30 de julho de 2009

Advice is a dangerous gift, even from the wise to the wise.
J. R. R. Tolkien (1892 - 1973)

Ao vaguear pelas ruas, sem destino, continuava sem saber que fazer. A situação tinha-se tornado insustentável e os seus primeiros impulsos, se a eles tivesse obedecido, tê-lo-iam levado a cometer um erro terrível. Chovia copiosamente, mas a seu sentido de tacto tinha-se tornado absolutamente irrelevante quando absorto nos seus pensamentos. Olhava para as suas mãos e escrito por todas elas só via uma palavra: culpa, culpa, culpa... "Que fiz eu? Porque me deixei levar?... Tinha tudo para correr bem, mas devia ter dado mais importância àqueles imponderáveis que normalmente não se costuma dar atenção...".

"Hopelessly drifting, bathing in beautiful agony
I am endlessly falling, lost in this wonderful misery..."


Aclamado por todos quanto o conheciam, ele era o exemplo da pessoa prática: qualquer pessoa que lhe apresentasse uma questão, tudo o que exigisse planificação, era resolvida por ele de uma forma logicamente limpa e eficaz. Os projectos que assinava eram conhecidos pela sua limpeza estética, agradável ao olhar, sem perder qualquer evidência de funcionalidade. Casas, prédios, hoteis, centros de congressos, de artes e espectáculo, novas urbanizações, tudo o que saía do seu estirador levava a sua marca, cuja popularidade aumentava de projecto para projecto. Dele se dizia que era inspirado por uma força inexplicável, que lhe conferia clareza de ideias e uma visão de um estilo que poderia muito bem vir a ultrapassar épocas.
Sentia-se bem sendo quem era, acordava satisfeito com a profissão que tinha acabado por enveredar... Aliava as suas três maiores paixões: a matemática, a física e o desenho. Lembrava-se muitas vezes da altura em que tinha de escolher a licenciatura a tirar: tinha oscilado entre Matemática Aplicada, Engenharia Mecânica e até mesmo Belas Artes. Conversando com amigos seus e aconselhando-se com outras pessoas dessas e outras áreas, acabou por se decidir por Arquitectura, numa solução de compromisso entre as suas aptidões. E foi mesmo a melhor solução: ao longo dos anos na Universidade sentiu-se como um peixe na água, recebendo os mais variados louvores de professores. No final, a recompensa e o reconhecimento: um convite para o mais prestigiado estúdio de Arquitectura do país. - És um jovem e raro talento - disseram-lhe ao anunciar a decisão, - e se continuares a trabalhar como trabalhaste ao longo da tua licenciatura, certamente o teu nome figurará entre o dos grandes da arquitectura deste país. E assim foi. Em complemento com a sua actividade, decidiu tirar uma pós-graduação em arquitectura paisagista, por achar que nenhum edifício poderia estar completo sem se integrar correctamente no meio envolvente. Rapidamente, os pedidos para a planificação de urbanizações e remodelações urbanas surgiram. Não tinha mãos a medir e cedo teve de pedir ao chefe do estúdio autorização para ter a sua equipa de colaboradores. Após alguma resistência inicial, visto ser uma situação inédita (e um pouco arriscada), foi-lhe concedida autorização e a sua equipa foi criada, expandindo-se passado um par de anos.
- Estás a ficar muito grande para este estúdio, sabias? - disse-lhe o chefe - Só tu és responsável por 60% dos pedidos de projecto, és a nossa "galinha dos ovos de ouro"! HAHAHA!!
- Não tinha noção do meu peso aqui dentro, chefe!... eu só reparo na quantidade de trabalho que tenho, pouco tempo tenho para pensar noutras questões. O dinheiro que recebo chega e sobra para as minhas necessidades e prazeres pessoais, sinto-me bem nesta casa, tenho todas as condições, não tenho nada a reclamar.
- Pois... e ainda bem! Por isso mesmo é que tenho uma proposta a fazer-te. Eu, em conjunto com os outros sócios do estúdio, estivemos a conversar e, dado o teu peso no fluxo de trabalho aqui da casa, decidimos oferecer-te uma posição de sócio. Que dizes? - perguntou, com uma amistosa palmada nas costas.
- Eu... não sei que dizer... sou tão novo... Sócio?... Já?... Então e outros que já cá estavam?...
- Meu caro, desde o primeiro dia que te disse que este escritório é um pouco a imagem oposta ao que se passa neste país: aqui o mérito é recompensado. Se eles ambicionavam por esta posição, que trabalhassem mais, que se aplicassem, que se dedicassem mais. Não digo que sejam maus empregados e que sejam "baldas" mas o facto é que tu foste uma valiosa adição para o estúdio e isso não pode passar em branco: uma mais-valia preciosa como tu és, tem de pertencer aos quadros directivos da casa, tem que ter uma palavra, uma voz activa no rumo que a empresa tem de seguir. Estou a dar-te uma oportunidade que poucos, muito poucos nesta casa, e todos quantos por cá passaram, tiveram.
- Chefe... preciso de pensar um pouco... o trabalho é tanto... e sei que ser sócio do estúdio não é só estatuto: há muito trabalho implícito, para além do normal.
- Mas isso não é problema, quando te concedemos a tua equipa pessoal, já estavamos a contemplar esta situação. Com essa concessão, quisemos ver também a tua capacidade de coordenação de uma equipa, a tua capacidade de liderança e os resultados estão à vista: o número de projectos pedidos especificamente para seres tu a fazê-los duplicou em 3 anos.
- O meu único problema, Chefe, é que eu não me quero separar do estirador. Desenhar, projectar é para mim um estilo de vida, uma paixão, uma verdadeira profissão: é o que eu sou.
- Hmmm, estou a ver... bem, os sócios não são obrigados a tornarem-se ou serem gestores da empresa. A questão é que, normalmente, quando nos oferecem a posição, já não somos novos... pleo menos não tão novos quanto tu, de forma que estamos um bocado cansados do estirador e, ao vermos as novas gerações a chegar, as novas ideias a fluirem e a aparecer por todo o lado, aliado ao cansaço, é uma oportunidade irrecusável para mudar de vida. Compreendo o teu ponto de vista, e posso-te dizer que a tua única obrigação será participares na reunião semanal dos sócios e, obviamente, em todas as reuniões extraordinárias que possam vir a tomar lugar. Fora isso, creio que não terás mais nenhum cargo acrescido, os restantes sócios encarregar-se-ão do resto, não te preocupes... concordo que seria cruel afastar o teu génio do estirador. Em que é que ficamos então?
- Chefe, nessas condições, é óbvio que aceito! - exclamou, estendendo a mão.
- Óptimo, rapaz! E podes parar de me chamar chefe, agora somos sócios, lembras-te?...
- Selaram o acordo, apertando a mão com energia e sairam do gabinete em direcção à rua.

Tudo lhe parecia, assim, correr bem. Estava no caminho para o auge de uma carreira extraórdinária. Passado pouco tempo, o gabinete foi galardoado com o maior prémio de arquitectura do país, sendo seguido por outros. Individualmente, o reconhecimento nacional também lhe tinha chegado e, pouco tempo depois, foi altura do primeiro galardão internacional. A tudo isto, ele agradecia com humildade, reconhecimento e mais trabalho. Ao longo do tempo, nunca parara de estudar, de se inteirar das novas tendências, dos novos desenvolvimentos da arquitectura, das técnicas de construção, da investigação dos efeitos sociais recorrentes da organização do espaço urbano ou da própria casa. - Actualização e trabalho, são as palavras chave neste grupo! - exclamara ele durante uma entrevista concedida à televisão.

Naturalmente, o ritmo de trabalho acentuado, e cada vez mais exigente, acabaram por ter a sua contrapartida: o cansaço acumulou-se e o seu corpo, após muitos anos, pedia descanso sério. Referindo isso aos seus sócios, obteve dele uma resposta positiva e satisfatoria, pelo que decidiu tirar uns dias de férias em sua casa, com passagem por um ou outro país. Num desses dias, bateu-lhe à porta um dos sócios, numa pequena visita:
- Então, como estás?
- Bem, estou bastante melhor! Muitos anos sem descansar, não matam mas moem!
- Sim, de facto, estás com melhor cara! Já devias ter pensado nisto antes...
- Sim, sim, bem sei mas, sabes, gosto tanto do trabalho... é quase algo compulsivo! E depois as ideias fluem em catadupa, tenho sempre tanta vontade de pôr tudo o que me vem à cabeça no papel.
- Bem, como sócio da empresa nao me posso queixar... mas não foi só por isto que aqui vim... O Lionel nunca te tinha referido isto porque é um evento raro, mas nós, os sócios, temos uma pequena tradição só nossa: de anos a anos, dirigimo-nos a um restaurante altamente reservado e passamos uma noite de farra. Os problemas do escritório ficam no escritório: o objectivo é entrosarmo-nos, criar um bloco coeso, ter algo que nos una para além das respinsabilidades directivas. O que é que achas disto?
- Não desgosto da ideia, até porque já estou de férias. Mas estão a pensar fazer isso quando?
- Esquece o facto de estares de férias porque é algo que vai muito além de um convivio num 'resort' de luxo... os sítios onde costumamos ir são altamente reservados e o Lionel tem contactos muito bons, que lhe abrem muitas portas... são sítios com portas que não se abrem, normalmente, mesmo a pessoas com um estatuto social bom. Não imaginas o luxo, não imaginas, de todo...
- Estás a aguçar a minha curiosidade de uma maneira que tenho a tentação terrível de te dizer já que sim!... No entanto, não sei se gosto muito essa historia dos 'contactos' do Lionel... parece tudo muito... underground...
Cláudio olhou para o tecto e disse: - De facto, é tudo um bocado sigiloso, mas posso-te assegurar que não tens nada a temer. A única coisa com que tens de te preocupar é em divertires-te e relaxar, não tens que tratar de nada... Ah! e namoradas, esposas e/ou amantes ficam à porta... é uma espécie de saída de gajos...
- Muito bem, creio que a Esperança vai compreender... e afinal quando é que é esse 'dia'?
- Estamos a pensar já para o próximo fim-de-semana. Vamos na Sexta à tarde, passamos lá o Sábado e no Domingo de manhã regressamos. Podes dizer à Esperança que ainda passas com ela o Domingo! - exclamou, rindo maliciosamente.
- Sendo assim, se não há riscos nenhuns, se é pura diversão, aceito. Não quero ser a 'ovelha ronhosa' da família!
- Óptimo, eu sabia que não ias dizer que não! Eu depois vou dizer ao Lionel a tua resposta e, como é ele que trata das coisas, hás-de receber por e-mail as direcções e o que tens a fazer... normalmente é assim que a coisa funciona.
- Lá está outra vez essa atmosfera de 'sociedade secreta' que me arrepia... mas pronto, se é esse o preço a pagar para um fim-de-semana de arromba, que seja!
- Então, vemo-nos no 'encontro'! Resto de boas férias!
- Obrigado pelo convite e pela visita! Eu acompanho-te à porta...


Como combinado, dias mais tarde ele recebeu de Lionel as orientações para o 'encontro'. Ficava numa zona muito remota do país, onde nunca imaginara que existisse uma estância de luxo. Iriam deixar os carros numa estação de comboios da região e seguiriam em transporte particular do 'resort' para o mesmo. Para além da roupa casual e do fato de banho, pedia-se também que trouxessem uma fantasia, subordinada ao tema "Grandes Conquistadores". "Estranho!... Ele não me tinha falado em nenhum baile de máscaras...". Mas se eram essas as condições, assim seria. Aproveitou o tempo de férias para ir à procura de uma fantasia de Mehmet II da Turquia... o mais dificil foi arranjar uma Cimitarra, mas falando com as pessoas certas lá conseguiu.
Encontraram-se todos nessa tarde de sexta-feira, com grande euforia. Nem Lionel (o chefe), nem Álvaro, nem Cláudio pareciam as mesmas pessoas de todos os dias, pareciam crianças à porta de uma loja de doces.
- É pá e lembras-te há 6 anos daquele jantar que fizemos no outro lado?
- Se lembro! Apanhaste uma 'cadela' de tamanho tal que ficaste a dormir em cima da mesa e só acordaste no dia a seguir com um dos empregados a perguntar "o seu pequeno almoço vai ser servido aqui ou no duche, senhor?" tamanho era o vomitado á tua volta!HAHAHAHAHAH!!!
- Bem, essa parte não me lembro, só me lembro da noite e da ressaca que fiquei durante esse dia a seguir... então e lembras-te das 'peque... - perguntou, meio sussurante.
- Sshhhhh! Tem calma Álvaro... Não podemos desvendar tudo o que se passa ao nosso 'maçarico' nestas andanças... ele que veja pelos seus próprios olhos e depois conversamos sobre os outros anos.
- Tens razão. Olha, a carrinha está a chegar! Vamos lá...
A estância era, definitivamente, um oásis no meio da desolação da zona. Equipada com o que de melhor havia, tinham tudo à disposição e quem tinha desenhado aquilo, tinha conseguido enquadrar o 'resort' sem destoar da paisagem circundante: era uma estratégia estética e de discrição, os hóspedes deveriam estar como se estivessem em suas casas. Foram recebidos por umas jovens com um trajo bastante apelativo, que os guiaram aos seus aposentos, anunciando, antes de sair dos quartos, que o jantar iria ser servido daí a meia hora.
Durante o jantar, foram-lhes servidas iguarias sem paralelo ao que já tinham provado. Desde o 'crocodilo salteado com molho de framboesas da Amazónia e arroz Italo-Chinês', passando pelo mais rústico 'Javali no forno com batatinhas salteadas e molho chimichurri' até ao exótico 'Suea Rong Hai' do nordeste tailandês. Depois dos digestivos - da melhor qualidade -, cansados da viagem, decidiram retirar-se para uma revigorante noite de sono.

No dia seguinte, o pequeno almoço que lhes foi apresentado era digno de uma reunião de todas as famílias reais europeias. Ele nem queria acreditar no que os seus olhos viam, tal era a variedade de frutas, pratos e bebidas à disposição. "Isto faz-me ter pena de quem passa fome no mundo...", pensou. Depois de tamanho pequeno almoço, nada melhor que uma caminhada para digerir. Saiu para os montes em redor para um passeio de hora e meia, findo o qual decidiu jogar uma partida de ténis com os restantes sócios. O restante dia, foi passado de forma semelhante. Perto da hora do jantar, foi-lhes transmitido que vestissem as suas fantasias e se apresentassem no salão Noir do complexo B.

(a suivre prochainement...)

29 de julho de 2009

We don't have an eternity to realize our dreams,
only the time we are here.
Susan Taylor

Olhou o promontório à sua volta. O mar, azul como sempre se lembrara, parecia, naquele dia, ainda mais azul... Ou talvez verde... sim, oscilava entre o verde jade e o azul marinho, com aqueles rasgos de espuma da ondulação ocasional, em toda a extensão. Era, sem dúvida, a paisagem mais bela que alguma vez vira, ou que alguma vez viria a ver. "De que vale percorrer o mundo quando, no fundo, o único lugar onde acabamos por voltar, por chamamento, é ao sítio de onde partimos?". Enquanto reflectia, a memória de outros lugares, de outras culturas, outras raças, passou-lhe pela mente em lampejos. A cada imagem, novas e velhas emoções sobrevinham-lhe do seu coração, e ele deleitava-se a saboreá-las. "Foi também para isto que eu percorri tanta milha deste mundo... quantas foram?... já nem me lembro...".

A vontade de viajar sempre foi forte nele. Desde que se lembrava, sempre tinha dito que quando fosse grande que queria ser piloto, ou motorista, ou comandante de um navio. Quando lhe perguntavam porquê, a resposta vinha rápida e invariável: - Porque quero viajar pelo mundo!!, tudo isto no maior sorriso, no sorriso mais sincero que alguma vez se havia visto na cara de uma criança. Todo ele era brilho quando falava no seu sonho, dezenas de desenhos no seu quarto ilustravam viagens, os seus programas favoritos eram os documentários de civilizações longínquas, ou já desaparecidas. Quando as via, os seu olhos brilhavam de ânsia por, um dia, poder estar naqueles lugares, e queria ansiosamente estar por aquelas partes incertas, por aqueles mundos perdidos, exageradamente distantes para o seu gosto, inimaginavelmente mais velhos. "Quem me dera poder já ser maior de idade para poder conduzir e partir à descoberta numa grande expedição pelo mundo! Depois, hei-de escrever um livro com as minhas observações, com os meus estudos e vou ser conhecido por todo o mundo como o maior explorador de todos os tempos... mas ainda falta tanto tempo!...". Na escola, não raramente, encontrava-se sozinho numa zona do pátio a olhar para a vista que tinha para o vale fronteiro. "O que é que haverá para lá deste vale?...". Os colegas pouco tempo depois vinham-no chamar para participar nas brincadeiras e assim o arrancavam do seu mundo de sonho, para o mundo da brincadeira.

Os anos passaram. Ele cresceu e concretizou um dos seus sonhos, que poderiam vir a viabilizar o seu sonho maior: tirar a carta. Que dia de alegria que foi esse dia! Quando saiu de casa, toda a gente da rua onde morava e até do bairro, lhe desejaram as maiores felicidades para o exame. A festa, tendo obtido o resultado que desejava, foi rija! Os seus pais sabiam o quanto era importante para ele ter obtido a licença. Mas não lhe chegava. Anos mais tarde, decidiu tirar o brevet de aviador e, quase simultaneamente, a carta de patrão de mar. Agora, no seu interior, estavam reunidas todas as condições para poder realizar o seu sonho de vida.

- Torre de Controlo, daqui CS-WKY, pedindo licença para aterrar, escuto.
- CS-WKY, daqui Controlo, pode dirigir-se à pista 1, escuto.
- Controlo, daqui CS-WKY, entendido, terminado.
Dirigiu o pequeno monolugar para a pista, iniciando o procedimento de aterragem: trem de aterragem, flaps, reduzir a rotação...
- Torre, daqui CS-WKY, estou com problemas no trem de aterragem, escuto.
- CS-WKY, daqui Torre, já enviámos uma equipa de emergência para a pista 1, escuto.
- Torre, daqui CS-WKY, recebido, escuto.

Ele manobrou o avião o melhor que pôde e, por fim, acabou por executar uma aterragem forçada, com a base da fuselagem. Infelizmente, o vento que se fazia sentir desequilibrou o avião e provocou a explosão do mesmo. As equipas que acorreram ao local, intervieram rapidamente mas não se pôde evitar a desgraça - ele tinha ficado paraplégico.

Mesmo assim, o sonho não morreu. Nas suas noites mais angustiantes, era o sonho que tinha por concretizar que o manteve lúcido. Nas suas horas de maior tormenta, a imagem de paisagens exóticas, guiou-o como um farol. Nas sessões de fisioterapia, as caminhadas que sempre sonhou fazer no deserto, eram a força motriz que faltava aos seus músculos. Recusou sempre o que lhe tinha acontecido, a tragédia em que a sua Vida aparentemente se tinha tornado. "Se é uma tragédia, hei-de torná-la num épico. De 5 estrelas!".

Nepal. India. China. Micronésia. África. As selvas tropicais. Os Polos. Os desertos...

O sonho, agora, estava concretizado. Estaria?... Na base daquele promontório, questionou-se porque é que a melhor sensação que tinha era a de voltar a casa, e porque é que a sua sede de viajar nunca se extinguia. Alguma vez se extinguiria?... Com tanta memória fantástica, como é que a vontade se poderia extinguir, se as paragens onde ele ainda não foi, as línguas que ainda não falou, os montes que ainda não escalou ou os desertos que ainda não calcorreou, continuavam a chamar por ele, como em criança, adolescente, paraplégico e ali, ali mesmo, naquele precipício que tão bem conhecia e ao qual, graças ao sonho, tantas vezes retornaria...

28 de julho de 2009


If we cannot live so as to be happy,
let us at least live so as to deserve it.
Immanuel Hermass von Fichte

Um dia passei por um mendigo, um dos que toca nas estações do metro, com um ar deveras andrajoso mas sempre orgulhoso no seu tocar. Foi precisamente isso que me fez parar para admirá-lo: o seu absoluto ar de felicidade enquanto tocava a sua guitarra. Tocava razoavelmente, nada por aí além, e com um repertório bastante limitado. Fiquei a pensar no que levava aquele homem a persistir no seu ar tão feliz apesar da sua situação económica aparentar ser bastante desfavorável. A tocar daquela maneira, não seria daquela forma que sairia da sua situação, se é que pretendia atingir o estrelato no panorama musical.

Fui para casa a pensar no assunto. Pelo caminho, em contraste, vi centenas de caras de pessoas: nenhum sorriso; pior, nenhum vislumbre de verdadeira felicidade, da luz que irradia o rosto, toda a pessoa, e que vem do mais íntimo do nosso ser. Se eu perguntasse a uma parte dessas pessoas o que é para elas a felicidade, creio que a grande maioria limitar-se-ia a dar uma definição dependente de bens materiais ou da saúde que não têm e que gostariam de ter. Ou seja, a felicidade, para essas pessoas, seria ter aquilo que não têm, seja o que for que não tenham. È comos e a felicidade não residisse dentro delas, é como se a felicidade residisse num objecto, num lugar, noutra pessoa, noutro estatuto social, noutro estado de saúde. É como se a realidade em que vivem não fosse suficiente para que se considerassem felizes, é como se sentissem amarrados a algo que os puxasse para baixo ou, pelo menos, que não os deixasse sair de onde estão.
Eu compreendo-os. Não sou muito diferente e, tendo sido educado nesta cultura em que só o patamar mais alto que conseguimos atingir é que é valorizado (uma situação bem definida pelas palavras do meu pai: "Uma pessoa deve deixar nesta vida mais coisas do que aquelas que recebeu."), muitas vezes sinto-me angustiado por não conseguir ter mais, por esta altura, do que aquilo que aquilo que tenho. Quero simplesmente mais, é quase um pesnamento surreal, irracional, um reflexo condicionado ao simples facto de nos levantarmos de manhã: assim que abrimos os olhos, imediatamente temos que fazer qualquer coisa do nosso dia, tenho que justificar o dia, tenho de chegar logo à noite com qualquer coisa feita, tenho quase de justificar o oxigénio que respiro, senão ando nesta vida a vê-la passar, sou uma vergonha para a sociedade, sou um parasita, sou um inútil, etc etc, enfim, todos aqueles belos epítetos que a sociedade desenvolveu para que as pessoas assim que acordassem de manhã, vivessem a mil à hora, sem terem tempo de olharem uns para os outros a não ser no estrito cumprimento do dever diário, pior, sem terem tempo para si. Mas esperem! Deixem-me cá pensar: se eu não tenho tempo para os outros, nem tenho tempo para mim, o meu tempo vai para quem?... Resposta: vai para coisas. Sim, coisas. Perdemos o nosso tempo a tentar ganhar o suficiente para poder adquirir coisas, na jubilosa esperança (adoro estes termos tão católico) que, ao adquirir essas coisas, possa sentir-me mais confortavel, mais belo, mais saudável (longe fique a doença!), mais conhecedor, mais sexy, mais rico, mais forte, mais isto, mais aquilo, mais mais mais... A Felicidade, afinal, reside no "mais"! Ou isso, ou na Coca-cola. A pergunta que se segue é: suponhamos que se atinge uma boa parte do "mais" que desejávamos - quando é que vamos gozar em pleno aquilo que ganhámos se não temos tempo?... Próxima etapa: a ânsia do Tempo. Suspira-se pelo fim do dia, pelas 18, 19, 20 horas, suspira-se pelo fim de semana, suspira-se pelas "pontes" e pelos fins-de-semana prolongados, suspira-se pelas férias, suspira-se, enfim, pela reforma - o tempo de gozar todo o Tempo, sem horários, sem compromissos. E agora vem-me à memória as típicas cenas urbanas: agora que ficaram libertados das rotinas, tentam procurar, a todo o custo, novas rotinas. Não tendo emprego, e vivendo na cidade, resta-lhes o jardim onde estar na companhia de outros congéneres. Mas então, nao queriam Tempo para gozar o "mais" pelo qual tanto lutaram? Não era essa a condição da qual dependia a sua felicidade? Tempo e ter "mais"? Então porquê o rosto macilento? Porquê o ar solitário? Porque é que a tristeza baila nos seus olhos?... Não trabalhou toda a vida? Não cumpriu o seu dever para com a sociedade? Não educou os seus filhos de modo a que eles aprendessem a ser também eles membros de pleno direito na sociedade, contribuintes e cidadãos activos? Não os educou de forma a que aprendessem a cultura do "mais"? Sim?... e então e agora? Que mais falta para ser feliz? Onde está a felicidade que sempre perseguiu, toda a sua vida?

Penso no mendigo. Penso no seu ar aparentemente feliz. Penso na alegria que ele põe no que faz, no muito ou pouco que faz. Penso na felicidade que penso ter visto irradiar no seu rosto. Penso também na sua vida, imaginando se ele, com uma situação mais estável, não seria ainda mais feliz?... Se, de facto, aquilo que julguei ver nele era felicidade, então ele sabia que a única fonte em que a encontraria era dentro de si, no seu ser, aceitando-se e à sua vida, como ser completo, único, de alma e coração, com defeitos e virtudes, de potencial infinito e que vive no único momento que conta: o Agora. No fundo, não parecendo, fazia uma coisa muito importante: respeitava-se. E o Respeito por nós mesmos é das primeiras coisas que esquecemos, muito antes de nos perdermos no caos do dia-a-dia e nos esquecermos onde, e como, é que podemos encontrar a Felicidade. Se querem entrar na sala, como querem abrir a porta se não têm a chave, se não sabem onde é que a sala fica, nem como se abre?...

27 de julho de 2009

To deny our own impulses is to deny the very thing that makes us human.
Andy and Larry Wachowski, The Matrix, 1999

Part of the inhumanity of the computer is that, once it is competently programmed and working smoothly, it is completely honest.
Isaac Asimov (1920 - 1992)


Hoje em dia, os computadores estão presentes em todo o lado. Não sou informático, mas sei que a capacidade que define um computador - a sua capacidade de computar, ou seja, de realizar operações lógicas automaticamente - está presente até no mais pequeno relógio digital. É isto que me leva a dizer que seria impensável (mas não impossível, como é óbvio) viver sem computadores. Criámo-los para que nos servissem, de uma forma rápida, eficiente e sem hesitações (e sem culpas por explorarmos alguém, atrevo-me a dizer). Criámo-los para que não fossem humanos. Criámo-los de uma perspectiva total e absolutamente lógica, racional. No fundo, foi como se tivessemos tirado uma parte integrante nossa, purificado e materializado num objecto de uso quotidiano.
Ora, tendo em conta que toda a gente que está a ler este texto trabalha com computadores, sabe-se que é chato ter um objecto que obedece única e exclusivamente às regras lógicas, matemáticas: quando dão para emperrar, porque estão muito ocupados a processar sabe-se lá o quê e não sabem fazer outra coisa na vida, emperram e acabou. E lá ficam eles nos seus cálculos infinitos, a moer palha, sem consciência que o estão a fazer. São uma ferramenta, o que é que se há-de fazer?...
Ser humano é, obviamente, ser muito mais do que isso. Partindo das citações que acima coloquei, é mais do que sermos impetuosos ou ser "squeeky cleanly honest"; é termos vontade própria, sermos, tantas vezes, irracionais, termos birras a sério, termos caprichos, ter dúvidas, no fundo, sentirmos e vivermos completamente as nossas emoções, aprendermos com elas, saber que não podemos passar sem elas, boas ou más, que são o sal da nossa Vida. Muitos neurologistas dizem que as emoções são o resultado do funcionamento normal do cérebro, não o desminto. Mas devo sublinhar que o cerebro não é constituido por uma unidade central de processamento única mas por biliões de células que funcionam ao mesmo tempo como processador e memória. E não funcionam por 0's e 1's. É muito mais complexo que isso. Há zonas dedicadas a determinadas funções, sendo que uma delas é dedicada à Lógica. Quando transposta para a parte consciente, sabemos que estamos a pensar racionalmente, numa lógica linear, com resultados seguros.
Como todas as nossas células nervosas comunicam umas com as outras, é normal que, muitas vezes, as partes que estão a processar informação lógica, estão a fazê-lo em simultâneo com a parte que está a sentir, a processar as emoções. Não questionando a infalibilidade do nosso cérebro, mas sabendo que so podemos consciencializar as coisas a 3D, de uma forma linear, é então que se dá a interferência da razão com a emoção. E é isso que tem a graça toda, é isso que também nos define como humanos. É pensarmos sobre as coisas E sentir emoção sobre essas mesmas coisas. É isto que nos torna tendenciosos, é isso que nos torna tão corruptíveis... é isso que nos torna únicos. Já imaginaram se fossemos máquinas meramente lógicas, com um potencial de processamento quase infinito (mas limitado no tempo) com capacidade de consciência? Pouco nos distinguiria de uma máquina, tirando a óbvia excepção que a máquina seria inorgânica e nós somos seres orgânicos. Mas, que nos diria que estaríamos a proceder bem ou mal? Como apreciaríamos a beleza ou a sua ausência, de algo que experimentassemos? Como determinaríamos quem seria o nosso companheiro, se não o escolhessemos com o coração? Como saberíamos, sequer, o que é o coração? No fundo, que nos definiria como humanos? Toda esta descrição é um exemplo extremado, bem sei, mas é um exemplo extremado de como seríamos se deixarmos a Razão deixar guiar as nossas vidas, deixar que qualquer raciocínio lógico controle as nossas decisões mesmo que o Coração, a fonte da emoção, nos diga que o correcto é NÃO fazer o que é lógico porque, de alguma forma, é isso que é o correcto a fazer. Nós não somos máquinas, nós não somos honestos: somos seres de carne e osso, orgânicos, pensantes, conscientes e sensíveis. Somos tudo isto, e somos Um. Magnífica e divinamente imperfeitos. "Pensentimos". Que pode ser (mais) um sinónimo de Humano...

24 de julho de 2009


No soul is desolate as long as there is a human being
for whom it can feel trust and reverence.
George Eliot (1819 - 1880)

Numa sala de um qualquer velho bloco de apartamentos na cidade, Augusto junta papeis de jornais abandonados na rua, velhas reliquias usadas como sinais do tempo que, nas grandes cidades, passa sempre a correr. Depressa demais para que alguém possa, até, consciencializar-se do que se passa à sua volta. Ao mesmo tempo que o faz, num ritmo lento, ponderado, com método dir-se-ia até, vai observando os cabeçalhos de dias passados.
- Ena pá, olha-me para este tipo, como ele está!... coitado, brevemente vai p'ra quinta dos calados... - disse, falando para si mesmo, numa voz rouca, no que poderia ser mesmo um bom baixo lírico numa companhia de ópera. - E este também nunca muda. Ou antes, muda até demais: cada semana que passa, é outra gaja que ele consegue engatar...
No mesmo ritmo compassado, dobra com cuidado o jornal e arruma-o com paciência no monte que já tem do seu lado esquerdo. Pega entretanto noutro e procede à mesma análise de factos e figuras.
- Tshh, estes jogadores da bola são sempre o mesmo... é só jogatana, copos e gajas... trabalhar a sério é que era bom! Onde é que já se viu, andar a dar pontapés atrás de uma bola ser um trabalho, um emprego? Onde é que está a utilidade desse mester? Sinceramente... E este aqui?, parece quem o rei na barriga, ó caraças, só porque tem jeitinho de pés... se estivessem na guerra, no meio do mato, queria ver o que é que faziam com o jeitinho de pés...
Após alguns minutos, pousou também o exemplar do jornal desportivo, colocando-o no monte. E assim prosseguiu durante mais umas horas, até o sol ter descido abaixo da linha de prédios que se via pela janela do andar que ocupava ilegalmente. Era um andar abandonado, já há muitos anos, localizado no que tinha sido, noutros tempos, a zona áurea da cidade - uma zona com um enorme parque, onde jovens brincavam, casais de classe média passeavam nos seus tempos de lazer de chapeu alto e sombrinha e idosos recordavam com saudade os seus tempos de mocidade ida. Na memória de Augusto, que ainda tinha presenciado uma parte deste quadro, lembrava-se que nessa altura não se via aquilo que se vê hoje por tanto lado: idosos abandonados em casa, ou nos jardins sempre com a mesma rotina, em companhia de outros idosos. "Os novos não querem nada com a velhice... no meu tempo não era assim... naqueles bancos de jardim, o pessoal de idade era respeitado. Todos olhavam para eles com reverência e tinham uma palavra, um segundo para dois dedos de conversa para com quem aí estivesse sentado. E eu achava isso bem! Quem havia naquela rua que contasse melhor histórias que o sr. Francisco, ou melhores anedotas que o sr. Antunes, sempre com um sorriso nos lábios debaixo daquele bigode farfalhudo que tinha? Ninguém! Eles tinham o tempo para nós, que eramos miúdos na altura, que os nossos pais não tinham em casa, sabiam coisas do arco-da-velha e nós ficávamos espantados a ouvir... eles sabiam prender-nos, sabiam deixar-nos suspensos no final de cada palavra, era tão bom...".
Augusto tinha ajudado a construir aquele prédio: eis a razão para que, assim que se viu na triste situação em que se encontrava e, ter visto que o prédio estava devoluto, ter escolhido ocupá-lo, como quem nao quer a coisa. "Sempre é melhor que dormir na rua, num vão de porta ou de escada qualquer ou à porta do Metro, como os outros desgraçados!" Era um sem-abrigo muito "fino". Assim que ocupou um dos apartamentos, conseguiu arranjar uma fechadura nova, pelo que o apartamento era só, tecnicamente, dele. Infelizmente, não era fácil arranjar o resto do equipamento mínimo de um lar, pelo que ia ter as suas refeições ao Centro Social mais próximo, tomava banho de água fria ("ao menos tenho água!") e dormia numa cama de jornais abandonados, com outros jornais por cima. É preciso dizer que Augusto não tinha frio durante a noite: o papel de jornal é um excelente isolante térmico e a divisão onde dormia tinha uma janela ainda intacta, pelo que o frio não entrava com tanta facilidade. Todas as noites pensava "Já me prometeram um saco-cama lá no Centro mas... e saco? Nem vê-lo!... se fosse a confiar naquela gente e não apanhasse os meus jornaizinhos, bem me podia sentar à espera!". Augusto era um desconfiado. A vida tinha-o tornado assim e, aos seus olhos, era um sistema que não falhava: dessa forma não tinha surpresas (coisa que odiava) e não tinha que prestar contas a ninguém sobre a sua vida.

- Atenção à grua, pá! - gritou Augusto, de olho no resto do seu pessoal - Raios partam estes 'maçaricos', nunca sabem fazer nada, ò caraças... - rabujou entre dentes.
- Tenha calma, sr. Augusto. O rapaz só está nisto há uma semana e os outros que estão a trabalhar na estação pouco mais tempo têm. Lembra-se como era quando começou?
- Tenho calma não, ó Pedro! Então propõem-se a fazer um trabalho para o qual não sabem? Que se fossem oferecer para condutores de autocarros, ou pasteleiros ou padeiros, ou sei lá!... Quem não sabe, não faz! Já viste o que é que seria deixar cair aquela palete de tijolos nos cornos de outras pessoas?? E depois quem é que era o responsável? Claro, o velho Augusto Ribeiro!! Ele é que escolheu o pessoal dele, ele é que é o empreiteiro!! No meu tempo não era nada assim! Antes de se começar a trabalhar a sério numa obra, o pessoal mais velho andava em cima de nós como uma carraça. Cada vez que fazíamos merda, pimba! uma arrochada na pinha que até andávamos de lado... mas aprendíamos e era com esses trabalhinhos miudinhos que aprendíamos... agora o pessoal mais experiente, onde é que está para isso?... Quer é fazer as horas, anda de um lado para o outro a olhar para o relógio de meia em meia hora, metidos com eles próprios e os mais novos que se fodam! Depois vêm com regras e leis e a Inspecção e o caraças... mais bom senso na cabeça era o que o mundo precisava, homem!...
Pedro abanou a cabeça a rir-se. O adjunto puxou Augusto pelo braço para lhe mostrar que a nova secção, a futura sala de passageiros, já tinha as paredes levantadas.
- Óptimo! Com esta equipa nova, estava a ver que iamos ficar ainda mais atrás do prazo... o tipo que nos sub-contratou já se anda a passar dos carretos.
- Não se preocupe, chefe. Eu ando em cima deles como uma carraça - disse, piscando o olho e sorrindo. - Venha, está quase na hora de almoço!
Afastaram-se daquele espaço e sairam para o estaleiro. Estavam a passar ao pé da zona onde dobravam o ferro quando, de repente, se ouviu um estalido e um grito vindo de cima:
- CUIDADO COM A CARGA A CAIR AÍ EM BAIXO!!! Ó PATRÃO, FUJA DAÍ!!!!
Mas já era tarde demais, a carga tinha-se desprendido do gancho da grua e a única corda de suporte acabara de estalar. A pilha de tijolos que estava a ser içada caiu com estrépito no chão, mesmo por cima da zona em que Augusto, Pedro e Duarte, que estava a dobrar vigas, se encontravam. No momento seguinte, o caos estava instalado no estaleiro e os três estavam inconscientes.
Dias mais tarde, Augusto acorda no hospital, enfaixado e engessado. Ao seu lado, a mulher e alguns colegas de trabalho.
- ...Humpf... que aconteceu?... onde estou eu?... ai...
- Deixa-te estar quieto, Augusto Filipe - disse a mulher - tiveste um acidente na obra, não te lembras? Uma pilha de tijolos caiu em cima de ti, do Pedro e do Duarte...
- E como é que estão eles? Melhores que eu, de certeza... pessoal novo tem mais vidas que um gato! hehehe... ai! as minhas costelas...
- Pois, Augusto... - hesitou a mulher, olhando para o resto dos colegas que desviaram ligeiramente a cara - o Duarte está em coma e os médicos dizem que vai ficar tetraplégico... quanto ao Pedro... viemos agora do funeral dele.
Enquanto falava, a expressão de Augusto mudou. - O Pedro... morto?... como é possível?... Morto??... - As lágrimas começaram a rolar na sua cara...


Os anos foram passando e, após recuperar das mazelas que tinha sofrido, Augusto voltou a contratar uma nova equipa. No entanto, foi sol de pouca dura: no processo de averiguações que se seguiu ao acidente, concluiu-se que o estaleiro não cumpria certas normas mínimas de segurança, especialmente ao nível do equipamento de protecção individual, ou, como lhes chamavam, EPIs. Além disso, muito do restante equipamento utilizado na obra era obsoleto, não reunindo as condições de segurança exigidas. Era o caso da corda da palete que tinha caído. Pior que tudo isso, Augusto não tinha seguro. As indemnizações que os familiares reclamavam teriam que ser pagas do seu próprio bolso, já que determinou-se que, com o equipamento exigido por lei, Duarte não estaria tetraplégico e Pedro estaria, pelo menos, vivo. Foi a ruína de Augusto. Ao saber-se do resultado do processo, como se não bastasse a notícia do acidente, o número de pedidos de contrato caiu a pique e, pouco depois, o dinheiro já não entrava em caixa. Obrigado a vender todos os seus bens para pagar as dívidas, não lhe restou outra solução senão ir para a rua dormir, uma situação que a mulher não aceitou, pelo que pediu a separação.
- Eu sabia que o teu orgulho, a tua teimosia e a tua forretice um dia iam causar isto... não sou mulher de esconder a cara na rua com vergonha, não sou mulher de andar a pedir, nem sou mulher de mendigo. Não há volta a dar, lamento... adeus Augusto. - dissera-lhe antes de o deixar.
A partir desse dia, Augusto vagueou pelas ruas, de honra no chão, de cara escondida, tentando sobreviver. Pensava muitas vezes nos dias passados, nos dias felizes, de Sol, Verão, das viagens, de comida gostosa, cama e roupa lavada... lembrava-se, acima de tudo, do Amor que a mulher lhe dera, nos momentos que partilharam, nas promessas de Amor eterno que trocaram em jovens e nos seus votos de casamento... era disso que tinha saudade, no fundo, saudades de um tempo em que era Homem completo, ser amado e desejado, companheiro e amigo amantíssimo. Mas agora,sem amigos, sem mulher, sem casa, sem trabalho, sem honra, quem lhe valeria?... de que lhe serviriam as memórias, a sua experiência?... quem, e que, era ele, afinal?...

23 de julho de 2009


Words are a heavy thing...they weigh you down. If birds talked, they couldn't fly.
Sy Rosen and Christian Williams, 1992

Branco. Branco ofuscante, penetrante, puro. Uma imensidão alva rodeia-me, sem princípio nem fim. É um campo de algodão que se estende, até ao infinito, sob um fino céu azul profundo, como uma abóbada pintada pelos mais talentosos artistas do Universo, com uma perfeição inigualável. Dá vontade de caminhar sobre esse campo, ir aos saltinhos, saboreando sob os pés a suave textura de tão macio campo, num prazer infindo. Que nunca se quer que acabe. Que nunca tenha parança. Que seja sempre mais e mais. Que haja sempre mais e mais. Aquele algodão... este algodão... ele simplesmente é! Alguém lhe disse o que ele é? Alguém lhe disse o quão branco ele é? O macio que é? O atractivo que é? Não. Ele simplesmente é. Está aqui, aos meus pés e simplesmente é. Os átomos que o constituem podiam ter sido outra coisa completamente diferente, mais abrasiva, mais densa, mais escura, mais repelente. Mas escolheram ser água, vapor, névoa, nuvem. E simplesmente são.

Sento-me.

Estou cansado. Há muitos dias que caminho, sem estrada, sem trilho, mas com destino. Hei-de lá chegar, tenho de lá chegar. O frio. Este frio que está por todo o lado e que nos penetra, por muitos fatos termicos que usemos, por muitos cachecois que tenhamos, por muitos polares que vistamos e calcemos. É um frio hostil, com vida própria, com passos inaudíveis mas uma voz que grita com as voltas que o vento dá por entre nós. Parece quase uma maldição, uma praga que nos assola e nos tolhe os membros, o corpo todo, que torna lento o pensamento, o corpo... não a alma. Não. Quente. Fogo. A alma arde e leva-nos a prosseguir, a continuar sempre em direcção ao destino que tenho, que todos temos. Ela brilha acima de qualquer luz, é a Força Maior, é a Essencia Invisível, intocável, sensível, irresistível... Porque não brilhas tu agora com todo o teu calor, para que me pudesses aquecer? Agora, na maior de maior necessidade??

Silêncio.

Porque fiz eu esta viagem?... Ainda falta tanto tempo, tanto caminho a percorrer... Está tão longe o destino... Não, não está nada! Está já ali, acredito que está mais perto do que o que penso que está. Os olhos enganam. Sempre enganaram. Sempre me deixei levar pelo que os olhos e os ouvidos me "contaram" e nunca fui parar ao sítio onde desejava, salvo algumas honrosas excepções. Eles limitam a minha realidade, retiram-me o foco do "agora" para o "antes e o depois", para o que já foi e a hipótese de algum dia ser, entre o consumado e o imaterial intangível. Há momentos em que é preciso saber o que se é, é preciso saber-se para onde vai. Este é um deles. Este é um deles?... Que sei eu?... Num dia somos os senhores de todo o conhecimento, noutro dia somos os mais ignorantes seres do mundo, alternando indefinidamente entre o alto e o baixo, entre a glória e a desgraça, entre a confiança inabalável e a dúvida mais tenebrosa. Um barco à deriva no meio de um mar agitado, sem leme, sem velas. Teremos mesmo um destino?... Sim, é claro que sim, claro que temos, não penses em disparates, tu sabes que tens um destino. Não é por acaso que estás sentado onde estás, vestido como estás, prestes a fazer o que vais e tens que fazer. Mas... tudo isto para quê? Qual a razão do teu esforço, do teu sangue, suor e lágrimas, das noites infindas sem dormir como deve ser, do frio que te congela até à alma?... das tuas dúvidas?...

- Estás louco!
- Dificilmente. Sei o quero. - disse calmamente - Mais do que nunca sei o que quero, sei do que preciso. Preciso de partir. Aquela montanha chama-me. É inútil negá-lo. É uma realidade tão certa como eu e tu estarmos aqui, um em frente ao outro.
- Sim, respeito e estou a atentar aceitar, mas... porquê? Porquê agora? Porquê de repente? Porque é que não reflectes melhor, não ponderas se é mesmo isso que queres fazer?
- Está na hora. Soou dentro de mim. Senti em mim a corda solta das amarras, sinto-me livre, solto de todos os encargos que tenho... sinto que é hora de ir e encontrar... - disse de olhar no vazio.
- Solto? Livre de encargos? Sem amarras?... - abanou a cabeça, num misto de espanto e piedade - Estás mesmo louco!!... Então e os miúdos? Então e eu? O teu trabalho? Os teus amigos? A vida que estabeleceste aqui, ligado a uma família, a uma comunidade, o teu compromisso para com a sociedade? Que é feito de tudo isso?? Que vai ser de tudo isso???
- Tudo isso pode prosseguir sem mim. A vida continua, por muito que uma pessoa falte. Isto não é um sistema fechado, dependente de cada uma das unidades que perfaz o todo. A vida continua... É uma realidade difícil de aceitar para a maioria das pessoas, sabes? As pessoas vivem tão embrenhadas no sue dia a dia, que não concebem a vida sem ser de outra forma, sem determinadas pessoas que conhecem, sem ir a determinados sítios, sem ter determinadas coisas, enfim, sem a sua vida rotineira. Não vale a pena culpá-los: o Homem é muito um animal de hábitos, mais ainda quando se acomoda a uma situação que considera ser a melhor possível; como diria Voltaire, no seu Cândido, "quando se vive no melhor dos mundos possíveis!". Mas há dias em que se acorda deste optimismo entorpecente e vemos, não só, que o mundo em que vivemos pode continuar sem nós mesmos, como também que o nosso lugar nem sequer é ali. E, então, a vontade de partir instala-se, anicha-se, alimenta-se do fogo da nossa alma e cresce, cresce, cresce cada vez mais até ser tão impossível de negar, de conter no nosso peito e na nossa mente que, ou mudamos, ou rebentamos! PUM!!!... e adivinha por que lado é que o ser Humano opta, normalmente? É inevitável: decide partir, muitas, tantas vezes sem saber para onde vai, ou por onde passar. Simplesmente, vai. Porque percebe que não há maior nirvana do que, simplesmente, ser.
- As coisas não são assim, não podem ser. Tudo aquilo que disseste não passa de devaneios, pensamentos soltos, idílicos, poéticos de alguém que sente que há qualquer coisa na sua vida que não está bem e que quer mudar... - aproximou-se dele, quase em desespero - O que é, querido? Diz-me!! Conta-me o que é que te aflige? É o trabalho? É o teu patrão? Os colegas?... É a rotina de todos os dias? Que queres tu mudar? diz-me!!... Sou eu, não é? Vejo nos teus olhos que sou eu? O sexo já não é o que era, é o que tu pensas, não é Querido? Já não sou bonita? Desiludi-te como pessoa, à medida que os anos passavam, não foi? Fala comigo Amor, não desvies o teu olhar, fala comigo!!!
- Basta!! Já te disse o que quero! Já tomei a decisão!! É irreversível!! É algo que tenho de fazer por mim, ouviste?, por mim!!! E não há nada, NADA, que me demova desta ideia... é uma coisa que grita em mim, que me queima e me faz passar noites em branco, mais pela impaciência do nunca mais partir do que pela agonia do que deixo para trás!! Tenho que ir!!!
Virando costas, saiu de casa.


Luz quase encadeante.

Impetuoso. Meteste esta ideia na cabeça e não descansaste enquanto não te meteste no avião até este país perdido nos confins do mundo, com os poucos "trocos" que amealhaste ao longo de uns meses, não puseste a mochila às costas e puseste "os calcantes" nesta maldita cordilheira. Era isto que precisavas de fazer para o perceber?, para perceberes que és impetuoso, teimoso e egoista??... Ahh, agora pensas na tua família!... Bem, mas agora é tarde: só tens um caminho a percorrer e esse é para cima. Não tens hipótese de espécie alguma. E depois de lá teres chegado, que farás? Depois de teres apanhado o avião de volta, que farás? Julgas que o teu magnífico emprego estará à tua espera? E a tua mulher, depois daquela despedida "em beleza" que fizeste, julgas que está disposta a aceitar-te como dantes? Não percebes, pobre imbecil, que mudaste a tua vida de uma forma completamente irreversível e irrecuperável?? Não percebes??? Afinal que és tu???

Ar... preciso de ar... preciso de pôr as ideias em ordem...

Afinal quem sou eu? No meio desta neve, deste tapete incerto, escondendo sabe-se lá que perigos, confiando em pessoas que nunca vi na vida, que nem a fortuna que lhes paguei me garante a sua honestidade e competência, vestido como se tivesse feito isto toda a minha vida, quem, ou que sou eu? No fundo, que sou eu? A neve é branca, fria, feita de água, instável, frágil, dificulta-nos o caminhar e parece nunca se acabar por aqui; as nuvens são brancas e feitas de água também, translúcidas à luz do sol, húmidas, intocáveis ou fantasmagóricas, melhor dizendo; a rocha é dura, preta, cristalizada, imutável aos nossos olhos. Tudo tem a sua natureza, e umas coisas tem a sua essência mais à vista do que outras. Não, isto ainda não me responde à minha pergunta: quem sou eu? Mas, será que tenho de responder a esta pergunta?

Vento... vento que nunca mais acaba... e o cansaço... também...

Saudades. Sinto saudades. Sinto saudades não sei de quê, ou de quem, mas sinto-as como ainda sinto o meu coração a bater. Não posso dizer o mesmo de outras partes do meu corpo porque a essas já não as sinto e nem sei se ainda as tenho. Só consigo olhar em frente, para o caminho que não existe, pensar no destino que me aguarda, algures, lá em cima. Já mal consigo pensar, tamanho é o cansaço, tamanha é a falta de ar e a fome que tenho... tenho de continuar, é para isto que aqui estou, é aqui que devo estar, agora... dizem-me que já falta pouco e quase que rezo para que seja verdade, para que esta viagem infernal acabe de vez e possa descansar finalmente, possa voltar para as pessoas que amo, possa voltar a casa... Casa... isso agora está tão distante... será que ainda tenho casa?... será que as coisas ainda existem?... Não me posso distrair com ideias, tenho que olhar em frente, não me desequilibrar e prosseguir... prosseguir sempre em frente... não posso ser mais do que eu... porque só eu é que estou aqui, não são eles, não é ela, não são os miudos, não é a família, não sao os colegas e os amigos, não é a equipa de futebol aos fins de semana, não são todas as outras pessoas que já conheci na vida, não é ninguem mais a não ser eu, eu e EU!... Mas que sou eu?... Serei todas essas pessoas, o que delas me foi partilhado, as vidas em comum, o que eu fiz, o que concretizei, os filhos que tive, o dinheiro que fiz, o meu contributo para a sociedade, os jogos que joguei?... Serei os meus pensamentos, as palavras que disse, as palavras que escrevi, os momentos de meditação, as horas de raiva, as lágrimas de dor que chorei, as saudades que senti, o suor que transpirei a trabalhar, aquilo em que acredito, a música que eu oiço?... Serei os actos mecânicos que faço sem pensar, os gestos automáticos a que não dou, nunca dei e, quem sabe?, nunca darei importância?... Não, não penses, continua, continua só... Raios, a tua teimosia em pensar tudo, em remoer tudo, em analisar tudo há-de ser a tua desgraça e há-de ser aqui se não páras de ocupar espaço na tua cabeça com coisas inúteis para o sítio em que te encontras... Mas serão inúteis para a minha vida?... Todas as coisas que acabei de pensar, serão inúteis para a minha vida quando não estiver aqui?... Alguma vez estarei em mais algum lado? Alguma vez sairei daqui vivo?... Calma, abranda um pouco, pára para respirar... respirar o quê?, com este ar mais rarefeito que sei lá... Ainda não tenho resposta à minha pergunta de há pouco: quem sou eu? Que sou eu? Qual é a Verdade em tudo isto, na minha Vida, na Vida, em tudo o que existe?...

Cume. Vento, tão forte e tão gélido como nunca na vida antes tinha sentido. A adrenalina que corre pelas minhas veias e me revitaliza, me renova as forças, me transforma em homem novo. O sabor da vitória, um prazer nunca antes sentido. O desejo e a ganância de que o momento se perpetuasse e se guardasse na palma da mão, para sempre. A ambição desmedida de querer sempre mais. A vista que queria ser de falcão-peregrino para poder ver todos os picos e cumes das proximidades e mais além, muito mais além. O ímpeto de saltar de cume em cume, de ganhar asas, de ser ave e não homem para ser sempre livre. A liberdade, pura como nunca a tinha provado. A calma interior, a paz que se conquistou depois de todo o sacrifício e trabalho. A doce música do triunfo alcançado, banda sonora de proporções épicas em grandeza e intensas em tranquilidade. E a Verdade, finalmente, a Verdade...

...e depois, o Continuar.

22 de julho de 2009

Have courage for the great sorrows of life and patience for the small ones; and when you have laboriously accomplished your daily task, go to sleep in peace. God is awake.
Victor Hugo (1802 - 1885)


Peço-vos, também eu, um pouco de paciência, porque hoje não vou escrever (por diversos motivos)... deixo um pensamento (belíssimo) para depois se entreterem com os vossos pensamentos.

21 de julho de 2009


When they discover the center of the universe, a lot of people will be disappointed to discover they are not it.
Bernard Bailey

Havia tanto tempo que ele não passava ali... Ficou surpreendido como tudo tinha mudado tanto, as árvores, os arruamentos, mesmo os bairros que constituiam a sua memória de infância. Por ali, mil corridas de bicicleta tinham sido feitas, mil jogos de caricas tinham sido jogados, gritos e gargalhadas incontáveis... Ali era a sua casa, continuava a ser a sua casa, mesmo depois de tantas mudanças de morada durante tantos anos. A cada mudança, também o seu mundo, também aquilo que era, mudava: assim é a acção do tempo sobre as pessoas. Coisas há que não mudam, no entanto: a memória dos momentos de felicidade extrema, da cor berrante que vemos cada vez que estamos felizes, do cheiro rico e intenso que paira no ar nesses intermináveis fins de tarde de brincadeira, do sol glorioso que não escalda, que estimula, do cansaço que teima em não aparecer após tanta hora de corrida, do conforto e segurança de não haver preocupações...

"...
When we were kids when we were young
Things seemed so perfect - you know
The days were endless we were crazy we were young
The sun was always shinin' - we just lived for fun
..."


Era esta a musica que passava na sua jukebox mental nesse momento... Nada ilustraria melhor o seu estado de espírito. Aquela volta era um passeio à sua memória, aos dias fantásticos. Ele merecia, depois de tudo o que tinha passado nos ultimos anos, ele merecia... Que diabos, ele merecia porque estava vivo, ponto! Tinha sido um desvio de alguns quilometros consideráveis mas valia cada segundo, cada batimento do seu coração. E como ele estava acelerado agora!
"Ah, ali foi onde eu, o Marco, o André e o Gonçalo fomos à caça dos 'peixes-cabeçudos'... coitados dos bichitos...", pensou, esboçando um esgar malandro. Mais à frente "Ehhh... ali era onde nos juntávamos antes de ir todos juntos de bicicleta até ao lago!... o que é fizeram ali? ah, nada mal pensado...". O que o mais surpreendia era o olhar triste das pessoas que passavam, algumas suas conhecidas que se mantiveram na zona, mas, na sua maioria, desconhecidas. Era um olhar cansado, desmotivado da vida, um olhar perdido e conformado à vida que levariam, olhar pesaroso e carregado por vezes. "Naquela altura só o velho Simão é que tinha uma cara assim. Todos os demais tinham uma cara medianamente alegre... a não ser quando nos intrometíamos nalgum sítio onde não eramos chamados! Hahaha!". Mas fazia-lhe impressão tamanha tristeza, o contraste entre a faces transtornadas e as suas memórias. Ali era o seu reino, caramba! Não havia lugar para caras mal-dispostas, só para sol e risos! Se pudesse punha aquela gente toda a rir... Até nos dias de chuva conseguia-se encontrar alguém com quem brincar, até os dias de chuva eram felizes... "...Às vezes mais felizes do que outros, até!".
Parou para tomar um café e fumar um cigarro sentado, apreciando o fresco ar da tarde, na que tinha sido a pastelaria mais conceituada da vila, na altura. Era uma boa oportunidade para tomar o pulso ao movimento e ao que as pessoas diziam. Passado pouco tempo, concluiu que as conversas eram as mesmas que nos outros lados: o desemprego, a crise, o governo, doenças, futebol... "Nem sei porque poderia ser outra coisa... viva a aldeia global...", pensou, enfadado, enquanto vestiu o casaco e puxou de mais um cigarro. Que pena o carácter genuíno das pessoas de então, falando em roda de amigos ao fim do dia, com um copo de tinto ou de cerveja na mão até à hora do jantar, se tivesse perdido...
O final da visita não lhe trouxe mais surpresas... passando ao lado da velha igreja, no largo da qual passara tantas tardes na brincadeira antes da catequese, observou como estava tão degradada... "As pessoas perderam a fé que tinham em algo... sentem que nada as pode ajudar, sentem-se indefesas e impotentes... que miséria...".

Nessa noite, em casa, falou disso à mesa...
- Que tristeza, Serena, se soubesses... acho que nunca deveria ter ficado lá tanto tempo... parece que a tristeza que vi na cara das pessoas me 'contaminou', parece que neutralizou um pouco da alegria que as minhas memórias da vila me davam...
- Sabes o que dizem: "Nunca voltes ao local onde foste feliz"... mas porque é que foste lá? - perguntou enquanto se levantava para ir buscar a travessa com a sobremesa.
- Sei lá... deu-me! Tenho-me vindo a lembrar das coisas que vivi na altura, sabes?, sobretudo agora, que os miudos são mais ou menos da idade que eu tinha quando morava lá. E sinto-me com pena que eles não possam disfrutar das mesmas coisas que eu na altura, por não crescerem num ambiente mais saudável, a todos os níveis.
- Nisso dou-te razão. Na nossa altura, passávamos mais tempo na rua, sem supervisão, íamos quase onde nos apetecia, corríamos, saltávamos, caíamos, magoávamo-nos... ainda tenho umas cicatrizes valentes dessas brincadeiras! Mas tens de ver também que os tempos são completamente diferentes: a televisão e o resto da comunicação social trouxe para a realidade das pessoas muitos problemas que antigamente existiam. Eles, se calhar, aumentaram mas muito mais certamente que aquilo que se vê é empolado e não está longe do que já na nossa altura se passava. Não podemos fazer muito, sabes? Mesmo que deixássemos os nossos ir para a rua brincar, que iriam eles fazer? Brincavam com quem? Os outros pais não deixam os deles ir para a rua com rédea solta, têm medo demais! E nós já fazemos o melhor que podemos, pusemo-los na melhor escola que podemos, e levamo-los a ir praticar desporto, que é onde eles têm os amigos deles... aqui em casa os computadores e as consolas substituiram as caricas e a apanhada...
- Como dizia o poeta "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades..."...
- Nem mais, querido...
- Mesmo sabendo que eles são felizes, parece-me uma felicidade artificial... artificial porque está confinada a um espaço, a alguns espaços em que só se podem fazer algumas actividades... a rua na nossa altura era 'o' espaço por excelência! Era onde TUDO era possível!
- Que fazer? - disse, encolhendo os ombros - Queres mudar o mundo? Mesmo que quisesses mudar a tua rua, o teu prédio, não conseguias, lamento... E não podes vergar o mundo à tua vontade, o mundo não é como tu queres que seja... é o que é.
Dizendo isto, começou a levantar a mesa, sido seguida por ele com o resto da loiça suja. Mais tarde, sentado no cadeirão em frente à televisão, enquanto passava mais um programa sem interesse algum, pensava: "De facto, não posso mudar o mundo. É uma pena. Somos gente a mais no mundo para isso e, hoje em dia, toda a gente sabe o que cada um faz e ninguém sabe de ninguém. É o maior paradoxo de sempre da civilização! Nunca houve tanta informação disponível e as pessoas nunca estiveram tão desligadas da pessoa do lado... continuando assim, não chegaremos a uma situação insustentável humanamente?... Na nossa altura, tinhamos referências, sítios e pessoas que sabíamos que nunca nos deixariam mal, que estariam sempre ali, pequenos (grandes) 'portos de abrigo' onde, por muito que o mundo ruísse, desabasse, trovejasse, o sol brilhava sempre e o clima era ameno. Aquele era o 'nosso' mundo, o centro do nosso universo! Podia ser uma fantasia, mas ali era o nosso centro, fazendo-nos sentir que tudo era nosso.". Findo isto, virou-se para Serena e perguntou:
- Querida, onde é que é hoje a nossa casa, o centro das nossas vidas? O nosso "sweet spot"?
- Amor... nos dias que correm, o teu "sweet spot" é onde quiseres e onde pensares e sentires que é... Quanto a 'centros' onde te podes basear... quem sabe?...

20 de julho de 2009


Every man is guilty of all the good he didn't do.
Voltaire (1694 - 1778)

Quando eu era miudo, num daqueles doces dias de sol e diversão, calhou-me num daqueles pacotes de bugigangas sortidas que se compravam nos cafés um calendário com um dito popular. Era ele: "Não faças mal ao teu vizinho que vem-te o mal pelo caminho!". E eu, do alto dos meus tenros 8 ou 9 anos, fiquei a pensar naquilo. Seria verdade? Seria que, se fizesse mal ao meu "vizinho", imediatamente me aconteceria, como que por artes mágicas, uma desgraça? Era, ao mesmo tempo, fascinante e aterrador... O certo é que para mim aquilo soou-me uma espécie de 'justiça divina' e achei melhor não fazer nada de mal a quem não conhecia. Muitas vezes dei por mim a dizer este provérbio aos meus amigos e eles ficavam a olhar para mim mas depois pensavam duas vezes... sobretudo depois de lhes ter saído o tiro pela culatra de alguma travessura.

Os anos foram passando e a vida mostrou-me que, muitas vezes, quem faz o mal ao seu vizinho, não lhe vem o mal pelo caminho. Fui, assim, invadido por um profundo sentimento de injustiça nessas situações, e rapidamente esqueci esse dito popular. Não que me esquecesse de o pôr em pratica - por essa altura, já esse aspecto fazia parte do meu 'código de ética' - "perdi-lhe o rasto" na minha consciência. Mais tarde, ao 'acordar' para certos assuntos mais transcendentais, acabei por tomar conhecimento que uma das Leis do Universo pode ser traduzida precisamente dessa forma. A Física também a traduz: em estática ou movimento uniforme, por cada força de acção, existe uma força de reacção igual em intensidade, oposta em sentido" (corrijam-me se estiver enganado, a minha Física nunca foi muito boa...). Ou seja, esta Lei do Universo está à vista de todos.
Se uma pessoa mantiver isto em mente, e decidir querer ser bom para si, parte do caminho passará por aí - dificilmente será visto a prejudicar alguém. Mas fará essa pessoa isso por temor da retribuição, ou por essência? Não serei eu o juiz disso... Creio que uma pessoa decente escolherá, inatamente, fazer o Bem. Mas uma pessoa boa, sentir-se-á incompleto, incapacitado, limitado se não sentir, se não souber que fez o maior Bem possível. Voltaire, creio, afirmou (talvez) a frase supra-citada a pessoas de decência duvidosa, ou seja, a pessoas que não fizeram todo o Bem que podiam voluntariamente. Mas o sentido que apresentei anteriormente parece-me, também, plausivel... No fundo, que juiz é mais temido: o Outro? ou o Eu?

17 de julho de 2009


The truth does not change according to our ability to stomach it.
Flannery O'Connor (1925 - 1964)

"Não olhes assim para mim... por favor, pára de olhar assim para mim..."... Era tudo menos aquilo que precisava: o dia tinha sido tão agradável, o plano de pegar num livro e ir para o jardim perto de sua casa tinha sido perfeito... Sentia necessidade de sair de casa, de arejar, depois de tudo o que acontecera. E, apesar de tudo, tinha receio de enfrentar a luz do Sol. Mas a vontade de liberdade era mais forte: respirou fundo, e avançou em direcção à porta de entrada. "Com certeza que foi um episódio esporádico, estas coisas estão sempre a acontecer... não vai voltar a acontecer...". Atravessou a rua e dirigiu-se à lojinha do sr. Joaquim.
- Boa tarde, sr. Joaquim!
- Boa tarde menina! Bons olhos a vejam! Há tanto tempo! Então como tem ido?
- ...Tem-se ido bem! - respondeu com um meio sorriso - Queria levar isto, s.f.f.
- Ora é uma garrafinha de água para a menina, com certeza. Sabe quem é que tem perguntado muito por si? A d. Vitória, a sua vizinha de cima. Ela tem dito que não tem ouvido nada, ultimamente, que dantes havia sempre música alta, era uma animação no predio... coitadita, ela enviuvou tão cedo e gosta tanto da música que você costuma ouvir...
- Pois é sr. Joaquim, mas ultimamente tenho andado ocupada com uns assuntos que me obrigam a concentrar e ter mais silêncio... quando esta fase passar a musica há-de voltar, de certeza. Quanto é?
- 1 euro e 30, s.f.f.
- Aqui está. Obrigado e até qualquer dia!, disse já a sair.
- Obrigado e volte sempre menina!

Era impressionante como a rua que atravessava agora lhe parecia completamente diferente. É impressionante como a realidade avassaladora do momento que viveu mudou a sua perspectiva das coisas, mesmo dos locais mais comuns e banais, onde sempre vivera e passara... Ou, então, era talvez a renovada atenção com que passou a olhar para essas mesmas coisas. No fundo, tudo agora era novo; era como se tivesse renascido... oriunda de um parto absurdo da vida, quem sabe...
O Jardim projectava-se à sua frente. Com um dia tão fantástico pela frente, era, de facto, um crime não sair naquele dia. A ideia não era peregrina: parecia que todo o bicho-homem tinha saído para apanhar os primeiros raios de sol do ano, com uma temperatura que fazia lembrar vagamente dias mais quentes... a magia, se calhar, era essa: para alem de se sentir o 'degelo', lembrava os dias de férias, dias que não têm tempo nem hora, dias infindos de risos, de sabores e de sensações. Agora, ali, estava a oportunidade de iniciar o seu 'degelo' pessoal: o Jardim tinha sido desenvolvido havia alguns meses e inaugurado alguns dias antes, uma inauguração algo 'emsombrada' pelo tempo chuvoso que se tinha feito sentir. De traço moderno, com largos espaços relvados, amplas zonas arborizadas, socalcos e pequenos espelhos de água era um belo espaço numa zona da cidade que, havia não muito tempo, estava completamente ao abandono, um autêntico baldio onde cães abandonados, de dia, e grupos de toxicodependentes, de noite, se juntavam. Com o tempo ainda se tornaria melhor.
"Foi quase um milagre o que aqui aconteceu. Espantoso o que o espírito e a vontade Humana conseguem fazer... quando existem!", pensou enquanto procurava um espaço onde se pudesse encostar a ler à sombra, na relva. Mais do que isso, olhava com alguma inquietação em seu redor, como se buscasse um inimigo invisível. Em cada sombra, em cada recanto, pensava ver a ominosa figura que a assombrava havia algumas semanas.
"Aqui parece-me bem!". O sítio era amplo, tinha imensas pessoas a passar, a uns 15 metros as crianças brincavam e, alívio, era uma zona patrulhada pela Polícia. "Sim, parece-me muito bem!". Não sentia a segurança de casa mas estava lá perto. Casa. Essa palavra adquirira um sentido estranho depois de tudo quanto acontecera...

Semanas antes, a sua vida era, dentro da normalidade, perfeita. Tinha trabalho como chefe de operações logísticas de uma firma bem estabelecida no país e a sua vida amorosa parecia ir de vento em popa, com a perspectiva de começar uma vida em comum com o seu namorado de há 5 anos. Numa noite, ficara a fazer horas extra para resolver um problema de distribuição de um dos fornecedores que estava em falha. Exausta, desligou tudo e dirigiu-se a casa, ansiando por aquele banho quente, revigorante, com aqueles sais de banho maravilhosos que o seu namorado lhe tinha comprado. Mal conseguia aguentar essa perspectiva imediata do mergulhar na banheira, ao som de Garbarek... felizmente não havia muito trânsito e pôde chegar a casa rapidamente. Procurou lugar o mais perto possível da porta de casa mas não conseguiu. "Esta gente agora tem um carro para o pai, um para a mãe, um para cada um dos filhos e um jipe para o cão! Que raiva!", pensou, murmurando em simultâneo. Acabou por estacionar a um quarteirão de distância. O banho estava quase a concretizar-se, mais 5 minutos a pé e estaria a ensopar! Saiu do carro e caminhou o mais rapidamente que os saltos lhe permitiam. Inexplicavelmente, uma estranha sensação de estar a ser seguida apoderou-se de si e começou a olhar em seu redor. "Agora, ao final de viveres aqui 7 anos é que estás a ficar paranoica? Esquece isso...". Dobrou uma esquina, depois outra e ja tinha a sua rua à vista. "Almost there!..."
- Boa noite Beleza! - falou uma voz vinda das sombras da noite - Estás perdida?
Ela continuou em silencio o seu caminho, abrandando primeiro o passo e depois acelerando quase ao ponto de correr.
- Eh, ouve lá pá! Estou a falar contigo, não me ouviste?? Julgas que és quem, p'ra me dar desprezo?!?
Dizendo isto, agarrou-a firmemente pelo braço e puxou-a para si. Ela debateu-se, respirando um hálito fétido, com laivos de um cigarro recentemente fumado.
- Largue-me!!! Quem é você para me agarrar assim?? Largue-me já disse!!! Eu vou gritar!! SOCOR....
- Cala-te puta!!! - e deu-lhe um estalo que a fez perder os sentidos.

- Hmmmm... - acordou estremunhada. "Onde estou?... Que ac... Ai!!! Que dor de cabeça!...".
Tentou mexer-se mas, ao primeiro movimento, todo o seu corpo gritou de dor. Tentando novamente mexer-se, conseguiu apoiar as mãos no chão da viela escura onde se encontrava e ergueu o tronco. À medida que os sentidos tornavam, sentiu uma onda de dor incrível na sua zona genital. "Não, não pode ser...". À luz longínqua da iluminação da cidade, tentou ver o estado em que estava, mas as lagrimas que já corriam toldaram-lhe a vista. Com a mão, tacteou então o seu corpo por debaixo da saia que trazia vestida, agora rasgada. A horrenda conclusão, ou confirmação do que suspeitava, chegou à velocidade da luz. As lagrimas agora não escorriam, jorravam dos seus olhos em catadupa. Mergulhada num pranto silencioso que se prolongou por longos minutos, ali ficou sentada. Ao fim de longo tempo levantou-se, com muito esforço, e arrastou-se até casa. Pelo caminho encontrou a sua mala e, na medida do possível, procurou o que restava do conteúdo da mesma - só lhe levara o telemóvel e o dinheiro.

"Levou-me muito mais do que isso, nessa noite. O telemóvel e o dinheiro não são nada, comparado com o que ele me levou." As memórias que lhe sobrevinham à cabeça, já não eram tão frequentes como na primeira semana. Mesmo assim, cada vez que relaxava ou fechava os olhos, a mesma imagem do violador, a face mal iluminada, aquele hálito putrido, o acordar depois da violação, tudo lhe vinha à cabeça numa imagem única, potenciada pelo maior desgosto, indignação, ódio que jamais havia sentido. No decurso das semanas subsequentes fechara-se em casa, tornou-se amarga e intratável, intocável, ao ponto do namorado se ter afastado, e estava à beira de perder a sua posição na empresa após inúmeros pedidos de adiamento de regresso ao trabalho, dos quais a administração já se estava a cansar.
Voltou a olhar para o livro e tentou concentrar-se. Tinha escolhido um bom livro e isso ajudava-a a distrair-se. Eis quando não, reparou num homem, encostado a um banco que fumava. Não tinha mau aspecto mas o seu olhar transparecia atracção física, desejo carnal, misturado com um horrivel ar confiante de "engatatão das sete dúzias".
"Não olhes assim para mim... por favor, pára de olhar assim para mim... Outra vez não, não, NÃO!!!!". Levantou-se apressadamente, arrastando o saco e tentando arrumar o livro no saco... enquanto fugia, uma nausea percorreu o seu corpo e sentiu-se à beira do vómito. Chegada a casa, trancou a porta a sete chaves e escondeu-se na divisão mais afastada, sentando-se num canto, em posição fetal...
- Meu Deus, até quando?... Quando é que isto vai parar??... Que foi que eu fiz para merecer isto?... Que Vida é a minha?... - disse entre soluços de um choro desvanecente... - Como é que eu posso esquecer isto, como é que eu posso viver com isto?... - lembrando-se de uma linha final de uma música que conhecia: "The truth is the truth: all you can do is live with it..."

16 de julho de 2009


We play the hands of cards life gives us. And the worst hands can make us the best players.
Doc Searls, Doc Searls Weblog, 12-02-06

Nem de propósito! Nos ultimos tempos tenho pensado muito nesta causalidade da vida. Os factos extríncecos ao que somos, as coisas que nos acontecem e que parecem caídas do nada e, acima de tudo, as coisas que parece que não conseguimos controlar. E são tantas!! Nos ultimos tempos, parece que a frequência com que me acontecem tem aumentado significativamente, ou então sou eu que estou a ficar saturado destes acontecimentos imprevistos. Na nossa visão linear, tudo isto nos soa imprevisto, é claro, mas as coisas não se passam de um modo linear. Mas isto já são as minhas crenças a vir ao de cima...

O Forrest já tinha dito que a vida é uma caixa de bombons. É uma analogia tão boa como a do jogo de cartas! Aliás, a do jogo de cartas já tinha sido utilizada para outras "áreas" da vida, pelo que um jogo de cartas até deve ser um desporto mais completo do que o que eu penso. Outra analogia que pode ser utilizada é a analogia do crivo mas eu tento evitar essa porque recuso a ideia da vida ser "um vale de lágrimas e de espinhos". Há momentos na vida que nos fazem ter toda a vontade de desistir, há momentos na vida que nos fazem recuar, ter vergonha, virar a cara, refugiarmo-nos na sombra... são momentos menos luminosos da Vida, são os momentos em que estamos a ser testados, são os momentos em que temos de trabalhar no duro para que a lição seja aprendida, assimilada e saiamos com mais experiência de Vida, mais sabedoria. É aqui que a analogia do crivo falha, porque o crivo deixa cair coisas, é acto físico, não é um acto da mais pura alquimia em que ocorre a transmutação de 'chumbo' em 'ouro', que é o que acontece perante a adversidade que sobre nós se abate. É um mecanismo interessante, mas que me deixa algo triste: melhorarmos quase somente na adversidade, quando sofremos. Quase que me faz lembrar outra frase (já não me recordo de quem) em que se dizia "You should always live as if you has a terminal desease: that way, you'll live Life as if it was your last day.". Não é preciso passar por essas situações! Basta ter em mente que podemos e devemos ser melhores todos os dias; qdo formos a ver, já essa atitude se tornou parte de nós e fazêmo-lo inconscientemente. E, nessa altura, até as piores "mãos" nos vão parecer jogos de campeão... à boss! ;)

15 de julho de 2009


Make it a rule of life never to regret and never to look back. Regret is an appalling waste of energy; you can't build on it; it's only for wallowing in.
Katherine Mansfield (1888 - 1923)

"Devia ser proibido levantar-se a esta hora...". Ele era a imagem do sono, sem tirar nem pôr. Na fila em que esperava, outros também tiritavam de frio, exibiam olheiras, chegavam mesmo a dormitar de pé. Puxou a gola para cima e abraçou-se com mais força, aconchegando-se à parede. O vento frio que se fazia sentir era frio demais, mesmo para aquela altura do ano. Era um frio glacial, um frio que perpassava todas as camadas de roupa que se vestissem e que gelava cada centímetro de pele. Mas iria valer a pena, com o dinheiro extra que iria ganhar, poderia comprar a prenda que o filho tanto queria há meses. Só de imaginar o brilho nos olhos com que ficaria, valia a pena todo o esforço.
- Próximo!!
Avançou mais um lugar. Mais uns minutos e seria a sua vez de se registar. O lugar não era, de todo, dos mais atractivos: implicava trabalhar 6 horas antes do seu trabalho normal, ao ar livre, em condições sem grande segurança, com pessoas de carácter duvidoso. No entanto, seria bem remunerado e não seria por muito tempo, apenas um trimestre. "Há-de passar rápido, de certeza...". Pela sua mente passaram imagens do passado, de outros Invernos passados ao frio das madrugadas, de manhãs chuvosas, de nevões súbitos, de caixotes por si carregados quando as suas mãos deveriam ter sustido somente o peso dos lápis, ou de um livro, ou, nos intervalos, de uma mão cheia de berlindes. "Ahh, triste vida aquela...", pensou para com os seus botões. Que diferença para os tempos de agora! Na altura, uma pessoa se quisesse estudar habilitava-se a apanhar uma carga de pancada só por levantar a hipótese; agora, os miúdos fazem tudo para sair da escola. "Que será que aquilo tem de tão mau para eles quererem sair de lá?". Apesar de tudo, os poucos anos que frequentou os bancos da escola, tinham sido anos risonhos, com uma ou outra reguada pelo meio, mas, no geral, anos felizes. Sabia que o seu miúdo também gostava de lá andar, o que contribuía ainda mais para a sua confusão sobre o assunto. "Se ele continua assim, um dia há-de ser doutor.". Quem não o quereria ser?...
- Próximo!!

...

Semanas mais tarde, enquanto caminhava pelo cais, dirigiu-se ao contramestre. A chuva caía a pique, mal se viam as gruas do cais, o chão, gorduroso do gasóleo derramado das mangueiras que abasteciam os barcos, era uma pista de patinagem à espera de acontecer.
- Mestre, posso entrar?
- Força! Diz lá...
- É que... os rapazes estão a dizer que isto não são condições para se trabalhar. Não têm luvas, o fato-oleado não os protege da chuva, estão encharcados até aos ossos e das botas nem se fala. Mas pior do que isso, é que mal se consegue ver o chão... Chefe, aquilo é um perigo, sabe Deus a desgraça que pode acontecer...
- Mas tu agora já és delegado sindical para vires reinvindicar? Quem é que te nomeou representante? Ainda por cima um "tapa-buracos"! A tua sorte foi o Chico ter ido para a Suiça trabalhar, ouviste?? E ainda vens aqui reclamar "das condições de trabalho"... - escarneceu, num esgar de gozo - Já trabalho aqui há 45 anos, mais dos que os que tens de vida de certeza rapazinho, e nunca vi acontecer aqui acidente nenhum por causa do raio do gasóleo ou da chuva. Sabes o que mata as pessoas? Irem às putas até às tantas e depois vêm para aqui armados em carapaus de corrida com a mania que têm 20 anos e que ainda aguentam a noitada e depois andam a dormir em pé, ou com um "cabaz" tão grande nos cornos que mal se aguentam! Vai-lhes dizer isto e leva este recado também: eu que veja alguma daquelas caixas por descarregar daqui por uma hora, que garanto que vão haver acidentes!!
- Com licença, mestre... - retirou-se apertando o oleado e colocando o chapéu impermeável. "Grande bandalho...".

Pensou como iria dizer isto aos colegas. "Só tenho que lhes dizer o que ele me disse e acabou!". Não seria fácil, ele tinha sido escolhido pois era ele quem menos despertava, normalmente, a "lendária" ira do contramestre. Podia ser que o ouvisse... Mas não, a resposta tinha sido o que se viu e, ao transmiti-la aos companheiros, o que se via espelhado na cara de todos era um misto de revolta, ressentimento mas também de inevitabilidade das circunstâncias.
- Ó pessoal, 'bora lá, pá! - gritou um deles - Quanto mais cedo começarmos isto, mais cedo acabamos!
Uma pequena massa humana avançou, resignada, em direcção ao cais ao qual estava o barco à espera de ser descarregado. Havia cordame, mangueiras, algumas caixas próximas espalhadas perto da borda. A carga era pequena, proporcional à embarcação que a trazia, pelo que tinha que ser descarregada à mão, sem auxílio de grua. Ficaria muito caro para a carga que era, disseram-lhes, além disso, só tinham um operador de grua disponível - o outro estava de baixa.
Enquanto andavam no costumeiro vaivém, a chuva intensificou-se. Aceleraram, pois, as manobras de descarga e, sabendo que a traineira tinha de partir rapidamente, decidiram também começar o reabastecimento de combustível. A mangueira, quase tão velha como o cais, não apresentava as mínimas condições de segurança para aquele tipo de operação mas era o que havia. "Isto está quase feito...", pensou ele enquanto pegava em mais um caixote.
- Ó Jorge, daqui a bocado mais vale a pena descarregar à mão! Já viste esta chuva? Mais um bocado e o barco fica a navegar por cima do cais! É só deixar cair as caixas p'ra fora de borda!
- É pá, eu só quero é sair daqui o mais rápido possivel. Esta ondulação não ajuda nada a descarregar... o barco está farto de bater contra o cais!
De facto, o esforço de equilíbrio com a carga no convés era quase uma obra de malabarismo. Ele afastou-se de Jorge, tentando ver por onde ia, na maioria dos casos, adivinhando mais por onde caminhava. Ao passar no estrado que servia de travessia entre o convés e o cais, uma ondulação mais brusca afastou a embarcação do convés, arrastando o estrado para o espaço que se abriu. Ao cair, bateu com a cabeça na borda do convés, deixando-o inconsciente...

...

Tal como tinha adivinhado, o brilho nos olhos do filho era maravilhoso, mas estava muito para além do que ele imaginava. A alegria da criança nesse Natal era contagiante, convidando toda a gente a brincar com ele e o seu brinquedo novo. Niguém conseguia resistir. No entanto, havia no ar um misto de alegria e de tristeza: consequência do desastre, ele tinha ficado paraplégico, uma condição que os médicos tinham dito como sendo "muito difícil de reverter: a andar, se isso acontecesse, só com o auxílio de uma bengala ou uma canadiana". Depois de uma semana em coma, esperara-se o pior, mas ao abrir os olhos, a esperança de toda a família e amigos renovou-se, uma renovação de curta duração perante o prognóstico dos medicos.
"Que raios, porque é que têm que olhar assim para mim? Olhem para o miúdo! Não é muito melhor? E assim todos sorriem! Não é preciso estar num dia de festa com um ar miserável... até parece que morreu alguém, ou sei lá o quê!...". E que viria a seguir? O dinheiro que tinha recebido do seguro era uma pequena ajuda mas não compensava, a médio prazo, a ausência do seu principal trabalho. Era certo que se mostraram solidários, que "tudo vai ficar bem, vais-te pôr a andar em três tempos", que não se preocupasse, mas de que lhes serviria um homem sem pernas?... e sempre aquela expressão nos rostos assim que desviava o olhar... "Sorrisos, mesmo sorrisos de crianças," - pensou - "não trazem o pão para casa, nem devolvem o caminhar a um homem."

14 de julho de 2009

But all who are not lunatics are agreed about certain things: That it is better to be alive than dead, better to be adequately fed than starved, better to be free than to be a slave. Many people desire these things only for themselves and their friends; they are quite content that their enemies should suffer. These people can be refuted by science: Mankind has become so much one family that we cannot insure our own prosperity except by insuring that of everyone else. If you wish to be happy yourself, you must resign yourself to seeing others also happy.
Bertrand Russell (1872 - 1970), from the essay "The Science to Save Us From Science"

Qual é o preço de um sorriso? Quanto custa vermos outra pessoa feliz? Eu digo-vos qual é o preço: é mudarmo-nos de tal forma que mal nos reconhecemos. É conseguirmos resgatar de dentro de nós a nossa Luz mais preciosa e divina, salvá-la de dentro da Escuridão interna, resgatar a nossa Essência e deixá-la transparecer aos outros; é engolir o orgulho e as palavras ditas sob compromisso de honra, esquecer o que se prometeu, jurou, e recomeçar de novo como se nada tivesse acontecido; é pedir desculpa tantas e tantas vezes, ainda que tenhamos a certeza quase absoluta que a razão é nossa; é acreditar em algo, mesmo que toda a gente nos diga que tal coisa, tal acontecimento, é impossível, acreditar tanto que, com paciência, acaba por acontecer, só para vermos outrém feliz; é querer o maior bem de outrém, mesmo que ajamos de maneira contrária ao que desejaríamos; ao fim e ao cabo, é transcendermo-nos em algo que nunca julgámos ser antes mas que sempre fomos, debaixo desta capa de carne: Anjos...

There is only one corner of the universe you can be certain of improving, and that is your own self. So you have to begin there, not outside, not on other people. That comes afterwards, when you have worked on your own corner.
Aldous Huxley (1894 - 1963)

13 de julho de 2009



All things must change to something new, to something strange.
Henry Wadsworth Longfellow (1807 - 1882)


- Então... até sempre!...
"Até sempre...", pensou ele, enquanto o transporte a afastava de si. "O que é que isso quererá dizer?".
Não se pode dizer que tenha tido prazer naquela despedida, algo de resídual dela ainda permanecia em si e, sabia-o, iria ecoar dentro dele durante algum tempo. Quanto, é que não sabia...
No meio de outras coisas que o iam incomodando, uma palavra persistia latejando. "Sempre é uma palavra grande." Demasiado grande. É daquelas aberrações que continuamente nos vêm à garganta e continuamos a expelir sem apelo nem agravo, uma enormidade como aquelas que não temos a mínima noção, nem nos nossos sonhos mais ousados. A perenidade inerente é absolutamente estrondosa, rebenta-nos com o juízo, está para além da nossa própria natureza, da nossa essência. "Estou a precisar de um cigarro...".
Entrou no carro e contemplou o seu olhar ao espelho. "Miséria...". Puxou do maço de tabaco meio amarfanhado e sacou de um cigarro, acendendo-o imediatamente. Não lhe apetecia ir logo para casa, deixou-se ficar pelo parque de estacionamento naquele final de manhã, ouvindo um pouco de musica.

Os últimos dias tinham sido terríveis: dividido entre uma vontade enorme de dizer que sim a alguém que sabia muito especial e continuar numa vida que, apesar de banal, era a sua e lhe sabia bem, era confortavel. O fantasma da decisão pendente perseguiu-o a cada instante que passou com ela, tanto que não pregou olho durante a noite. Tinha ficado a olhar para ela e, cada segundo que olhava, mais preso nela ficava. Mais preso na sua dúvida ficava. "Isto é injusto! Homem nenhum devia ter de escolher isto...". Ela tinha-o olhado nos olhos pouco tempo antes e esta decisão era tema recorrente de silêncios incómodos. Ele tinha de decidir, sabia-o. Ao jantar, os olhos de ambos voltaram a encontrar-se e ambos reconheciam a angústia que lhes bailava na alma.
- Mas tens medo de quê?
- Sei lá!... Podias passar-me a travessa, p.f.?
- É mentira e tu sabe-lo perfeitamente bem! Tudo funcionou até agora, porque motivo não haverá de funcionar quando estivermos a viver juntos?
- Porque motivo haverá de funcionar? Sabes bem como este mundo anda, ou é: pessoal que se encanta um com o outro, é tudo beijinhos e mar de rosas e passado uns anos já não aguentam ver a tromba um do outro de manhã e só pensam em meter-se na cama com o/a proximo/a que lhes aparecer à frente... O Amor não dura para sempre.
Em silencio ficou a reflectir nas últimas palavras dele, os olhos quase a rebentar de lágrimas. "Não, não pode ser assim. A Vida não pode ser assim. Ele não pode ser assim, tão pessimista em relação à vida, ao Amor. Onde é que eu falhei? Que foi que eu fiz?"
- Quero uma resposta amanhã. Antes de partir.
Ele não respondeu. Após o jantar, tomaram café, falaram de filmes que estavam a pensar ir ver, discutiram actores e interpretações de clássicos e voltaram para casa. Deitaram-se, amaram-se e, rapidamente, o silêncio sobreveio. Para ele a noite tornou-se quase infinda, os segundos que batiam no relógio que herdara da avó eram como apelos à decisão: sim... não... sim... não... sim... não... Remexeu-se e ela agitou-se ligeiramente. Levantou-se mais tarde para ir fumar um cigarro para a varanda. Desejou que as dúvidas tivessem ficado na cama e que, por uns instantes, ao menos enquanto fumava o cigarro, elas não o atormentassem.

Voltou para casa e, ao tirar o casaco coçado do carro, reparou que ela tinha deixado a banda elástica do cabelo no banco de trás. Segurou-a por uns segundos na mão, olhando-a. Que lhe era aquilo agora? Que lhe lembrava aquilo? Que Vida era aquilo? Um eco de um passado que acabara de acontecer, agora memória de risos, perfumes e beijos trocados num presente intemporal, num 'agora' eterno. O que o mais o atormentava, apesar de tudo, era a mutabilidade presente. Na dura batalha interna que travara, ignorara um facto importante: decidisse o que decidisse, a sua vida não seria mais a mesma. Para ele, tinha sido uma luta entre a preservação da sua vida do dia-a-dia e a revolução completa. Não havia cinzentos no meio, tinha sido assim que ele concebera tudo. "Ao menos se tivesse tido mais tempo...". Mas sabia que não era o tempo que estava em questão. Sentou-se no sofá e olhou o velho relógio, esperando que soasse a hora. "Sempre...".

11 de julho de 2009

Weekend Tip

"If you can attain repose and calm, believe that you have seized happiness."
Julie-Jeanne-Eleonore de Lespinasse

Aos fins-de semana as Dicas são minhas! hehehehe

10 de julho de 2009

"The trick is not how much pain you feel - but how much joy you feel. Any idiot can feel pain. Life is full of excuses to feel pain, excuses not to live, excuses, excuses, excuses."
Erica Jong

Há uns tempos já bons, vi num programa sobre Ciência a forma como o cérebro evoluiu. Desde os primeiros gânglios neurais, passando pelo cérebro dos repteis (do qual o nosso equivalente é o tronco cerebral) de características agressivas, seguindo para o cérebro dos pequenos mamíferos, que apresentam uma zona extra, responsável pela sensação de medo, de perigo e, finalmente, eis que os primatas chegam apresentando uma nova zona no cérebro: o neo-cortex, responsável pela maioria do raciocínio lógico, que, de alguma forma, acaba por controlar os outros dois 'cortex' mais "primitivos". Ou acabaria, se não nos deixássemos levar pelo medo. De facto, é tão fácil deixar que o cortex do meio controle todo o nosso cérebro. E é, de facto, um controlo porque quantas vezes não arranjamos argumentos lógicos que servem ao propósito de ficar encolhidos num canto, deixando a Vida, que deveríamos beber em tragos de gigante, passar ao largo como a formiga que não deixa marca por onde passa. O medo é uma reacção biológica útil, sem dúvida, mas somente em determinadas situações e de uma forma moderadamente controlada. A partir do momento em que a Razão é metida ao barulho, deveríamos ser capazes de travar a reacção, roubar as rédeas do controlo racional ao Medo e, assim, limitar o medo ao que é: uma emoção. Isto tudo para dar apenas uma justificação biológica a todo o processo que tantas vezes nos deixa paralizados, não em situações de "fight or flight" mas em oportunidades únicas que teríamos feito tão bem em agarrar. Contra mim, mais uma vez, falo. Mas tento aprender...

"Under all speech that is good for anything there lies a silence that is better. Silence is deep as Eternity; speech is shallow as Time."
Thomas Carlyle - Scottish author, essayist, & historian (1795 - 1881)

9 de julho de 2009

"I have come to believe that the whole world is an enigma, a harmless enigma that is made terrible by our own mad attempt to interpret it as though it had an underlying truth."
Umberto Eco


Uma das primeiras lições que eu aprendi em Filosofia (longe vão esses tempos do 10º ano) é que o nosso ponto de vista é miope. Não me lembro se já o aqui tinha dito mas creio ser uma das maiores verdades que algumas vez me foram ditas. Nós não conseguimos acompanhar tudo o que nos rodeia, a nossa biologia não o permite, é natural... Frustrante mas natural. Imaginem o que era se conseguíssemos ver num espectro mais alargado de frequências electromagnéticas - não indo mais longe, alargando ao ultra-violeta e ao infra-vermelho: em dias de maior calor e intensidade luminosa, ficariamos praticamente cegos com a radiação UV que nos impediria de ver as restantes cores; de noite não conseguiriamos dormir pq não haveria grande escuridão. Mas também, certamente, que os nossos ritmos seriam outros...
Extrapole-se agora para outro nível. Quantas vezes tentamos perceber o que se passa à nossa volta, as reacções das pessoas, como se tentassemos ver coisas que estão noutra "frequência" ou noutro "canal" que, sem a aparelhagem necessária, nunca conseguiremos ver?... Era bom, não era? Mas essa necessidade premente, no que toca à compreensão (e que tem alguns mecanismos biológicos rudimentares), à empatia, à sintonia com outras pessoas é essencialmente substituida pela nossa mente. E aqui está a grande fonte de erro. A partir do momento em que utilizamos a nossa mente como ferramenta aproximada de empatia humana estamos a julgar as acções, a prever comportamentos, a definir emoções de acordo com a nossa experiência, ponto de vista, racionalidade e maneira de ser - em suma, de acordo com o que nós próprios somos. A lógica é simples - eu sou um Ser Humano, a outra pessoa também é, logo, a nossa maneira de ser é semelhante. Parece limpo, certo? Errado. Há uma falha gravíssima: todos nós somos diferentes. E sabêmo-lo, daí que, por vezes, tenhamos tanto medo daquilo que outras pessoas (que assumimos como diferentes de nós) pensam. Outras vezes temos medo precisamente porque sabemos o que somos e julgamos os outros capazes de fazer o que faríamos, mas isso está na outra ponta do espectro.

Do Ser Humano - que é parte integrante da Vida - extrapolamos para o resto da Vida. Arranjamos as mais diversas vertentes da Ciência para entendermos o que nos rodeia, para responder às míticas, clássicas, sempre-eternas questões de "Quem sou eu?" ou "De onde vim?", tudo com base na nossa Razão, e, consequentemente, no nosso ponto de vista miope. Tudo o que daí deduzimos sobre o funcionamento da Vida - esse grande Enigma - é, também, miope, aproximado apenas numa escala larga. Queremos descobrir o princípio subjacente da Vida, o porquê da Vida, assumindo que a Vida tem de ter uma Razão (eu também acredito nisso!); mas, quem disse que a Vida tem uma Razão de Ser? Já perguntaram a Deus (quem n'Ele acredita) porque é que Ele "É"? Ele, simplesmente, É. E nesta frase está tudo incluído: essência, justificação, princípio, meio, fim, tudo! Qualquer dedução lógica que encontremos, com base em qualquer prova que consideremos encontrar, será sempre subjectiva, afastada da Verdade. E, no fim, de que nos serviria saber tudo isso? As coisas seriam diferentes? Deus seria diferente, agiria de maneira diferente? A Vida correria de maneira diferente? Só nos aconteceriam coisas boas? Morreríamos primeiro, "enjoveneceríamos" e deixaríamos de existir com um orgasmo?... creio que sabemos a resposta a isso...

...Por isso, porque não, somente, "sermos"?...