4 de setembro de 2011


Invention is the mother of necessity.
Thorstein Veblen (1857 - 1929)

I don't think of the past. The only thing that matters is the everlasting present.
W. Somerset Maugham (1874 - 1965)


Nothing is as far away as one minute ago.
Jim Bishop


We are always in search of the redeeming formula, the crystallizing thought.
Etty Hillesum

Sento-me. Puxo, cautelosamente, uma folha de papel por debaixo da pilha de livros em cima da secretária e pauso em frente à folha. Branca... uma brancura que quase fere os olhos mas que, interessante, convida a preencher de ideias, relatos, pensamentos, vivências, palavras avulsas de espírito e corpo. Luz. Tudo começa assim. Uma ideia, um conceito, algo nebuloso, algo por detrás de um véu que, lentamente, é levantado perante os holofotes da consciência. E aí, a materialização. Um ponto, outro ponto e mais um ponto. Linha. Outra linha. Curva, contra-curva, palavra. Símbolo mágico de um querer, de uma ideia, de algo que se estende por um areal de papel tomando forma e vida.

Às tantas, já não é uma palavra: é uma frase, um capítulo... Voando nas asas da inspiração, as palavras saem com ternura, com uma afeição prolongada no gesto que parece impulsivo mas que se reveste de uma ternura quase angelical. Há energia no que se faz, no que se escreve, no 'como' se escreve. Escuto, carinhosamente, a doce melodia do aparo no papel: bela cantiga. Canta conforme as palavras que lhe damos de beber. Palavras em fúria, ouve-se o vento em remoinho que arrasta tudo à sua volta, traços dedicados a arrancar árvores pelas raízes, ideias pelas cabeças que nelas moram, cortar florestas inteiras, derrotar exércitos num sopro, sentenciar à morte com um lúgubre som semelhante ao afiar de um machado. Cantos em harmonia, é o som das folhas pelo chão no Outono, som de folhas viçosas na Primavera, as ondas do mar saudoso que rebentam ao longe, o gorgolejar alegre de um regato no meio de um campo, o riso impensado das crianças que brincam na rua. Frases de amor, sons suaves de gestos plenos de sedução, o restolhar de roupas de corpos que se descobrem num qualquer escuro, uma mão que cartografa um corpo descobrindo montes, covas, planícies e vales de encanto e prazer, o roçar de lábios num beijo perdido no tempo. São musicas sem tom... serão?

Explana-se a ideia numa sinfonia de sensações, de imagens e segredos só completamente inteligíveis ao escritor, à sua alma. Num desafio quase absurdo, tenta-se partilhar essa ideia com outros, pintá-la no íntimo de cada um, em cores que só cada um conhecerá realmente. Monta-se um 'puzzle' com as peças que cada um já tem dentro de si, usando os óculos da mente que cada um usa a cada dia que passa e assiste-se ao efeito final, tranquilamente: calma, curiosidade, desespero, alegria, êxtase, céu e inferno na mesma linha, ternura e ódio. Ou então, simplesmente a concórdia, o assentimento, o desagrado, a negação veemente de uma ideia desprovida de emoção, em aço cirúrgico. O que importa é comunicar. Ou, o que importa é estabelecer laços que perdurem. Ou, o que importa é agitar consciências, revelar sentimentos adormecidos sob correntes de água profunda. Ou, o que importa é nada. Ou, o que importa?

"A linguagem é uma fonte de mal-entendidos."

Às tantas as folhas já não são folhas, as palavras não são imagens e os sons não são emoções. Tudo é Um. Escreve-se como se respira e lê-se como se mergulha. À minha frente tenho um espelho de água tão extenso como a vista alcança. Juro que quase vejo a curvatura da terra nesta massa de água que se contorce com vida própria. É um berço, de vida, de emoções, de movimento - água, água até não perder de vista. Um mar de palavras sem fim... com que sentido? No entanto, ele existe. E respira e mexe-se e tem peso. Estava lá antes do Tempo ser Tempo porque o Tempo é uma ideia que temos, absurda, ridícula, quando, na verdade, somos eternos como o Universo. Outra ideia enorme como o mar. E, ao mar, tudo regressa... até as lágrimas que se saboreiam com amargura ou felicidade. Ou as ideias que, um dia, por ilusão, julgámos nossas, mas que, vindas não sabemos de onde, nem para onde, passam por nós como um sonho à beira mar. E daí o traço se faz ponto e, feita em ponto, parte a ideia rumo a outro lugar, levando consigo memórias na sua mala de cartão luminoso, à espera do próximo cometa a apanhar.

2 comentários:

Moi disse...

Fazemos das letras palavras, e das palavras frases que se unem em ideias...

Deixo-te apenas o poema com que encerrei o Angel:

"Palavras caladas
no silêncio das noites cinzentas
onde mora a saudade...
Palavras sentidas
no ruído dos dias ensolarados
onde moram os sorrisos do sons encantados...
Palavras que doiem
jogadas entre o medo e o desejo
do passado inacabado...
Palavras que alegram
trocadas num olhar distante
cheias de vazio e vazias de tudo...
Palavras faladas
num sussurro suspirante, abrupto
apenas tocado pelo coração...
Palavras cantadas
chegam de longe à nossa boca
dançando no embalo parado da alma...
Palavras escritas
tão nossas, e tão silenciosas
perdidas no vento da fantasia e ilusão…
Palavras apenas..."


E assim comunicamos uns com os outros...

Beijo grande

Miguel Laranjeira disse...

Hélio...... que veia, artéria, verdadeiro sistema que tu tens...
Temos poeta, que consegue colocar cá fora tudio aquilo que turbilha no pensar de muit6os de nós, mas que não existe habilidade para expor. Parabéns. Abraço