociedade.
- disse, com tensa gentileza, num sorriso levemente cínico.
- Certamente estão a brincar comigo... eu... vocês já sabem que eu não tenho culpa nos acontecimentos! - disse incrédulo - Estão agora a ameaçar-me por algo do qual não tenho culpa??
- Se 'architektor' não "impedir" Galhardo de matar puta, Galhardo "estar" "viva" aqui. 'Architektor' substituir Galhardo.
- grunhiu Andreev.
- Mas... mas... é de loucos...
- Bem, creio que tudo isto foi muito brusco para o nosso futuro sócio, Vassili.
- Disse, pousando a mão no braço do russo. Dirigiu-se para a porta e virou-se para ele. - Sr. Arquitecto, esperamos uma resposta sua para breve... esperemos também que seja do agrado de todos ou, no mínimo, positiva aos nosso interesses... caso contrário...
- ... 'kaput'.
- concluiu Andreev, num ligeiro esgar sorridente, deixando entrever umas quantas coroas douradas dos dentes.
- Tenha um bom dia e o final possível de estadia, sr. Arquitecto. Com licença. - e saiu, com uma pequena vénia, sendo seguidos pelos restantes.
Ele ficou sozinho no quarto e incrédulo. Andou de um lado para o outro, pensando no que poderia fazer, como iria dizer aquilo aos colegas. Sentiu-se preso, sentiu-se sufocado, abriu uma janela para poder respirar. Lá fora era como se nada se tivesse passado. O sol continuava a brilhar, alto, orgulhoso, esplendoroso, num céu profundamente azul, com algumas núvens muito ao longe. O ar, fresco, ajudou a acalmar-lhe as ideias mas nem por isso conseguiu pôr ordem ou sentido nelas. Tomou banho e começou a arrumar as coisas, paulatinamente, mas com a mente completamente ausente. Terminado isto, foi ao quarto de Álvaro para falar com ele. Álvaro abriu-lhe a porta com um ar consternado, esforçando um sorriso amarelado.
- Álvaro...
- Bom dia rapaz... que noite, hein?
- Pois... eu que o diga, não é?...
- Bom, mas agora vamos embora, e tudo isto não vai passar de um pesadelo... que até começou bem!
- riu-se.
- Não sei se vai passar assim tão rapidamente, Álvaro... acabei de ser visitado pelo corpo administrativo do 'resort', na pessoa do seu presidente e mais dois associados.
- Ah, conheceste então o dr. Vaz Dias! Óptimo sujeito, não é? Extremamente educado... com certeza que te vieram perguntar se está tudo bem e pedir as desculpas por tudo!...
- Antes fosse... creio que temos de ter uma reunião extraordinária de sócios do atelier. Oficiosa, claro... O caso é bastante complicado... - disse ele, gravemente, andando de um lado para o outro.
- Complicado?... Como assim?...
- Não te quero adiantar pormenores, Álvaro, temos de falar todos... desculpa, mas tem de ser assim, isto está tudo muito embrulhado...
- Tudo bem, quando estivermos todos para arrancar, na estação, falamos todos. Eu aviso os restantes.
- Obrigado Álvaro, espero que possam compreender o que se passa.
- Estás a assustar-me com isso tudo... mas não há-de ser nada que não se consiga ultrapassar, vais ver.
"Isso é o que tu pensas... estamos metidos em merda até ao pescoço... e eu até à ponta dos cabelos"
, pensou ele.
- Vou andando, então... - disse, saindo.

***

A despedida do 'resort' foi feita em silêncio, sem grandes sorrisos. A atmosfera estava pesada, por tudo o que aconteceu, pela inquietação levantada pela reunião de urgência. O sol já se tinha começado a inclinar para o horizonte onde, daí a umas horas, se iria pôr, dando lugar à noite, num ritmo impassível. À saída, ele foi abordado por Vaz Dias novamente, que lhe entregou um cartão com contactos, reafirmando e sublinhando 'esperar voltar a ouvir notícias' da parte dele. Cordial. Os agentes da Polícia Judiciária voltaram a abordá-lo, mas a conversa foi curta, tomando nota da morada dele, caso precisassem de mais depoimentos. Durante a viagem, ele ficou a olhar, absorto em pensamentos, para o cartão em mãos e para o céu, azul profundo, como os olhos de Selena. Selena. O coração apertou-se. O ardor da paixão fez bater o seu coração com mais força, a angústia de nunca mais a poder voltar a ver, a respirar com ela, a mergulhar naqueles olhos azuis corroía-o por dentro. E depois aquela dúvida terrível: "porque é que sinto isto, se sou tão feliz com a Esperança?". Algo estava mal e ele tinha de perceber o porquê. Entretanto continuou a olhar para o céu, que começava a ficar mais nublado.
Chegados à estação, decidiram conversar dentro da carrinha monovolume de Lionel, que sempre era mais espaçosa. Álvaro abriu a conversa.
- Jovem, diz lá então o porquê de tanta urgência.
Com ar pesaroso, contou o que se tinha passado de manhã ao chegar ao quarto, o encontro com Vaz Dias, Pascoal e Andreev, a sua 'proposta'...
- Mas isto é de loucos!! - gritou Lionel.
- Completamente inconcebível. Não queres fazer queixa? - perguntou Cláudio - Isso é ameaça à integridade física, chantagem... só para começar!
- Sim e sem provas da conversa, ia basear-me em quê?
- disse, escarnecendo - Não repararam nos agentes da PJ? Acham que vão fazer alguma coisa? Eles estavam alí porque houve fogo e deu muito nas vistas, senão nem tinham lá aparecido. São pessoas da delegação distrital e estão mais que comprados... na volta, assim que eu fosse fazer queixa, iam logo contar ao mafioso.
- Mas de qualquer forma, não podemos entrar no esquema deles de extorsão. Há-de haver uma saída qualquer disto. O atelier não tem que pagar pelos erros de um dos associados, bem basta quando temos responsabilidade técnica num projecto. E apesar de termos tido êxito no nosso caminho, não temos 'dinheiro em caixa' que satisfaça as suas exigências... que percentagem da empresa é que eles querem que compremos?
- perguntou Álvaro.
- Não sei. O que eles disseram é que ele investia 'à grande' no resort, mas pela conversa acho que ele é que fornecia dinheiro e conhecimentos para o tráfico de carne humana. O Vaz Dias deve gerir mesmo o 'resort' e o Andreev é que fica com a parte mais suja do esquema, apesar do dinheiro que o 'resort' faz, servir para os esquemas. O papel do Pascoal, não o sei.
- Isso são negócios demasiado obscuros para que nos metamos neles... isso deve implicar lavagem de dinheiro e tráfico de droga no mínimo, também.
- Álvaro, a minha vida está em jogo, aqui. E o atelier tem crescido com o meu trabalho também. Se eu desaparecer, perdem mais de 70% dos projectos, os factos são esses.
- Sim e se aceitarmos a chantagem, metemo-nos num esquema em que os lucros do atelier vão para actividades muito pouco ortodoxas, pelas quais, mais cedo ou mais tarde, ou teremos que responder por elas, ou nos enterraremos cada vez mais numa espiral descendente... e onde é que isso irá parar? Essa gente nunca para de querer mais e mais e mais... mais negócios obscuros, mais dinheiro sujo, mais podridão... Lamento, lamento muito mas todos nós aqui temos um bom nome a defender, representado pelo atelier, não posso aceitar. Eu não posso aceitar isso, não pactuo com criminosos.
- Eu também não pactuo com criminosos, e também tenho um bom nome a defender na praça. Mas também tenho a minha vida a defender acima de tudo. A chantagem foi simples: ou o atelier entra na sociedade do 'resort', ou... 'kaput' para mim.
- Vamos a votos então: quem vota a favor da entrada no 'resort'?
- ele levantou a mão - Quem vota contra? - Os outros três levantaram a mão. - Desculpa... lamentamos imenso mas não iremos ceder. Os russos são um problema teu. - disse friamente Lionel, sem olhá-lo nos olhos.
Ele baixou a cabeça, sentindo a sua vida a escorrer-lhe pelas mãos nesse momento. O Tempo ficou em suspenso. Um comboio que chegava à estação apitou ao longe. Ele respirou o mais calmamente possível e saiu do carro. Deu uns passos para apanhar ar, tentando recompôr-se e dirigiu-se-lhes:
- Meus senhores, a minha carta de demissão estará em cima das vossas secretárias amanhã. Desejo-vos as maiores felicidades pessoais e o maior sucesso ao atelier.
- Em nome do atelier, retribuímos esses votos. Espero que compreendas que não é nada pessoal... simplesmente...

Ele fez um gesto descendente com o braço como que dizendo 'sim, deixa estar... isso já não interessa...' e afastou-se em direcção ao carro.

***

No caminho para casa, e à medida que a estrada se desenrolava a seus pés, também a sua vida desfilava à frente dos seus olhos. A sua infância feliz, os anos da adolescência louca, o empenho e dedicação na faculdade, a vida académica... As namoradas que teve, as noites de amor em branco, o primeiro beijo, a primeira vez... O dia em que conheceu Esperança, o dia em que a convidou para sair, o dia que a pediu em casamento, o dia do casamento... e Selena. Selena que se atravessava no meio destas memórias como um trovão que rasgava os céus, a paisagem; Selena, a 'aparição' que lhe mudou a vida; o poço de sentidos que nunca imaginara possuir; os minutos de prazer que lhe invadiram o ser; as horas de conversa e a descoberta daquele espírito misterioso que se assemelhava tanto ao seu que lhe remexia as entranhas num misto de dor, espanto e atracção; os olhos de céu e mar que não tinham fim, que o afogavam, que o deixavam a nú; Selena, a mulher que lhe tinha despido a vida e que, não sabendo, o iria despir da vida. O sentimento de terror voltou a assombrá-lo. No meio daquilo tudo, a relação com Esperança era o menor dos males... E então, novamente, como um letreiro luminoso que surge ao fim da rua, a pergunta: se tudo estava bem com Esperança, porquê deixar-se levar por Selena? Porquê deixar sequer entrar Selena na sua vida, porquê envolver-se?... Comparou então estas duas relações, passo a passo, onde elas se equivaliam. E então foi-lhe óbvio. Esperança era tudo aquilo que ele era: calma, racional, dedicada ao trabalho e à relação, controlada, raramente deixava as emoções vir ao de cima tirando nos momentos de intimidade - estar com ela era o mesmo que se sentar num alpendre num fim de tarde, no campo: era reconfortante, ligeiramente melancólico, convidava a pensar e a apanhar o último calor do dia; Selena era aquilo que ele nunca julgara ser: impulsivo, tensão à flor da pele, sensualidade, emoção pura, desejo, o momento continuado e renovado, o oculto visível - a sua companhia lembrava-lhe uma tarde de Inverno, sentado numa rocha qualquer, num cabo qualquer à beira mar: o ar frio que disperta os sentidos, o sabor e o cheiro da maresia, o ruído incessante e expansivo das ondas a quebrarem-se contra a rocha, o sentimento de quietude intensa, mais, de pura liberdade, de todas as possibilidades. Como não se sentir atraído por isso? E como não desejar manter isso consigo?... Tivesse ele chegado a essa conclusão de manhã, provavelmente a despedida dela não teria sido isso, mas um 'até breve', e em vez de lágrimas, haveria mais um nascer do sol que era o seu sorriso...
Perdido que estava nestes pensamentos, nem reparou que a chuva tinha começado a cair e que não tinha ligado os limpa-párabrisas. Qual é a pressa afinal? A sua vida, tal como a conhecia, acabara; o fim dela, tal como o da viagem, era uma certeza cada vez mais próxima... como iria ele contar tudo isto a Esperança? como a preparar para o choque do que se avizinhava?...
"CLAAANG!"
- Eh lá, o que foi isto? - exclamou em voz alta, após o ruido que fora acompanhado de um solavanco.
"CLAANG!" Novo solavanco. Espreitou pelos retrovisores e viu duas luzes no seu encalço, que se aproximaram novamente em alta velocidade da traseira do carro.
- Merda, era só o que me faltava... - resmungou entre dentes. Acelerou para se distanciar do carro que o seguia mas o perseguidor conseguiu acompanhar bem o seu ritmo.
"CLAAAANG!". Outra pancada e solavanco. Desta vez foi bem mais difícil controlar o carro. O piso molhado não ajudava nada, assim como a chuva que caía. Ele tentou fazer algumas 'fintas' com o carro, esperando que o perseguidor perdesse o controlo e se despistasse.
"PANG!... PANG! PUUUM!!!" A parte de trás do carro saltou e ele começou a perder o controlo do veículo. Ainda tentou manobrar e travar mas já era tarde demais: saiu da estrada e foi contra uma árvore que ladeava o caminho. O 'air-bag' disparou e evitou o impacto contra o volante mas, quando tudo cessou, ainda ficou atordoado e quieto na mesma posição. Passado uns minutos, levantou-se, tirou o cinto, e saiu do carro.
Ao sair do carro, ainda atordoado, reparou no 'comité de boas-vindas' que tinha à sua espera: dois sujeitos altos, um de casaco comprido, outro de blusão de cabedal, estavam em frente a um carro de farois virados para ele: só conseguiu distinguir a sua silhueta contra a luz intensa. Comentaram qualquer coisa que não conseguiu perceber.
"Russo...".
Sentiu que a sua vida estava em risco. Afinal a sua vida teria um destino mais curto que o da viagem que estava a fazer.
- Eh... "Architektor"... - disse o do casaco comprido.
- Que querem? Acabar comigo? Dar-me um tiro nos cornos, é?? Força!!! Estão à espera de quê?? - gritou ele, arquejando de seguida...
- Cпокойно Aрхитектор! (Calma Arquitecto!)... Ninguém querer fazer muito mal... "ser" só "pequena" дар (presente) para lembrar que Andreev não "esquecer" de ti...
- Como poderia ele esquecer?... - resmungou ele.
- Eh гей Aрхитектор! (Arquitecto gay!) - cuspiu para o lado - "Teres" furo em два (dois) "pneu"... "Querer" "telefonar" Катар (reboque)? HAHAHAHAHA!...
-
Cпокойно Bадим (Calma Vadim)... донесение (recado) "estar" dado... Прибывает! (Anda!)
Entraram no carro e partiram... a chuva que tinha diminuido entretanto, aumentou de intensidade.
"Onde é que eu estou?... nem telemovel trouxe para não haver perguntas no fim-de-semana... estou perdido no meio de nenhures... O melhor é pôr-me a andar...". Caminhou pela berma da estrada durante uma hora e meia, duas talvez, até chegar à próxima localidade. "O melhor é perguntar a alguém onde é que posso apanhar o autocarro para casa e se me podem dar boleia até esse sítio.". Encontrou um café aberto e indicaram-lhe onde podia apanhar o autocarro, assim como onde morava o senhor que tinha o carro de aluguer. Assim fez e passado mais uma hora estava a apanhar o autocarro para a capital.
Durante a viagem, continuou a pensar na sua vida, em esperança e em Selena... reviveu acima de tudo a ultima noite, perguntando se tudo aquilo chegou a acontecer. "É claro que sim, estúpido! Senão não estavas encharcado, já estarias em casa, inconscientemente feliz com a tua mulher e com o teu emprego à espera amanhã. Assim, o que tu tens é um carro espetado contra um pinheiro, o sangue de um ordinário nas mãos, o desemprego, as malas postas à porta pela tua mulher e a máfia russa atrás de ti. Coisas parecidas, no fundo... céus!"
Chegado que estava à capital, não tendo sobrado muito mais dinheiro do que o que trazia consigo (tinha deixado os cartões de crédito em casa), decidiu apanhar o autocarro que o deixou a uns quarteirões de casa. A cada carro que passava, imaginava sempre que se iria dirigir para cima de si, a cada pessoa com que se cruzava, imaginava sempre alguém a sacar de uma arma para acabar com os seus dias... "Mais valia... isto não é viver...", pensou. Finalmente chegou a casa... antes de bater à porta, ficou a olhar para a casa, de sua autoria, sua criação, fruto do seu trabalho, do Querer dele e de Esperança. "E agora não tenho nada... também isso é fruto do meu Querer...". Na face, rios de água doce e água salgada corriam incessantemente, qual afluente de qual, era indiferente. E naquelas lágrimas, um mundo, uma vida, se escoava.

***

O sol nasceu, impassível como sempre. Para ele era indiferente que tivesse nascido ou não. Não foi durante a noite que as coisas se resolveram, a noite não apagou o que aconteceu, Galhardo nao ressuscitou, os russos não foram presos, o adultério continuava consumado, a vida continuava em perigo... Levantou-se antes de Esperança e foi-se lavar... era a imagem da Desgraça... não tinha ânimo, a sua Alma parecia já ter partido para o Outro Lado, era um Espectro... Ao pequeno-almoço, olhava para as coisas e era como se se estivesse a despedir das mesmas. Ele próprio achou estranho como nunca tinha percebido o quão fantásticas, únicas e, no entanto, irrisórias, pedaços de vaidade, eram aqueles objectos que tinha agora em mãos. Desejou que nunca se lhe apartassem das mãos, desejou não estar a olhar para eles uma última vez, já tinha saudades deles. "Será que terei saudades deles para onde eu vou?", pensou, olhando a colher do seu café. Esperança juntou-se-lhe, com um beijo de bons-dias. "Se soubesses, não me tinhas dado um beijo, mas sim com uma frigideira na cara... pobre inocente...". Enquanto ela falava do seu fim-de-semana, ele não a ouviu. Simplesmente pensava em como lhe iria dizer tudo o que tinha para dizer. Acabou por começar pela pergunta que ela lhe tinha feito no dia anterior. Pediu-lhe para que ela o ouvisse sem o interromper e que só depois lhe dissesse o que entendesse. Esperança assentiu, temendo pelo que aí viria.
Com uma calma que não esperava, ele descreveu tudo o que se tinha passado. Descreveu cada pormenor, cada sensação, cada olhar, cada gesto. Ela manteve-se fiel ao que prometera. Quando acabou, não houve lágrimas. Silêncio.
- Que vais fazer agora? - perguntou Esperança.
- Não sei. E tu, que vais fazer?
- Que queres que eu diga?
- Eu... ah... tu... - balbuciou ele. Só lhe saiam sons sem significado. Respirou fundo. - Sei que o que quer que decidas, será justo. Como te disse ontem, não tenho nada. Nem a ti.
- Amaste-la?
- Como??
- Se a amaste?
- Mas como? Foi só durante umas horas! Como a posso ter amado??
- É perfeitamente possível. Quem disse que o Amor só tem de aparecer semanas, ou meses, ou anos depois? O Amor pode surgir num segundo e desaparecer no segundo seguinte ou perdurar até morrer. Depende do que se quer, depende do que se aceita. Amaste-la?
- Primeiro desejei-a. À medida que a conversa se desenvolveu, senti-me muito próximo dela. Ela, como te disse há pouco, é um mundo oposto ao que tu és. Depois, acto final, as coisas fundiram-se.
- Então ama-la. Não pelos motivos pelos quais dizes que me amas, mas precisamente pelos motivos opostos. Amas o Ser e o Não-Ser. Amas a Realidade e a Fantasia, o que 'É' e o que 'Podia Ser'. Mas isso não é vida. Tens de escolher. Não sou eu que tenho de decidir o que fazer. És tu.
- Como poderemos viver com o adultério que cometi?
- A pergunta, meu querido, é: "Como poderei eu viver com o adultério que cometi?". Eu não tenho nada a ver com isso. É que, no fundo, não me traíste: não me trocaste por outra como eu, não trocaste por alguém que me ameaçasse, por alguém Real, alguém aproximado ao que tu já tinhas, trocado por uma impressão de Amor, por um Demiurgo. Cedeste a um Não-Eu, a algo que não sabias que existia, a algo fora deste Mundo. A resposta, agora, é tua. - Beijou-o suavemente e saiu da cozinha.

***

Mais tarde, ligou para Vaz Dias e transmitiu-lhe o que os seus ex-associados tinham decidido. Precisava de falar com ele e os seus dois sócios para chegarem a acordo com uma solução.
- Onde nos podemos encontrar? - perguntou Vaz Dias.
- Podemos encontrarmo-nos num Jardim do Sol Nascente, aqui na capital. Infelizmente os... 'amigos' do seu associado russo são muito assertivos a darem recados e lembretes pelo que não tenho transporte agora.
- Muito bem, creio que não haverá problemas. Poderemos encontrar-nos amanhã... digamos... 16 horas?
- De acordo. Vemo-nos amanhã então. O resto de um bom dia, dr.
- Um bom dia também para si, sr. Arquitecto.
No dia seguinte, às 16h, numa zona arborizada, isolada o suficiente mas à vista das pessoas, sentaram-se à volta de uma mesa disponível no parque.
- Então sr. Arquitecto?... que tem para nós?
- Bem, como já lhe tinha dito ontem, os meus sócios não aprovaram a ideia da participação accionista e financeira do 'resort'. Por vias disso, também me encontro sem emprego.
- Uma situação... assaz lamentável, sr. Arquitecto. Mas creio que não nos teria feito vir até aqui se não tivesse um plano alternativo, estarei errado?...
- De facto, não está. Felizmente para mim, tenho ainda um nome forte na praça. Deduzo que o assassinato do dr. Garrido seja 'abafado' por quem de direito, não é? - questionou olhando para Andreev.
- Assim é. - respondeu Vaz Dias.
- Bem, tendo em conta que a minha reputação não será afectada, mais para mais estando longe do local onde tudo se passou, estou disposto a começar um novo atelier de arquitectura. Sei que alguns dos meus colaboradores estão dispostos a juntarem-se à minha nova equipa e será apenas uma questão de tempo até que o dinheiro comece a surgir. Este novo atelier seria o vosso novo accionista e financiador, colaborando ainda na reconstrução e, quem sabe, ampliação do 'resort'.
- Uma medida... audaz, sr. Arquitecto. Mas quem nos garante que não está apenas a tentar ganhar tempo para reunir dinheiro suficiente e meios para se ausentar do país?
- Dou-lhe a minha palavra de honra. Sei que a alma russa é... incansável a cobrar as suas dívidas.
- De facto, assim "ser" - grunhiu Andreev - "Nenhuma" local na "mundo" ser suficientemente seguro para esconder.
- Imaginava que assim fosse. E eu prefiro comprometer-me estando, de certa forma, mais tranquilo, do que passar a minha vida a fugir, com a casa às costas. Entre passar a Vida com medo e darem-me um tiro agora, a diferença, a meu ver, é nula - isso não é viver. Se têm dúvidas de que a minha palavra poderia ser insuficiente, aqui ficaram as razões subjacentes. Que me dizem?
- Dê-nos só uns minutos... precisamos de... conferenciar entre nós. - pediu Vaz Dias.
- Com certeza.
Ele afastou-se e foi apreciar o dia e o Jardim. Era das poucas oportunidades que tinha para ver um dos seus projectos, usufruir de um deles. Tinha sido um feliz pedido da autarquia e tinha sido um desafio e um prazer tê-lo concretizado. Passados uns instantes, Andreev chamou-o.
- Então? Que me têm a dizer?
- Caro sr. Arquitecto, creio que a sua ideia tem bases para andar. No entanto... há ainda a questão do financiamento das obras do salão Noir...
- Como já lhe disse, terei todo o gosto em participar na reconstrução do salão, não só restaurando, como também melhorando-o, aumentando as suas potencialidades. Podem ir pensando no que gostariam de ver no terreno.
- Certíssimo, já tínhamos ouvido isso há pouco. A questão não é essa: a questão é, quem é que vai pagar a execução.
- Bem, sendo eu o arquitecto responsável, creio que poderei também estimar os custos. No entanto, pelo que eu já vi e pelo que eu já estive a pensar, creio ter o capital suficiente para... "oferecer" a obra ao 'resort' como compensação.
- Nesse caso, creio que aceitaremos esse seu... gesto de boa vontade. Estivemos também a discutir e creio que nos será mais útil a oferecer-nos mais projectos e execuções do que entrando no capital do 'resort'. Sendo assim, creio que é mais vantajoso sermos nós a entrar como seus sócios no capital do seu futuro atelier, no papel, como é evidente. Confiamos no seu bom nome e reputação que tem na praça para nos trazer muitos... dividendos. É claro que será só o senhor a entrar com o capital necessário para abrir o atelier... já basta o prejuizo que o senhor nos causou. Além disso, será uma forma de o seguirmos mais perto... e ao seu trabalho... - disse, esfregando as pontas dos dedos, como habitual.
- Ou seja, no fundo, irei trabalhar para vocês... com rédea curta...
- No fundo ou à superfície, é como quiser. Ou antes, como nós quisermos. - disse o dr. Pascoal.
- E "dar"-se muito por feliz por não ir fazer Кирпичи... uhnn... "tijola"... - acrescentou Andreev.
- Sendo assim, sr. Arquitecto, desejamos-lhe o maior dos sucessos na sua nova... empreitada e etapa da sua vida. Tenha um bom resto de tarde e de dia. Até breve. - despediu-se, cordial como sempre. Os restantes sócios despediram-se igualmente, menos cordiais.

***

Animado por este desfecho, tinha a mente mais clara para fazer a escolha que Esperança falara. Por um lado, a sua reacção ao que se tinha passado tinha-o deixado espantado: nunca pensou que ela fosse tão calma perante revelações daquele calibre como demonstrou ser. Por outro lado, essa frieza assustava-o, era uma frieza que mascarava bem demais o Amor que dizia que ela tinha por si. Foi talvez por isso que Selena o tinha encantado tanto: o que viu era o que ela era... mas quem o saberia?... O desgaste causado pelos anos de casamento também não ajudava muito. Nesse aspecto, se escolhesse o Real, concluiu que tinha de trabalhar mais na relação para que esse desgaste um dia não se virasse um dia contra si. Mas, depois de um fim de semana em que tanto mudou, tinha aqui a oportunidade soberana de iniciar uma nova vida também nesse aspecto. Com certeza que Andreev saberia como contactar Selina e trazê-la para a capital não seria difícil. Mas, quem lhe disse que, daí a uns tempos, os olhos de céu e mar não se tornariam demasiado cinzentos para poder mergulhar neles, sentindo-se, ao invés, a afogar-se desesperadamente?...
Estava a chegar a casa. E estava também a perceber que a Felicidade era uma coisa muito, muito relativa. Há uma semana, a casa, o trabalho, o casamento, tudo lhe era comum, garantido, aborrecido até... numa noite e um dia, tudo isso tinha mudado. Foi como se o fogo do salão Noir tivesse queimado toda a sua vida, como se fosse um fogo purificador, renovador, um fogo que o queimou até ao fundo da alma; foi como se a chuva que apanhou no caminho para a aldeia, tivesse lavado as cinzas que o fogo tinha deixado, limpo os seus olhos e deixado apenas o essencial. As escolhas, agora, eram mais fáceis de fazer, era mais fácil recomeçar. E entre o Real e o Ilusório, ele não já tinha dúvidas. Mais do que uma escolha lógica, prática, imediata, era uma escolha feita pelo seu Ser, uma escolha tomada naquela magnífica ligação Espírito-Coração-Mente. Ele, mais do que nunca, escolhia poder escolher.