23 de outubro de 2009


I must not fear. Fear is the mind-killer.
Fear is the little-death that brings total obliteration.
I will face my fear. I will permit it to pass over me and through me.
And when it has gone past I will turn the inner eye to see its path.
Where the fear has gone there will be nothing.
Only I will remain.


Frank Herbert (1920 - 1986),
Bene Gesserit Litany against Fear, from "Dune"



   Ele chega, sorrateiramente, aproximando-se sem fazer barulho, por entre as luzes do dia a dia, sem lhes tocar, observando-nos, aprendendo atentamente todos os nossos segredos, todas as nossas falhas, todos os nossos podres, todas as pequenas cordinhas que nos fazem saltar a tampa. Ele quase que é todas essas coisas personificadas num pequeno demónio que nos atenta sempre que menos esperamos, ou quando mais esperamos. Mas o pior é, sem dúvida, quando ele se aproveita das coisas que nos enchem o coração, mimetiza o que sabe nos fazer feliz, e ataca violentamente, sem dó, nem piedade.
   Não o temo. Não sou aquilo que ele é. Sei que muitas vezes, vezes a mais, me deixo levar pela sua essência, vou na sua cantiga, e me torno outra pessoa, me torno aquilo que não creio ser realmente. Possuiu-me. Usou-me e descartou-me. Fez o seu propósito, para além de toda a animalidade latente, para além de todo o instinto que desperta, para além de qualquer recompensa negativa que lá saberá ter. Não sou ele. Ele transforma, ele muda o consciente em inconsciente, em reflexos selvagens e faces distorcidas, e, quantas vezes, em lágrimas. Vem sempre acompanhado e, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre por mostrar com quem é que vem.
   É, apesar de não o temer, um adversário a não desprezar. E é mesmo um adversário. É uma guerra que se trava constantemente, em que o opositor se adapta em contínuo e em tempo real, a todas as estratégias, informações, técnicas, características que possamos ter ou vir a adquirir. É uma luta, primeiro, em reconhecê-lo, segundo, em poder deitá-lo abaixo. A primeira exige esperteza, a segunda exige ainda mais esperteza e mais engenho até. Ter em conta que é um adversário imutável é cometer a maior das asneiras. Assumir que desapareceu de vez, é a nossa derrota mais copiosa e profunda. No jogo de espelhos com que ele nos brinda, perder o juízo entre distinguir se é ele ou se é, de facto, a realidade, perdendo-nos a nós pelo caminho, é um risco sempre real e quase certo até.
   Há, no entanto, algo do qual ele não pode, nunca poderá imitar: o Bem, a Luz e o Amor Universal, o Amor de Deus. Isso é tudo aquilo que ele não é, nunca foi, nem nunca será. E, no entanto, acaba por ser uma sua ferramenta. Voz populi, vox dei, já diziam os antigos e com isto a sabedoria popular adquiriu uma aura de infalibilidade que nem o Papa, com os seus dogmas, conseguiu ter. O Tempo veio a cobri-la de razão e, neste âmbito, recorro agora a um dito popular de realismo quase ubíquo: "O que não mata, engorda", e na mais profunda tradição popular de dizer as coisas por meias palavras, também esta apresenta um significado diferente do que aparenta - de facto, não me estou a ver tomar cianeto para ganhar mais uns quilos. Assim, depois de ultrapassada, inequivocamente, a primeira etapa - o reconhecimento - do desfecho da segunda só se pode obter um destes dois resultados: ou a nossa queda, ou um triunfo terminal. De qualquer das formas, associado a este combate, está sempre, quer na vitória quer na derrota, uma lição. De substância, conteúdo e magnitude diametralmente opostos, claro está, mas sempre uma lição. Mais, é uma oportunidade única.
   Como eu tinha dito, não o temo. Antes, quero reconhecê-lo cada vez mais e melhor, que é como quem diz, mais rápido e sem dúvidas. Só assim poderei aprender mais rapidamente. Só assim poderei ser (mais, e mais vezes) feliz (mais) rapidamente. E, bonus, tornar os outros à minha volta ainda mais felizes. Porque é que isso é tão importante para mim? Uma pergunta destas só merece uma resposta de criança: porque sim. Há coisas que nascem connosco e que têm que ser demonstradas, têm que brilhar. E quando isso acontece, essas coisas começam a gritar dentro de nós, pedindo para sair por aí, correndo e anunciando aos 7 ventos o que tem de ser anunciado, a fazer o que tem de ser feito. Suprimir não é uma opção. Há coisas contra as quais é inútil lutar. E assim que se lhes dá uma pontinha de corda, elas ganham balanço, ganham vida e tudo começa a fazer sentido, tudo se conjuga para que aconteçam. E é nas alturas em que os próximos passos - pequenos ou grandes - têm de ser dados que ele aparece. Ameaçador, terminal, terrível, redutor. O som é terrível mas a pergunta é clara: tens a certeza que queres fazer isso? tens a certeza que é esse o caminho correcto?. Porque é este peso da sua ilusória irreversibilidade que nos pesa no coração, na consciência. Daí o som terrível. O peso da consequência. O peso da responsabilidade. O peso de escolher e de não vermos volta a dar assim que decidirmos. Porque o Tempo passa, não é? Sim, nos relógios, nas nossas células, nos nosso gestos, na finitude irritante e peganhenta de tudo o que acontece. E uma coisa tão irritante tinha de ter um nome: Tempo. Tem - po. Tem - po. Tem - po. Início e fim. Início e fim. E no meio, não haverá nada? Claro que sim! Existe aquilo que conta e que se encadeia, quase imperceptivelmente com aquilo que o precedeu e que o precederá. Haverá precedente e procedente? Na nossa mente, a criadora e dedutora, há. Na realidade, duvido. Se a Matemática, rosto divino, criou a noção de infinitesimal, ponto único, contínuo infinitesimalmente com o Antes e Depois num espaço Complexo, porque não se haverá de chamar a esse ponto, Agora? É uma realidade. O ponto antes e depois são dedutíveis logicamente mas existirão? Eu só conheço e existo neste ponto em que estou, neste Agora. E ele (já se tinham esquecido d'ele?) é fruto da lógica. Ele é tão fino e ilusório, antes, a importância d'ele é tão fina e ilusória quanto a lógica que o criou é válida e objectiva. Daí que ele a consome. Ele existe. Mas não sou eu. É uma prova por vezes, é uma lição, noutras e quase sempre. De qualquer forma, é uma oportunidade. É um ponto. Só existe naquele momento concreto e existirá noutros pontos quando ou enquanto julgarmos que existe, quando ou enquanto a lógica e, por vezes, a máquina-cérebro continuar a insistir que é contínuo, comum a vários pontos interligados entre si ou não. Comum, só a escolha que faço. Esta, consciente (o mais possível). Livre.

1 de outubro de 2009

As minhas desculpas pela desfocagem da foto,
mas na altura foi o melhor que consegui ver na escuridão (quase) total...


Há muito tempo que já não ponho aqui uma música e acho que está na altura. Esta tem andado na minha cabeça, apesar de não ser nova para mim. Ainda hoje, quando menos queria ter alguma coisa na cabeça, começou a tocar naquela 'jukebox interna' e bem alto. Vendo a letra e ouvindo a musica perceberão porquê...



(Anne Ponsarde + Jules Cezar Scalinger)
Friend of the Stars,
What does so unmistakably control your heart?
It's more than a name and it's not just a game…
What do you know?...
What do you see that we do not, Friend of the Stars?…

(Catherine de Medici)
Friend of the Stars,
What does so undeniably absorb your life?
You travel alone within a world of your own…
What do you know?...
What do you see that I do not?...
Oh, Friend of the Stars!...

(Nostradamus)
Friend of the Stars…
I'm gonna wear that name with pride and dignity!...
What lies ahead is often best left unsaid…
Though the future is known,
our destiny still lies in the hands of God…
(Nostradamus!)
I'm just a Friend of the Stars!...

(Nostradamus and choir)
I've learned there's more to life than simply meets the eye…
(Friend of the Stars! What's your goal,
what's your motivation?
)
That only few can tell the hidden truth from blatant lies…
(Tell us, why does your soul need an explanation?)
Knowledge has a price!!

… Or from a blessing in disguise…
Friend of the Stars (3x)

(Critic)
Friend of the Stars,
What does so irreversibly possess your mind?
You're demanding respect but selling fiction as fact…
What do you know?...
What do you see that we do not?
Nostradamus! (3x)

(Nostradamus and choir)
I've learned there's more to life than simply meets the eye…
(Friend of the Stars! What's your goal,
what's your motivation?
)
That only few can tell the hidden truth from blatant lies…
(Tell us, why does your soul need an explanation?)
Knowledge has a price!!

… Or from a blessing in disguise…
Friend of the Stars (6x)


(Monk)
Friend of the Stars,
I wouldn't be so self-assured if I were you…
All will be clear to those who are here...
The past may have flown but the future is known…
… just in case you forget…
Hmmmm… Dear friend of the stars…

28 de setembro de 2009


There is no greater importance in all the world like knowing (that) you are right and that the wave of the world is wrong... yet, the wave crashes upon you.

Norman Mailer (1923 - 2007)


I can remember the first time I had to go to sleep. Mom said, "Steven, time to go to sleep." I said, "But I don't know how." She said, "It's real easy. Just go down to the end of tired and hang a left." So I went down to the end of tired, and just out of curiosity I hung a right. My mother was there, and she said "I thought I told you to go to sleep."

Steven Wright (n. 1955)


I have found the paradox that if I love until it hurts,
then there is no hurt, but only more love.


Mother Teresa (1910 - 1997)


I can accept anthing, except what seems
to be the easiest for most people:
the half-way, the almost, the just-about, the in-between.


Ayn Rand (1905 - 1982)

   Sentou-se com a cabeça entre as mãos, no escuro. O sol projectava-se à sua frente num quadrado de luz proveniente do intenso feixe de luz que passava sobre a sua cabeça. Assim tivesse ele uma ideia brilhante, para poder sair da embrulhada em que se tinha metido. Em breve o Sol pôr-se-ia e o cubículo em que estava ficaria entregue à escuridão. Fechou os olhos à luz, pensativo. Tudo o que tinha pensado recorrer, falhara, sem remédio: os amigos, a família, a empresa. Ao saberem da confusão em que se metera, viraram-lhe as costas sem apelo nem agravo. "É bem feito, ninguém mandou falar em nome deles...", pensou. Agora tudo o que restava...


   Não, não, não!... não vou por aqui... Hoje não há conto. Comecei a escrever isto mas creio que a historia final seria semelhante ao que já escrevi de outras vezes. E para escrever o que já se escreveu, ou parecido, é a mesma coisa que um prato requentado: por muito que tenhamos gostado, não nos saberá da mesma forma que acabado de fazer. Por isso, não vai haver conto.
   Porque será que é preciso ter um sentido de missão, ter um objectivo na vida? É algo que sentimos como sendo tão necessário que não o tendo, sentimo-nos completamente perdidos. Mas qual é a verdadeira utilidade de um sentido de vida? Não será uma ilusão, um subterfúgio mental para nos deixar concentrados em algo?
   Confesso que há uns tempos que não senti qualquer objectivo na minha vida que não fosse a pura subsistência do meu ser terreno. Sim, levantava-me de manhã e pensava que tudo o que "tinha" que fazer era uma seca, que era despropositado, sem sentido, aborrecido, um custo. É certo que não andava nas melhores condições MAS seria isso uma consequência do problema ou a sua origem? Tenho pensado nisto e ainda não cheguei a nenhuma conclusão - um bocado como o dilema do ovo e da galinha. O que é uma verdadeira missão de vida, um verdadeiro propósito? Para mim, é algo que, terminado (ou terminada a vida) deixou ou deixará largo fruto para gerações vindouras. De preferência fruto positivo. Algo que para mim seja de longa duração, algo vitalício. Épico, quase. Com trabalhos quase tão grandes como os de Hércules, com inimigos e alguma resistência, e muita paciência também. Com sangue, suor e lágrimas que sintamos que valham a pena sangrar, suar e chorar. Isto, quanto a mim, é uma verdadeira missão. É preciso, por isso, criar condições para que essa 'missão' se cumpra, pequenas sub-missões paralelas do dia a dia, aparentemente sem importância, mas que ajudam (e são por vezes necessárias) a que a missão de vida progrida. Mas há um outro problema de natureza questionável: que fazer quando estas sub-missões se tornam absolutamente banais, ou quando se perde o sentido da missão, ou quando nunca se soube?
   Não sou psicólogo nem pretendo ser. Sei o que sinto e nada mais. Sei acima de tudo o quanto é difícil viver sem um objectivo claro, sobretudo depois de ter passado uma boa parte da vida a ter objectivos diários que, não cumpridos, podiam trazer largos amargos de boca. Estava demasiado em jogo na altura. Lembro-me de me sentir preso na rotina, no peso absurdo de rituais e obrigações que não me levavam a lado nenhum, mas apenas a um sentimento de problema evitado e de dever cumprido. Para algumas pessoas, sei que isto bastaria, mas não para mim, precisamente por me sentir incluído num ciclo fútil - uma sensação exactamente oposta à de sentido de missão. Não era a segurança de uma rotina de dia-a-dia que eu buscava, não eram os pequenos objectivos do dia-a-dia que me satisfaziam para, embalado nas marés do dia-a-dia, me sentir cumprido à hora de ir para a cama e fechar os olhos, sentindo-me grato pelo oxigénio que consumi. Sentia-me asfixiado. Mas, paradoxo irritante, quando deixei essa mesma rotina, essas 'obrigaçõezinhas', esse pequeno mundo socialificado, senti-me perdido. As pequenas obrigaçõezinhas entranharam-se em mim como nódoas na roupa, ou ácaros por entre as fibras e simbioticamente alteraram a minha percepção da vida. Ou então como uma droga, ficando viciado nelas, entrando em 'ressaca' quando deixei de as ter. Não é por isso que, no fundo, toda a gente arranja um emprego e não um trabalho? Tudo se resume a segurança a esforço mínimo: o dinheiro, a rotina 'sequinha', sem solavancos, sem muito... trabalho. O trabalho é complicado. Dá... trabalho, faz... suar, cansa. Temos que improvisar, temos que dar o melhor de nós, ter sempre me mente o objectivo maior. O emprego é mais... "sim, sim, um objectivo mas ainda está tão longe... se é que é visível...". Ou, "sim, eu sei que o objectivo é fazer com que a empresa tenha lucro, que tenha sucesso, essas coisas todas... mas isso é tão vago... Desde que eu faça o que tenho a fazer (estalido com a língua)... deixa-me cá estar no meu cantinho...". Coisas assim.
   Nada disto era para mim. E quem conhece a minha história (com 'H' - como eu -, ao contrário das outras que são escritas com um 'E') sabe que assim foi. E que quase voltou a ser assim. Mas o facto de não se ter um objectivo preciso a longo prazo também não abona muito em favor da paz de espírito. E não estou a falar só de emprego. É uma sensação quase angustiante a de acordar e ter a impressão que algo ficou por fazer, a de um trabalho inacabado. São 3,12 e consigo sentir perfeitamente esse sentimento a assomar-se em mim cada vez que me imagino a acordar de manhã. É quase uma acto reflexo. A vida de cada um é uma obra incompleta. É preciso ter essa consciência, ou antes, reconquistá-la. Quando somos crianças, o que é que fica completo? Tentem lá recordar-se... Pois, nada! Tudo é interrompido, tudo é alterado a casa segundo porque surge uma ideia melhor, mil vezes melhor, genial, brilhante, estonteante!! Ficava-se frustrado quando vinha um dos pais e dizia que estava na hora de ir embora mas sabíamos que outro dia vinha para acabá-lo. Isto se houvesse o dia a seguir, como raramente havia. Porque é que só para as coisas más é que há 'dias seguintes'?... Já sei: 'mas também há dias seguintes de coisas boas!'. Sim, há. Eu sei que há. Já os tive, em 'crescido' (isso de ser adulto é muito complicado, não quero!). E também sei o quanto é fácil ficar viciado neles. Quando no-los tiram, é terrível. As birras, em vez de durarem a viagem de carro até casa, duram dias, semanas, meses, anos...

Está a dar na tv um filme em que um gajo emborca um frasco de champô purificante chamado 'La Vie'. Creio que não foi por acaso. Uma pessoa sente falta da vida que tinha antigamente e tenta enfiar 'La Vie' de borco, de forma a sentir-se purificado e, logo a seguir, partir em busca do outro Mundo. É preciso ter cuidado com os excessos de coisas que se emborcam, e com os excessos...

   ... e quando vamos a ver já são tão insuportáveis que já fazemos birras às birras. É de estar farto. Entra-se em 'flatline' e a certa altura perde-se a noção do porquê de estarmos a embirrar com tudo. Embirra-se e pronto. Porque não sabemos fazer outra coisa. Il faut mettre un Stop!, un très gros Stop! en nos Vies pour qu'on sâche la vraie raison d'être devenus comme ça. Car on sait définitivement qu'on n'est pas comme ça, il y a toujours cette petite voix dans nos coeurs qui nous crie: Arrête! Tu n'es pas comme ça!! Mas como, se não sabemos onde estamos, se nos perdemos de nós mesmos? Ah, ça alors, est à toi de le savoir. On t'a déjà dit ce qu'il a changer. Le reste est a toi de le faire. Cherche! E dizem-me isso com um sorriso.

   Objectivos? Quem precisa de objectivos? O que uma pessoa precisa é de não se deixar levar nas correntes impetuosas do dia a dia, dos objectivos traçados por outros que nos arrastam para longe de nós. Não precisamos de ficar à deriva. Temos que nos afastar para as margens do rio, para a costa, parar de vez em quando. If you stop, you'll die! Sim, então que morra! Que morra essa pessoa que vocês querem que seja, sim vocês que criam essa corrente que querem que trague, que devore toda a gente que de lá se aproxime, no maior cúmulo de egoísmo alguma vez visto, para que não fiquem sozinhos! Nós temos que estar sozinhos, foi por isso que viemos a este mundo num só corpo, para que fosse fácil perceber onde estávamos a cada momento porque isso... isso, é o que conta. Se soubermos onde estamos, se tivermos essa certeza inabalável, sentindo-nos unos connosco (alguém sabe o que é isso? Então relembrem-me que eu já não sei o que isso é...) e com o ponto da Vida em que estamos, quaisquer objectivos que tenhamos serão claros. Ninguém saberá onde ir se não souber onde está. O objectivo final de todos é a Vida e essa, para onde quer que se vá, estará lá sempre. É a Viagem e o Destino.

Arre! Custou, mas foi!! (estalido de língua)

19 de setembro de 2009


Part of being sane, is being a little bit crazy.

Janet Long (n. 1944)

Men are born with two eyes, but only one tongue, in order that they should see twice as much as they say.

Charles Caleb Colton (1780 - 1832)

A man's silence is wonderful to listen to.

Thomas Hardy (1840 - 1928)

There can be no happiness if the things we believe in are different from the things we do.

Dame Freya Madeline Stark (1893 - 1993)


   O silêncio rodeava-o. Do alto daquela duna, nada e tudo era igual. A areia que se perdia de vista, a cor uniforme, o calor que queimava a pele desprotegida, a regularidade sem sentido das dunas que se levantavam sobre o que seria uma planicie alisada pelo vento. Seria verdade que as dunas eram os seres mais inconstantes e volumosos da terra? Ele olhou para os pés e percorreu com os olhos a crista da duna que lhe servia de promontório. Seria aquilo seguro? Isso agora não importava. Estava ali, tinha uma missão a cumprir, sem dúvida. Qualquer que fosse o pensamento que lhe atravessasse a mente nesse momento, seria mais terrível do que um grão daquela areia numa engrenagem qualquer. Tamanho era o poder da natureza.
   Nunca tinha sentido um calor assim. Nunca tinha sentido calor. O país de onde provinha localizava-se numa latitude bastante próxima dos polos, pelo que o calor máximo que tinha sentido na sua vida tinham sido uns ‘sufocantes’ 28 ºC. Riu-se ao lembrar-se disso e de como era ridículo esse calor comparado com o que sentia agora. Jurou a si próprio que nunca iria voltar a queixar-se do calor que sentiria na sua terra-natal. Tinha passado cerca de 3 horas depois do sol ter atingído o zénite mas o vento continuava a escaldar-lhe a pele, e a fustigar os olhos. Ajeitou melhor o turbante improvisado que tinha feito, observando os nativos nómadas daquele deserto caminhando sob um sol que não lhe era minimamente familiar, e recomeçou a caminhar. Só ele e o som da areia sob os seus pés. Ruído compassado, quase hipnótico. Sentia o calor a quebrar-lhe o raciocínio... mas raciocínio de quê? O que é que era suposto pensar? Naquele sítio, o que interessavam todas as coisas do seu dia a dia, da passagem indolente dos dias que são sempre a mesma coisa, que trazem sempre os mesmos problemas, do pensamento unívoco gerado pela passagem das mesmas vivências, do mesmo consciente colectivo da mesma sociedade, os mesmos valores de sobrevivência?... Ali, o deserto era Deus, tão grande como ele, tão directo e claro como ele. Deus estava naquele som seco dos pés na areia, regular, ritmado. Quando pausava, Deus estava no vento que ocasionalmente soprava por entre as dunas e a rara vegetação rasteira, no reflexo amarelo da luz do Sol na areia. Parecia-lhe um Deus inclemente e brutal.
   Por vezes, esquecera-se porque estava ali. Porque tinha escolhido ir para ali. Porque sentia que ali era o seu lugar. Tinha querido ir para longe de tudo, para longe do ruído que a sua vida diária lhe criava, para longe dos problemas, para longe da dor que sentia ao não poder ser ele próprio, longe dos muros que as outras pessoas levantavam. Ali, vivia rodeado da maior sinceridade, sem muros, sem dor na alma, sem problemas. Tinha trazido mantimentos suficientes para a travessia a pé de uma parte significativa do deserto, durante 2 semanas. Sabia racionar, as suas necessidades não era muito elevadas e o ocasional oásis que encontrava no caminho servia para restaurar as suas provisões de água; mais, sabia racionar a sua energia, parando e protegendo-se quando o calor se tornava demasiado insuportável, caminhando quando a temperatura se mostrava suportável, parando para descansar e dormir assim que anoitecia. Essa foi uma das coisas que aprendeu rapidamente: no deserto não havia candeeiros de rua e era impensável usar uma lanterna toda a noite. Dormia tranquilamente, melhor do que em anos, mesmo sabendo que o deserto continha perigos ocultos. Não sabia porquê, simplesmente deitava-se e dormia.
   O silêncio estava lá, de novo. Precisava de alguém. Precisava de estímulos, de vida inteligente, de uma boa conversa, de energia humana. Mas queria tudo isso sem as coisas estúpidas que vinham com isso, sem as quezílias, os mal-entendidos da linguagem, da net, das sms's, da frustração do dia a dia, dos egoísmos. Queria só o melhor do ser humano... mas seria isso possível? Aquele silêncio... era terrível... mas tinha de continuar a andar, a ouvir aquela secura ritmada, já sem sentido, à beira da loucura. Tinha lido uma vez que o deserto fazia homens e agora sentia na pele o que aquilo queria dizer: mais do que nunca, tinha de manter o juízo no lugar e assumir a decisão que tinha tomado, levá-la até ao fim.
   - Que lugar é este? - perguntou, habituando-se à escuridão.
   - Bir-Hakeim... - respondeu o aldeão.
   A sua travessia tinha chegado ao fim. Antecipara aquele momento das mais diversas maneiras enquanto mergulhara sem hesitação nas areias eternas do deserto. Pensara em mergulhar numa banheira de água, invadir um bordel, ficar horas a fio a falar com o primeiro ser humano que encontrasse. Nada disso. Ficara em silêncio, olhando nos olhos simples daquele velho, procurando-lhe algo sem saber.
   - Quer um copo de água, senhor?
   Assentiu com um gesto. O idoso proferiu umas palavras em árabe e, momentos depois, apareceu uma rapariga com um pequeno jarro com água. Simples, sem artifícios, com olhos de timidez mesclada da ferocidade do deserto. Nada. Bebeu a água, sorvendo-a em pequenos tragos tentando encontrar a sua essência e procurou mais uns minutos algo que não poderia explicar nos olhos do idoso.
   - Que aprendeu no deserto?
   Silêncio.

17 de setembro de 2009


In battling evil, excess is good; for he who is moderate
in announcing the truth is presenting half-truth.
He conceals the other half out of fear of the people's wrath.

Kahlil Gibran (1883 - 1931)

Never regret. If it's good, it's wonderful. If it's bad, it's experience.

Victoria Holt - pseudonym of Eleanor Hibbert – (1906 – 1993)

You better live your best, and act your best,
and think your best today,
for today is the sure preparation for tomorrow
and all the other tomorrows that follow.

Harriet Martineau (1802 - 1876)

When I do good, I feel good. When I do bad, I feel bad.
And that is my religion.

Abraham Lincoln (1809 – 1865)

You're never as good as everyone tells you when you win,
and you're never as bad as they say when you lose.

Lou Holtz - (n. 1937)

If you find serenity and happiness,
some people may be jealous. Be happy anyway.

Agnesë Gonxhe Bojaxhiu / Mother Theresa - (1910-1997)

   Em êxtase celebrou o sol. Esperava todo o ano por aqueles dias solarengos, quentes, em que a maresia lhe inundava o olfacto, e se permitia a longos banhos de mar, como o que acabar de tomar. Um ano inteiro de chuva era uma tortura, enfiada dentro de um escritório com um ar condiciado artificial, com pessoas a tossirem cheios de alergias e constipações pelas diferenças de temperatura, já para não falar do mau humor que tinha de aturar só porque se achavam no divino direito de ter que obrigar as outras pessoas a aturarem as suas birras e frustrações, e o chefe a gritar com eles e... ‘Basta!!’, pensou ela, ‘Aqui não é lugar para me lembrar destas coisas.’ Pegou no romance que estava a ler e abriu na página em que tinha deixado antes de ter ido ao banho. Antes de se concentrar na leitura, deixou-se levar pela sensação do sol a estalar na sua pele e do oceano que trouxe consigo: era optimo sentir a ligeirissima brisa a passar-lhe pela pele, a levar a humidade salgada para longe de si, a ser aquecida pelos raios de sol, numa alternância de calor e de frescura que a deixavam no céu. Se não era lá, era perto...

   Pôs-se a imaginar as gotinhas a evaporar, a largarem as mãos das outras gotinhas e a levantar voo, a serem levadas a outras paragens que ela, talvez, nunca chegaria a ver. Não fazia mal: iria viajar com elas em espírito. Recordou-se do pequeno poema que tinha havia muitos anos, na escola primária: ‘Uma gotinha caiu numa horta; outra caira num jardim e saciou uma rosa aí semeada; outra caiu numa piscina onde os meninos brincavam; outra, sozinha, caiu no mar, ficando triste, porque não poderia vir a fazer nenhum bem na companhia das suas irmãs...”. Riu-se com esta ideia. Tinham sido estas coisas que a tinham ajudado a manter a sanidade mental nos momentos mais complicados ao longo do ano. Também aí a praia tinha sido sua companheira fiel, mas sentia-se de mãos atadas por não poder gozá-la da maneira que queria: em comunhão perfeita de sentidos; na estação fria só podia ficar a passear pelo areal, observando o horizonte, o oceano e a praia. De certa forma estava distante do que realmente lhe dava prazer fazer. Uma vez, durante uma festa, perdera a cabeça, com os amigos e despiu-se completamente, indo mergulhar no mar durante longos minutos. Os colegas ficaram preocupados: era Inverno e o mar, revolto como estava, era muito perigoso. Mais para mais de noite. Quando ela chegou perto dos amigos, pouco restava da euforia inicial – ficaram a olhar para ela como se tivesse acabado de atropelar a mascote da escola. “És completamente louca...”, e voltaram a olhar para o jogo de cartas que tinham em mãos, sem dizerem mais. Ficara amargurada durante o resto da noite e sentara-se, em resposta, junto à beira da água, onde as ondas lamberam os seus pés, consolando-a. Não percebiam eles que o mar a chamara, que tinha que ir, simplesmente... ir. Era nestes momentos, sentindo-se incompreendida, que desejava viver na Grécia Antiga, para procurar por uma ordem de mulheres consagradas a Neptuno e dedicar a sua vida ao grande Mar. Tuda fazia sentido junto ao mar, tudo. Sempre que tinha problemas, vinha desabafar com ele; sempre que tinha alegrias, celebrava junto dele; sempre que queria mostrar alguma coisa especial, alguma pessoa, era ao mar que o fazia; sempre que estava enraivecida, descarregava no mar. Ele estava ali. Sempre estaria ali. Era o melhor ouvinte e o melhor conselheiro, nunca desapareceria, nunca a decepcionaria. Os seus ex-namorados chegavam a ter e a fazer cenas de ciúmes... E ela brilhava, Estrela do céu maior que vinha beijar o mar largo; eles só podiam ficar a assistir ao milagre que era o encontro daqueles dois, escrito no mesmo céu de onde tinha caído.

   Lembrando-se de tudo isto, agarrou num punhado de areia e deixou-a escorrer por entre o mindinho enrolado no punho, formando outro pequeno monte directamente por debaixo. Estava embalada pelas memórias e pela sensação da areia fina a escorrer pela mão, sensação única. Não era água, eram cristais minusculos e sempre que pensava nisso sentia-se maravilhada com o poder da Natureza, de como, sem máquinas, sem gastar nada, sem poluir nada, conseguiu criar uma areia tão perfeitamente fina. Mais uma vez o mar. Só a Água poderia ter sido a artífice de objecto tão maravilhoso e tão perfeito. Pegou noutro punhado e fez novamente a mesma coisa, e outra vez, e outra vez... Decidiu parar porque já uma vez assim adormecera e o mar apanhara-a, talvez chamado pelos seus sonhos movidos a água e sal...
   Pegou no livro e retomou a leitura. O sol aquecia-a e ela sentia-se envolta num imaterial cobertor de calor, quente na proporção certa: nem muito abafado, nem fresco demais. Novamente deu graças por ali estar e concentrou-se na leitura. Parava de vez em quando para olhar para o azul profundo daquelas águas que a rodeavam. A praia não era muito frequentada e o areal era extenso, muito claro pelo que a poluição visual de uma multidão espraiada com os seus chapéus de sol não a preocupava. Era ali o seu refúgio de verão, perto das cabanas de pescadores abandonadas, de eras há muito passadas, de lágrimas de esposas há muito derramadas... também ela era filha dessas mulheres e por isso, talvez, respeitava o poder assombroso do Oceano. Temia-o também, mas, acima de tudo, respeitava-o, sabia quando podia sentar-se ao pé dele, caminhar, falar e banhar-se nele. E amava-o, claro. “Quem quiser ficar comigo tem de perceber que antes dele próprio, antes de tudo e de todos, há o Mar!”, dizia frequentemente aos amigos. E os olhos brilhavam e toda gente sabia que ela estava a falar a sério e ninguém a contradizia. O tempo viria a confirmar o que ela dizia. Uma vez, numa relação e num tempo em que estava bastante apaixonada, o namorado de então tentou leva-la no Verão para a serra, para o campo. Durante a viagem, pediu para deixá-la na cidade mais próxima para assim poder apanhar o autocarro que estivesse a sair, para poder voltar para a beira do mar. Sentia-se sufocar se se afastasse muito dele. O namoro terminou no instante em que ela saiu do carro dele.
   Levantou os olhos novamente e poisou o livro. Ao longe, uma pequena traineira aproximava-se vinda da faina do dia, acompanhada pelo habitual bando de gaivotas oportunistas por um pedaço de peixe lançado fora ou algum lote mais desprotegido que pudessem larapiar. Era uma música quase mistica: o ritmos inconstantes das ondas do mar, o ruido baixo do motor da traineira e o canto das gaivotas, numa sinfonia tão dissonante como encantadora. Ela sorriu e, durante uns segundos, fechou os olhos deixando-se levar pela música ambiente. Depois levantou-se, alcançou a sua carteira e foi comprar sardinhas.

   Ao voltar, guardou o saco e sentou-se novamente. Ficou a olhar o horizonte, enrubescido. O Sol preparava-se para partir para paragens mais distantes, o ciclo iria ficar completo. Ao som das ondas, decidiu mergulhar naquelas cores, na sensação da areia, já fresca, nos pés, e da brisa mais forte que vinha do mar, carregada de maresia. Puxou do casaco que trouxera e pô-la pelas costas. Fechou os olhos e inspirou profundamente: queria mergulhar uma última vez naquela festa de sentidos, naquele instante único e guardá-lo dentro de si, simbolo máximo de uma felicidade extasiante, de uma eternidade contida num sopro de vento, no rebentar de uma onda, num raio de luz por entre a bruma do horizonte. Largou o sopro lentamente como quem larga a mão do amante, abriu os olhos e sorriu novamente. O sol estava prestes a mergulhar e ela a partir, com uma mochila cheia de memórias e sensações ao ombro. Afastou-se, lentamente, mas não sem antes se beijarem, ela e o  Mar, com os lábios azuis de ambos – ele, da sua cor, ela, do seu olhar -, num último movimento de dança sempre eterna...

16 de setembro de 2009


Nothing in the world is permanent,
and we're foolish when we ask anything to last,
but surely we're still more foolish
not to take delight in it while we have it.
If change is of the essence of existence
one would have thought it only sensible to make it
the premise of our philosophy.


W. Somerset Maugham (1874 - 1965)

One needs to be slow to form convictions, but once formed
they must be defended against the heaviest odds.


Mahatma Gandhi (1869 - 1948)

A mind, like a home, is furnished by its owner,
so if one's life is cold and bare he can blame none but himself.


Louis L'Amour (1908 - 1988)


Quis sentar-me. Ali, perfeitamente colocado, enquadrado com a situação que deveria ocorrer, nem antes nem depois. Perfeito. Desastroso. Um comboio vindo do Destino que caía sobre os ombros. Sentia-me um Atlas, com mil mundos a carregar sobre as costas, eternamente. Titânico. Mais um... Vi-te deslizar como bruma sobre lago, ténue, tangente, quase etérea, à medida que te afastavas, chegando perto. Quis tocar-te, mas a força que exercias sobre mim era tão subtil como um transatlantico a dobrar a barra. Tremenda. Outros dedos me lançaste, os das palavras, que tocam onde mais ninguém consegue tocar. Céu de mim. Lanço-te as mãos, reflectes, lanço-te ideias, desvias, lanço-te a vida, estacas. As luzes ligadas. É tudo mais que Dali. É sangue espesso, é vida que cai às mãos cheias, em vazio. Dois universos em desafio divino para um empate épico na ausência do meio de Bem.
A cada passo que davas, o meu mundo tremia. Muralhas de sensações, contrafortes de emoção, tudo ruía cada vez que um passo teu te aproximava de mim.

"Então?... Como vamos fazer?..."

Nada. O vazio do meu cérebro dizia que estava tudo tão bem que não valia a pena mudar. Para quê? Mudar o que não existe? Absurdo! Não há geração espontânea, toda a matéria provém de algo, logo, irá ficar tudo na mesma. Porque não há nada. Morreu. Desapareceu. Deixou de existir, foi absorvido para outra dimensão intangível como esse teu íntimo incompreensivelmente blindado a todo o sentimento. Falas em relação, mas que é isso de relação? Uma ligação entre duas pessoas? Todos nós estamos ligados, de uma maneira ou de outra. O sangue é o mesmo, a carne, o número de genes, de ossos, de músculos, de sentidos, de merda, de tudo. As caras são diferentes, e depois?! Os pensamentos são diferentes, e então?! É isso que te faz única, aceito... mas não é isso que te faz diferente de mim, que te faz melhor ou pior. Estás a ver o que me fazes? Tudo isto é ruído, é a queda de uma montanha antes alta, agora debaixo da terra. Há que aproveitar enquanto o vento sopra de feição.
Tentas aquele gesto que sabes desconcertante. É. Mas dentro da ilusão oca em que vivemos, o que há a desconcertar? Sei, foi aquilo que eu te dei um dia e que me devolveste sem eu saber, sem eu querer. Foi num passe de magia, sem tempo nem massa, nem gesto nem Amor, que tudo se decidiu. Num lançamento de dados oblíquo, o resultado saiu-me mal. Levei o copo à boca e quis tragar todo o mundo. Ninguém pode ver isto, ninguém comprou bilhete para assistir a esta tragédia em... quantos actos? Quantos gestos sanguíneos? Quantos gumes tens para mim?... Sabê-lo-ia. Com tempo, delicada e paulatinamente. Cirurgicamente, revelações vibraram entre as costelas, estilhaçando sonhos. Mas que sonhos? Nunca o foram, unicamente fantasmas. Como se gera um fantasma? Com a intangível esperança de nunca se largar o objecto desejado, sem perdão, clemência, apelo, desagrado. Continuas a tentar o velho truque mas este macaco esqueceu-se. São nadas que cantas como sereia para mim, tentando cativar-me rumo a cabos de tormentas mas, minha querida, as pontas do velho mundo ficaram para trás!... Esqueces-te sempre das luzes que ficaram pelo caminho, dos faróis seguidos e esquecidos, impensados, correndo sempre para apanhar uma Luz que te escapa continuamente mas que receias profundamente. Porque te afogas de contra-vontade? Há muito que o meu corpo descansa em paz à sombra das marés, naquele sítio onde os tubarões não se atrevem a ir com medo... foi lá que me foste visitar da última vez, lembras-te? Era um lugar sereno, imutável em tempo e forma, de maravilhas e encantos feito, com sombras dançando com luzes matizadas... como assim não te lembras? Era a tua casa! Vieste de lá! Ninguém esquece o lugar em que a terra o cuspiu para o sonho...
Sempre foi isso que me encantou, sabes?... O teu desprendimento real, a invulgaridade das coisas que apanhavas à beira-caminho, o como apenas poisavas o teu carácter sobre as coisas e a seguir levantavas voo para aquelas paragens que só nos mapas de Matusalém apareciam. Como vias as pessoas daí de cima? Só vias azul? O mar era extenso não é?... Espera, não vás já para lá, fica mais um bocado, bebe mais um copo que o dia é curto e a vida é longa demais para se viver à sombra do orgulho menor do nada interno. Compreendo... mas que digo, compreendo tanto como aquela barata que vai ali a passar. Se queres ir, vai. Tens a rota traçada, o rumo apontado e a vela enfunada para outros universos a observar, mas não muito, claro - ao mastigá-los, podes sentir qualquer coisa, e isso é coisa que não se deseja - sentimentos (valha-nos Deus nosso Senhor!). Benze-te e que Deus te guarde de tais maquinações e congeminações mundanas, saberes o que o coração do Homem guarda dentro dele... Também és Humana? Desculpa, há tanto tempo que durmo e sonho que passeio por paisagens de mito que me esqueci do que é isso. Dá-me tempo para pensar na tua última pergunta, as coisas às vezes não vêm imediatamente, não sou uma máquina de Turing como tu, com a resposta dada antes da pessoa saber sequer o que vai perguntar. Já lá estavas à espera na curva, sacana...
Limpas a arma do crime com a tua boca. Gostavas de te queimar, ou cortar, ou sufocar, sei lá... já jazo no chão, indiferente ao que possas fazer... estranho como a corrente de sangue corre na direcção dos teus pés, deve ser do hábito. É só um resíduo, não te preocupes, isso depois sai bem com lágrimas, daquelas que não te custam a espremer desses olhos de morte morrida matada... sabes lá tu o que é chorar... Para chorar é preciso estar-se vivo, rapariga, é preciso ser-se humano, é preciso saber-se Amar, com A grande caso não tenhas reparado!! Tens de ter cuidado, olha o sangue, não vá ele contaminar-te de qualquer coisa que não queiras sentir a empeçonhar-te essa pele imaculadamente degenerada em tela figurativa onde pintei os meus prazeres. Foram coisas bonitas. Agora são medos, coisas impensadas pelo Maligno, arrenega! Não te esqueças de os limpar com água benta Neoblanc, que sempre te lava mais branco, mas não muito, não muito porque senão ainda te habituas mal e não há mais para limpar o sangue do chão... e não te esqueças de colocar o mesmo amaciador que puseste quando te conheci naquela terra à margem do Sol. Gosto de me rir disto, da tua cara especada a olhar para os meus restos no chão a serem lambidos por um cão tinhoso com ainda mais feridas que eu.
Conheci-te as costas, bem demais, tão perfeitas como as promessas que me fazias, quentes como as mil e uma noites em que fui Sheherazade cantando para ti uma fábula sempre mutável como o capricho delicioso da Vontade e do Sonho. Trazes um fio agarrado, com o qual espalhas o meu mundo aos quatro ventos para nunca mais se poder juntar coerentemente. Não faz mal; haverá um pouco de mim em cada lua que visitei de mão dada contigo, um pouco de ti também, se calhar, mas isso são beijos de borboleta na areia dos sonhos, ao vento não contam...

14 de setembro de 2009


Men are not prisoners of fate, but only prisoners of their own minds.

Franklin D. Roosevelt (1882 - 1945)

Maybe the gift of any great person is the power to converse with our own hearts.

Randall Wallace (n. 1949)

My freedom will be so much the greater and more meaningful
the more narrowly I limit my field of action
and the more I surround myself with obstacles.
Whatever diminishes constraint diminishes strength.
The more constraints one imposes,
the more one frees one's self of the chains that shackle the spirit.


Igor Stravinsky (1882 - 1971)


Tentar escrever algo, com o tempo que tenho hoje, sobre a Liberdade é pura loucura. Começo, novamente, com uma pergunta (porque é das perguntas que nascem duas coisas essenciais à vida humana - as descobertas e os avanços): Quantas pessoas hoje em dia sabem o que é a Liberdade? Genuinamente? Não faço esta pergunta com alusão ao 25 de Abril, aliás, a pergunta é completamente apolítica. Pergunto no sentido mais puro que a palavra tem, no sentido puramente pessoal, sem conotações de terceira ordem. Na correria do dia a dia, nas ânsias que o Ego tem, quantas pessoas sabem o que é ser livre? São livres, sentem-se - ao menos - livres? Introspectemos: acordamos-nos de manhã e somos confrontados com dois pensamentos, imediatamente: tenho de me preparar - o que envolve um plano de actividades meramente pessoal e inevitável -, e tenho que ir fazer pela vida - trabalhar, estudar, ir pedir esmola, mais do que se lembrarem. Logo aqui temos um pequeno constrangimento à nossa vida: não podemos fazer o que queríamos, que era andar no 'bem-bom' todos os dias a fazer só o que se queria. Isto só por si já é ilustrativo da falta de liberdade. Mas nem vou por aí porque fazer pela vida todos temos, desde o início da Vida. A questão, a grande questão é, de que maneira fazemos pela vida? Somos livres de fazer pela vida da maneira que mais nos permita sermos nós próprios? Sermos nós próprios... eis três pequenas palavrinhas que são tão bonitas mas que são tão difíceis de pôr em prática, sobretudo depois de anos e anos de dissimulação e engodo. Comportamentos que, no início da sua posta em prática, nos eram repulsivos e que tínhamos que os fazer como ferramenta de subsistência num determinado meio, passam, sorrateiramente, a fazer parte do nosso carácter. Isto faz-me lembrar a história do coxo que pedia esmola, há muitos anos, até que um dia lhe perguntaram porque é que ele coxeava, onde é que ele se tinha aleijado ou se tinha nascido assim, para ter aquele problema. O pobre homem - e para mim era da pior pobreza possível, a de espírito - disse que não, que nunca se tinha aleijado mas que, de tanto fingir que coxeava, já não sabia andar de outra forma. Outras histórias há a ilustrar o mesmo princípio mas esta pareceu-me a melhor. Volto a perguntar, como é que uma pessoa pode saber a liberdade, se se encontra espartilhado por uma quantidade infinda de limitações - muitas das quais auto-infligidas - que o levam a agir de outra forma de outra maneira que não o que É? É isso a Liberdade? Fazer o que se quer mas com essas barragens de comportamento? O coxo também podia fazer o que quisesse, ir onde lhe apetecesse; tinha era de ir devagar porque já não sabia ir de outra forma; se quisesse andar de bicicleta, não podia porque a perna que não tinha absolutamente nada - era perfeita - estava incapacitada pelos longos anos de fingimento por parte da brilhante mente do Ser ao qual pertencia. A mente desse homem NÃO ERA livre. As mentes que assim vivem NÃO SÃO livres. E isto parece óbvio.
A Liberdade tem 3 vertentes: a vertente física, mental e espiritual - como tudo, aliás, o que nos diz respeito. Como é um processo, normalmente, consciente, o peso das vertentes físicas e mental são maiores do que a espiritual. Não é por acaso que se diz 'livre como o espírito'. O Espírito é a mais livre de todas porque é a mais subjectiva e inconsciente das vertentes. Aliás, a própria noção de Liberdade que o Ser tem advém daí, pois nada nem ninguém consegue travar o Espírito. Um Espírito acorrentado não existe, o Ser ao qual pertence não existe, ou, se existiu, está morto. Uma pessoa até pode ser limitada fisicamente mas, com frescura de mente e espírito livre pode ser imparável. As limitações físicas são as menos limitativas do Espírito. As piores limitações advêm, infelizmente, da Mente. Sendo tão insubstancial como o Espírito, a Mente muitas vezes finge ser o Espírito, de modo a que o Ser, conscientemente já não saiba o que é a sua Essência e o que é o fruto da sua imaginação. A Mente é uma ferramenta poderosa, tão poderosa que nos pode roubar a liberdade, se assim o permitirmos. Tão poderosa que nos pode estropiar. Tão poderosa que nos pode matar. Mas é SÓ uma ferramenta e o ser Humano tem a tendência a esquecer-se disso, muitas vezes caindo em contemplação estática, embevecido, da capacidade de uma ferramenta. Imaginem que o vosso carro ditava que não podiam pensar em determinados assuntos. 'Era só o que faltava!', diriam vocês, e com toda a razão. Então, se assim é, porque é que não têm essa consciência em relação à vossa Mente? O vosso Coração, o vosso Espírito, a vossa Essência, são o quê, estão lá para quê? Para enfeitar?

O assunto sobre o qual divaguei não é despiciendo. Lanço-vos um repto: olhem à vossa volta! Não vêm o mundo a mudar? Sim, ele está a mudar e se vocês acham que está a mudar para pior, façam-se um favor, escutem o vosso coração, deixem o vosso espírito fazer o que ele faz de melhor: voar; silenciem a mente e deixem que, por uma vez, o vosso Coração assente sobre aquilo que os vossos sentidos físicos vos trazem e que seja ele a ditar à Mente o resultado da análise. Tentem ver realmente, de um ponto de vista o mais imparcial possível, todas as coisas que se andam a passar pelo mundo. Nos noticiários já se sabe o que mostram, saiam e tomem consciência do que é que o vosso Irmão Humano anda a fazer, o que é que ele tem visto, ouvido, vivido. Peçam-lhe para ele vos contar as coisas boas que ele tem sentido, que lhe têm contado, que ele tem escutado, a frequência com que isso tem acontecido. E depois pensem nisso (hora da Mente), somem 1 + 1 e vejam se o Mundo está a mudar para uma coisa assim tão má. Não está, acreditem que não está. Mas está nas mãos de todos serem Livres puramente livres, agirem na vossa esfera - pessoal e mutuamente - de forma a que isso que, por enquanto, está num domínio mais ou menos invisível, inconsciente, se torne mais e mais presente, consciente, palpável. Está na altura de desespartilhar o ser Humano, de lhe remover os constrangimentos, a dor e o drama. Está na hora de tomar o nosso ser a 100% nas nossas mãos e de desenvolver todo - ou pelo menos, o máximo possível - do seu potencial. E é extraordinário esse potencial. Lembram-se de Timor? Lembram-se do Euro? Lembram-se do 25 de Abril? Lembram-se de Obama? Lembram-se de Luther King? Lembram-se de todas as massas movimentadas pelos Grandes Espíritos Humanos? Lembram-se de todas as vezes em que a vontade, o querer Humano convergiu para um único, elevado, positivo resultado, em sintonia com o Espírito Humano na sua forma maior? Sempre que o fazemos, sempre que o fizermos, faremos algo antes impensável, algo estrondoso, algo mágico. Sim, é magia. É Amor.

Sim, a Liberdade faz Magia, o Espírito faz magia...

Espero que a pergunta que eu fiz no início tenha, agora, uma resposta, pelo menos, de mais um...

13 de setembro de 2009



We are here on Earth to do good to others.
What the others are here for, I don't know.


W. H. Auden (1907 - 1973)

Everyone thinks of changing the world,
but no one thinks of changing himself.


Leo Tolstoy (1828 - 1910)

To accomplish great things,
we must not only act, but also dream;
not only plan, but also believe.


Anatole France (1844 - 1924)


Back in the early 80's (a glorious decade!) Freddie Mercury and Brian May wrote a song called 'Is This The World We Created?'. The simple lyrics, the poignant (and always up-to-date) thematic and soothing 12-string guitar music made it a success, specially on festivals such as the memorable Bob Geldof's 'Live Aid'. Summing it up, it's a song about the state of the world, with a focus on poverty, deseases, indifference and injustice. It was a good effort as a 'heads up' call and, back then, I believe it had the effect they hoped for - innitiatives such as those were fairly new and got widely accepted. I can't remember a time where so many songs about Africa were made, with all who called themselves 'artist' doing some 'African' work. Time proved Us, once again, that it was a trend and, as such, it was fleeting. By the end of the decade, no one even remembered where that little skinny-hungry-with-a-big-'waterbelly'-boy's country was... At least it left Us good tunes! (at least for me, who really enjoy most of the 80's music.) 20 years later, everything's the same! The recent technologies, which, supposedly, should've helped Us getting closer to each other, only got Us more and more inside Our small little cocoons. I don't know if you've already saw the "wall-E" movie, from Disney. I did and, despite it's obvious excellent quality, it made me noxious. Not only because of the way the Earth was like but because of the way the surviving humans were aboard the "Noah's Ark" - for them, other humans only existed on their personal cart's screens, their world was restricted to a screen in front of them. They didn't even look sideways to see there was other people! Everything was done for them. If they needed food, they inputed on their cart's they wanted to eat. If they wanted to talk to other people, they'd talk through video-call. It was a freak-show - and dangerously close to what We are doing nowadays. Obviously, doing that for generations in a row, the Human being became physically as distorted as its soul was. Don't even doubt for a second that that kind of mental laziness would drive Us either to extinction, or the loss of Our essence as Humans.

A question that has always crossed my mind was (and is), 'Why don't People actively seek to be better?'... doesn't it cross their minds, even from time to time, to do a little better everyday?... (It's not just a boy scout thing, you know?...) Why leave all the action for other people - whom we think will do better than we normally would?... It's amazing the epic amount of energy that we normally waste, energy that could be put to far better uses! I'm not saying that one should immediately get out of the house and start giving food or shelter or trying to heal the poor soul next to us (not that it wouldn't be a good idea - it is! - but it would be too much, for a start, and - most probably - dangerous...); I'm asking why not to be good, to do our best, to think the 'extra mile' in the small things that make our daily life. Start by yourself, then your own micro-environment and you'll manage to suggest others, through your deeds, that it's so simple and so much better. Why to do it? Simply because it's good, and that's a lot, it's really important for us to feel good! You'll feel good (guaranteed!), everyone around you will feel good - at least feel better -, and you can't even imagine the impact of your good actions, how far can they go, how deep into someone's heart they can go.
Imagine, for instance, that you think about doing some exercise. 'Well', you think, 'it's been quite a while since I've done it. Probably I'll feel sick afterwards... Maybe I shouldn't go...'. But then you see someone, who began doing it some time ago, and now seems that his whole life looks like a lotto jackpot - one breathes health, sweats health, looks absolutely positive, seems there's no problems at all in his life. You decide to get up and go ask that person, if his life is as cool and stress-free as it looks, if everything goes as smoothly as it seems. Surprisingly, one says to you 'Yes!', with a one-million-euro smile and a shine in his eyes that seemed to go as deep as his soul. On that smile, you can feel that everything is really going smoothly with him. Then you ask why, and that person says to you 'I really don't know! But, you know?, one day I decided to do something good for me, to make me feel deeply good, relaxed, feeling cool with life - and I decided to do some exercise. I can't say, at first, it was easy. It wasn't and I even thought about quiting, but something within me made me go on. After a while, the 'pain' was gone and it was getting better every time. Soon, I felt flowing with good vibrations and it wasn't just when I was doing exercise, it kept on going through the day. At the same time, everything seemed clearer for me, simple, and problems sometimes also seemed to solve for themselves. It's almost like magic isn't it?', widely smiling.'Then I felt like giving that good feeling to other people around me - I started to help people, to make them feel as good as I was feeling. I can't say that I was 100% successful but most of the people I got in touch with got the message and are now thing the same thing for themselves.' After this conversation, I bet that you'd do the same thing - be deeply good to yourself.
Skeptics?... Oh, there'll always be skeptics, as long as the Earth turns with two Humans on it (even one, I recon). It's not your problem, obviously - everyone is free to think the way they want and act accordingly - as long as they "restrain" themselves to the 'annoying' level, naturally. If someone's criticizing you for doing what you feel as right and, no matter what it costs, you stick to your plan, then it's OK... As Martin Luther King Jr. once said:
In the end, we will remember not the words of our enemies,
but the silence of our friends.
Remember it, all times!... But if you start believing in others and not on yourself, then you'll have a problem - you're leaving hold of yourself, to become a projection of others in your body. And, believe me, 'Body' (anyone's Body) doesn't like to be ruled by others!... So, be attuned with your body, thinking by yourself, properly. BUT, don't forget those around you and beyond...

We are not alone in the Universe, on Earth. And We are all connected in more than one way... most of them, We probably don't even know... but nothing can keep Us from trying to see them, can't it? And I bet the most certain way to do it, is with Good, Kindness - Love...

11 de setembro de 2009



Freedom is nothing else but a chance to be better.

Albert Camus (1913 - 1960)


I firmly believe that any man's finest hour,
the greatest fulfillment of all that he holds dear,
is that moment when he has worked his heart out in a good cause
and lies exhausted on the field of battle - victorious.


Vince Lombardi (1913 - 1970)


Os portões fecharam-se atrás dele. "Estranho como os sons despoletam diferentes efeitos em nós consoante a situação em que estejamos...". Para ele, o rimbombar dos pesados portões de ferro, era o som de uma nova vida. Bem, isso é um absurdo: não há vidas novas nem vidas velhas; quanto muito, tempos novos e tempos velhos. Este era, então, um tempo novo. Que fosse. Sabia-lhe bem. Primeira paragem: um café.
- Olhe, por favor, podia dar-me outro, este café está queimado...
- Peço desculpa, eu vou já trocar. - respondeu o empregado.
O novo café nunca lhe soube tão bem. Bem, talvez o primeiro café que tinha bebido na vida, mas café a sério, não aquela mistura de cereais que ele misturava no leite quando era miúdo. Foi a primeira vez que se sentiu um homenzinho. Mas mais do que isso, foi quando fumou o primeiro cigarro, com os amigos, escondidos atrás da serração abandonada - infelizmente, não foi uma passagem à idade adulta propriamente agradável... Uma mulher entrou no café para comprar um maço de tabaco e os seus olhos cobiçaram-na. Medindo-a dos pés à cabeça, desejou-a imediatamente. Controlou-se. Não queria armar confusão, agora que estava livre de confusões. Só queria tranquilidade, que o deixassem em paz, na sua vidinha, fosse ela qual fosse.

Não sabia se estava preparado. Percebeu que entrar neste novo tempo iria ser mais complicado quando, ao entrar no autocarro, reparou numa das velhotas a olhar para ele, com um ar ligeiramente suspicioso. Sem saber porquê, ficou incomodado, quase como se lhe tivessem chamado uma qualquer injúria grave. "Para o que é que estás a olhar, velha?", foi algo que lhe passou pela cabeça mas conseguiu arranjar a frieza suficiente para se manter calado. Se fosse lá dentro aquilo não passaria impune, premeditado ou não. Um arraial de porrada, para começar, depois logo se via se a coisa dava luta ou não. Sentou-se e deixou que a viagem lhe tomasse conta dos sentidos.
Passados uns minutos apercebeu-se que a viagem lhe havia tomado demasiado conta dos sentidos. Acordou e tentou perceber onde estava mas não conseguiu reconhecer; nunca tinha visto aquelas ruas em lado nenhum, nada daquilo se assemelhava a qualquer coisa que tivesse visto alguma vez na sua vida.
- Desculpe... Onde é que estamos?
- Estamos a chegar à paragem, em E. - disse o senhor, um pouco distante.
- Em E.?... Já estamos em E.?...
- Sim! - exclamou com um tom de evidência clara - Não foi era para aqui que queria vir?...
- Ah... era... - e deixou os olhos mergulharem na cidade que passava por si. As casas, os carros, as pessoas, nada daquilo lhe parecia real, nada daquilo lhe era familiar. Não era aquilo que ele era, de todo. Ele era a mercearia do sr. Carmindo, a garagem do sr. António, a velha praça, o café Central e o café do Elias, o Pavilhão do Recreativo de E., a fábrica de Estofos, os baldios que rodeavam a cidade, os rebanhos que por aí pastavam, até a velha paragem... onde estava aquilo tudo? que lhe fizeram? que aconteceu?
Apeou-se do autocarro. Ficou minutos a admirar a paragem de autocarros. "Bela obra!" - pensou - "pelo menos é melhor que a antiga barraca que aqui havia". Puxou de um cigarro mas foi imediatamente avisado por uma pessoa que não se podia fumar ali.
Arrastou-se para a rua e ficou espantado com a quantidade de trânsito que havia a passar na rua. "Mas as pessoas multiplicaram-se como ratos ou quê?!... Ou então ganharam todos o totoloto! Olhem-me só para esta confusão de carros!" De facto, nem o ar da rua era o mesmo, muito mais pesado, carregado. Julgou mesmo sentir-se com nauseas, de tanto fumo inspirado. Mas lá foi caminhando, guiando-se mais pelo nome das ruas do que pelo que se lembrava delas. O centro da cidade não estava muito mudado, aí conseguiu reconhecer bem o que já estava antes de ter sido detido e depois. Mas rapidamente avançou por ruas desconhecidas para chegar à casa dos seus pais. Em breve teve de fazer algo impensável: perguntar por direcções. Na sua própria terra.

- O que é que vais fazer agora, filho?
Ele deu mais um trago no café.
- Não sei. Mas alguma coisa tenho de fazer. - olhou para ela - Acabaram-se as papas doces. - disse, pelo meio de um sorriso.
- Pois acabaram... - disse a mãe, assentindo - Nem deviam ter começado sequer!... - levantou-se - Queres mais café?
- Não, obrigado... - mais um trago.
- Ena!... Até agradeces agora!... Foi preciso ires de cana para aprenderes a ter maneiras!... Até parece que eu e o teu pai, que Deus o tenha, nunca tas ensinaram em casa. - e começou a lavar a loiça.
Ele sorriu. "Se tu soubesses...", pensou ele.
- Mas não tens nada em vista? não tens a mínma ideia do que queres fazer? - voltou a perguntar, por entre o barulho dos copos e dos pratos.
- Oh!... sei lá... lá na pildra ainda tirei um cursozeco profissional mas não sei se vai dar p'ra fazer aquilo. Não nos chegavam lá muitas notícias mas o facto de que o pessoal aqui fora andava um bocado enrascado de trabalho e dinheiro conseguiu passar pelos guardas. Não é animador... ainda p'ra mais um ex-condenado... - disse, meio deprimido.
- Pois, mas se nao fizeres nada por ti e não fores à procura, ele não te vai cair no colo. E depois o que é que vais fazer? Voltar a as...
- Isso já passou! - gritou ele, num repente, assutando a mãe, acalmando-se de seguida - ... isso já passou... - olhou para o que tinha diante de si, com o olhar vazio e semicerrado, e deu mais um trago, acabando com o resto do café que tinha na caneca.
- Pois... já passou... - disse ela, concentrando-se na caneca. Ele levantou-se e chegou-se ao pé dela, poisando-lhe as mãos nos ombros.
- Desculpa... não te queria assustar... - disse a meia voz.
- ... não faz mal. Tendo em conta o que já fizeste aqui por casa, acho que não é por isto que vais p'ro Inferno. - e suspirou.
Saiu da cozinha e foi para a sala. Em tons sombrios, pouco ou nada tinha mudado, excepto mais uma ou duas fotos dele, do pai (que entretanto tinha falecido com um ataque cardíaco) e da família da irmã. Pegou nesta última moldura e ficou a admirá-la. "Está mais velha... mais gasta... mas parece mais feliz...", pensou ele, vendo aquelas caras quase estranhas. Quem eram eles agora? Que eram eles agora?... Pegou na moldura com o rosto do pai. Eram estes olhos que o tinham acompanhado durante aqueles anos de encarceramento. Acusadores.

- És a minha vergonha, ordinário!! Sai-me já de casa!!
- Quem és tu para me mandares para fora de casa?? Não podes, sou teu filho, a casa é tão tua como minha! - disse, meio gozão.
- Quem sou eu?? Se esta casa existe, foi às minhas custas e da tua mãe! E enquanto vivermos aqui, a minha palavra e a dela é Lei, percebeste?? Além disso, que eu saiba, ainda não estou morto... isto ainda não é teu e ainda vou pensar se o será...
- Pai, pai, tem calma... não é preciso chegar a estes extremos! Vocês estão alterados, os dois, vejam se se acalmam! - rogou a irmã, pegando no braço do pai.
- Calma?? Este bandalho anda-me na má vida, na malandragem, sem emprego, sem ganhar a vida e eu ainda tenho que albergar um canalha, um parasita destes??
- Isso... continua a chamar-me isso, continua a chamar-me mais nomes e a foder-me o juízo... - chegou-se ao pé dele - Olha que eu começava a ter mais cuidado ao andar na rua, velhote...
- Velhote??... seu pulha de merda!... - disse, rangendo os dentes, avançando para ele. Acabou por lhe dar um soco na boca, fazendo-o cair com estalhardaço no chão. Foi o suficiente para as mulheres começarem aos gritos e polarizar a atenção nele, ajudando-o a levantar-se.
- É assim que queres... é assim que vais ter... - limpou o sangue do lábio, soltou-se das mãos da mãe e da irmã e saiu porta fora, sob o olhar impotente da família.


O seu quarto estava na mesma, como o tinha deixado naquela noite em que abandonou o seu lar... os lençois, a colcha, as fotos e os livros, tudo estava impecavelmente arrumado como quando chegava a casa, por essa altura. Olhou cada objecto com uma nostalgia absurda, sem sentido, como se assim pudesse voltar ao ponto em que tudo começou a desencarrilar na sua vida. Tinha desejado tantas vezes que isso tivesse acontecido...
- As últimas palavras dele foram para ti...
- Desculpa?...
Ela acenou com a cabeça para a foto do pai, que ele ainda trazia na mão.
- Ah... que foi que ele disse?
- Que te perdoava, que esteve à espera de ti, do teu regresso, que sempre esteve, desde aquela noite...
Ele sorriu com beatitude - Bem, acho que cheguei um pouco tarde demais para isso...
- Não, filho. Nunca é tarde demais seja para o que for enquanto se está vivo...
Ele entregou-lhe a moldura para as mãos e desceram juntos para a sala.
À noite, estavam todos finalmente reunidos. A irmã trouxe-lhe os sobrinhos para ele os conhecer a primeira vez, assim como o marido. Havia saudade, alegria e esperança no ar.
- Saem ao nosso pai... - disse-lhe ele, depois do jantar, na varanda.
- Sim... e cada vez mais. O mais velho, então, tem o mesmo feitio que ele: teimoso, respondão, impulsivo, só faz o que quer... mas é muito ternurento, como o nosso pai era... O mais novo é como tu.
- Como eu? o quê? um futuro presidiário? - riu-se.
- Não... - disse-lhe ela, olhando em frente para a noite escura - Curioso, traquina, segue sempre o seu rumo, diferente de toda a gente, destemido e muito engraçado. Acho que fazem uma dupla perfeita: o que falta a um, tem o outro... - pausou e olhou para ele - tal como tu e o pai...
Ele desviou o olhar - Não sabes o que estás a dizer.
- Sei sim. Sei que era em ti que ele mais se apoiava, que era de ti que ele esperava as melhores coisas, o melhor futuro...
- ... porque eu era o rapaz.
- ... porque tu eras a continuação dele, do nome da família, porque ele se revia em ti de um modo quase cego, porque ele acreditava em ti, no teu potencial... Ai de quem o contradissesse! Uma vez, quando era miúda, p'raí com uns treze ou catorze anos, a mãe mandou-me ir chamá-lo ao café Central. Quando eu lá cheguei, ele estava a falar de ti, a dizer como eras inteligente e trabalhador, de como aqui na terra não havia ninguém como tu e que serias um óptimo assistente dele e excelente futuro canalizador... eu fiquei cheia de inveja por ouvir dizer aquilo de ti - riu-se - mas pouco tempo mais tarde vi que ele tinha razão. Tu eras tudo aquilo que ele disse que eras. E nunca perdeu essa fé até ao fim. Achava que logo logo irias sair da prisão, mais cedo até, por bom comportamento, e que retomarias o lugar que deixaste vago...
Silêncio.
- Porque é que não viste ao funeral dele?
Encolheu os ombros. - Sei lá... com a despedida que tivemos naquele dia, com a vergonha de aparecer sendo um recluso, com a fama que tinha aqui na terra, achei que era melhor ficar na gaiola do que ir piorar ainda mais o vosso dia. Alem disso, mas não tão importante, aquele murro que ele me tinha dado ainda me fazia doer o orgulho.
- Deus do céu, já tinha sido há oito anos!... Quem é que se lembra de um murro de oito anos?
- Eu lembro-me! Eu!! Eu lembro-me porque foi dado com base numa discusão completamente ridícula, com base num rumor que um tipo qualquer tinha inventado sobre mim, só porque eu andava com o pessoal que andava... mas era mentira... sempre que eles se preparavam, p'ra fazer alguma, eu afastava-me e ia p'ro café ou vinha p'ra casa... - pausou, recomeçando a meia voz - Foi depois dessa noite que comecei mesmo a andar na má vida, dando no que deu...
O silencio regressou à varanda, entrecortado pelos gritos das crianças dentro de casa. Continuaram os dois a tomar o ar da noite fria e ela passou o braço por cima do ombro, reconfortando-o com um beijo e acariciando-lhe o rosto.

Os dias passaram e ele começou à procura de emprego. Esperava que ninguém se lembrasse mais do que ele tinha feito na companhia do grupo dele, doze anos antes. Afinal, a terra tinha crescido tanto, seria difícil éncontrar alguém com poder de decisão numa empresa, que se lembrasse disso. Sobretudo depois do que ele tinha visto na televisão nos ultimos dias, que mais parecia um diário de horrores. Passado umas semanas, encontrou uma oportunidade numa empresa de metalo-mecânica e compareceu na entrevista. Estava nervoso, era compreensível, queria fazer boa figura e esperava... não, rezava!, que ninguém lhe perguntasse o que tinha feito nos últimos anos.
- Com que então o senhor está a candidatar-se ao lugar de torneiro mecânico, não é assim?
- É sim, senhor.
- Muito bem, então quais são as suas qualificações?
- Tirei um curso profissional na Escola Profissional de V.N.A. - apresentou-lhe o diploma.
- Hmm, hmmm... - disse analisando o documento - muito bem... e chegou a exercer nalguma empresa anteriormente?...
- Não senhor, não tive oportunidade. - respondeu, com alguma reserva.
- Quer dizer que não tem prática...
Engoliu em seco - Não, senhor.
- Hmmm... estou a ver... e que experiência profissional tem, para além desta formação?
- Trabalhei como canalizador e servente de pedreiro durante sete anos.
- Canalizador?... Interessante... É que eu estava a reparar melhor no seu nome e lembrei-me do meu antigo canalizador, que já morreu, que era daqui da terra, o sr. Terêncio, um óptimo profissional...
Pensou se havia de dizer a verdade ou não mas afinal o pai morrera a chamar por si. Seria injusto para com a memória dele.
- Sim, é o meu pai. Eu ajudava-o no trabalho dele antes de ter saido de casa...
- O quê?... Você é que é o filho do Terêncio? Que coincidência!... Por esta é que não estava à espera... ouvi o seu pai falar tanto de si, que nem imagina!... Mas... se bem me recordo, não foi você que esteve envolvido no assalto à ourivesaria Brilhante? Disseram-me, na altura, que o filho do Terêncio também tinha estado metido nisso...
Ele transpirou por todos os poros. Tinha descoberto o seu calcanhar de Aquiles. Parou para reflectir e respondeu:
- É um passado que já lá vai, senhor. Paguei a minha dívida para com a sociedade e agora estou a tentar recomeçar muito antes do ponto em que me desviei da vida de homem honrado. Saí antecipadamente por bom comportamento e creio que o facto de ter tirado o curso enquanto fui recluso demonstra a minha boa vontade em recomeçar uma vida séria.
O director olhou para ele com ar desconfiado - Estou a ver... bem, eu ainda tenho de fazer mais umas entrevistas e depois vou reflectir. Quando chegar a uma decisão, será informado, quer seja admitido, quer não. Ficamos então assim?
- Sim, senhor.
- Óptimo! Então um resto de bom dia...
- Bom dia, senhor...

- Oh Jaime! Passa-me aí a peça por fresar, sff! - pediu ele.
- Toma! Já tens essa pronta para levar ao 'Côxo'?
- Já 'tá pronta há mais de meia hora, se não andasses a tentar meter-te com a gaja da contabilidade!
- O que é que queres?... Com uma 'tranca' daquelas, dava-lhe uma q'ela até havia de deixar de saber contar... Santa mãezinha!...
- Guarda mas é a 'maquina de calcular' dentro das calças e vai-me passando as peças...
- É pá, vai com calma, que isto 'tão quase a ser 18h... amanhã 'tamém' é dia!...
- O cliente queria isto p'ra ontem, percebes? E o patrão anda em cima de mim como cão num osso. Por isso, vê lá se te despachas!
- Está bem, está bem... também, és pior que ele, ..dass!... nazi do caraças...
O ambiente na empresa era bom e ele era muito competente e esforçado. Sabia que não podia desiludir quem lhe tinha dado aquela oportunidade.... e a memória do seu pai. Afinal de contas, foi também um pouco graças a ele que o patrão lhe tinha dado o voto de confiança:
- Jovem, o teu pai era um grande homem. Mas isso não significa que tu o sejas. Ele provou o seu valor até ao fim, e tudo o que tu fizeste até agora, ou há uns anos, foi adiar a tua vida. Disseste-me que quando começaste a trabalhar, era com ele que andavas, não foi?
- Foi sim...
- Eu sei que o nosso primeiro emprego nos marca muito e sei também que ele te tinha em larga estima. Dizia que eras muito inteligente e aplicado. Para ele foi como um choque teres feito o que fizeste, ele nunca percebeu, ficou desolado... Se és tão inteligente como ele dizia que eras, creio que tens o que é preciso para trabalhar connosco. Mas, devido ao teu passado recente, devo dizer-te que vou estar de olho em ti. Vais ficar à experiência durante um ano. Eu sei que é mais tempo do que o normal mas é de propósito. Se, durante um ano, houver o mais pequeno problema, se faltares, se te atrasares nas encomendas, vais mais depressa para a rua do que eu a dizê-lo. Aceitas este acordo? -
dissera, então, num tom sério.
- Claro! É a minha oportunidade, a única que tenho!
- Óptimo! Começa-se às 9h e despega-se às 18h. O almoço é às 13h, durante uma hora. O teu ordenado, depois falas com a Elisa, da contabilidade... -
acompanhara-o à porta - mas não te demores lá muito. - disse com um esgar malandro.

- Então, como correu o teu dia? - perguntou a mãe.
- O costume... se tudo correr bem, já não te fico a chatear aqui em casa muito mais tempo... devo estar prestes a conseguir o suficiente para mudar-me para um cantinho meu. - disse, pousando o saco com a marmita que levava todos os dias para o almoço.
- A sério? Optimo, filho! Mas agora que nos estavamos a dar tão bem, é que tu sais de casa?
- Mãe, por favor, já tenho 35 anos!... Acho que... - e fez um gesto indicando que o que era demais era demais.
- Eu percebo-te - e sorriu - o jantar está pronto daqui a uns minutos - sais hoje?
- Em principio não... Ehhh - bateu com a mão na testa - esqueci-me de uma coisa na fábrica. Tenho de lá ir rapidamente senão o coitado amanhã fica sem aquela papelada e faz-lhe falta... já venho, não demoro...
- Vai lá então, eu deixo isto coberto para não arrefecer...
Saiu a correr e foi num ápice que chegou à empresa. Pediu ao porteiro para o deixar entrar, para ir aos vestiários buscar uns papeis. O porteiro ao inicio franziu o olho e, como o patrão ainda estava a trabalhar, ligou para ele. Não atendeu.
- Estranho... vou tentar outra vez... - disse o porteiro, surpreendido.
De novo, o sinal de chamada sem resposta...
- Passa-se alguma coisa, de certeza... já toda a gente saiu, só cá está ele, até dá p'ra ver a luz daqui.
- Quer que eu lá vá ver? - perguntou ele ao porteiro.
- É melhor que eu não posso sair daqui, estou à espera do meu colega para me vir render. Se ele não me vê aqui, dá logo o alarme à central.
- Então vou lá ao patrão e depois digo qualquer coisa.
Avançou com o carro, então, em direção ao gabinete do patrão. Ao chegar lá, bateu à porta, sem resposta. Bateu novamente e foi surpreendido por uma voz ao fundo do corredor.
- Terêncio! Qu'é que está aqui a fazer a esta hora? Queria alguma coisa?
- Desculpe, sr. Dr. É que o porteiro ligou para si a perguntar se eu podia ir aos balneários buscar uma papelada que deixei no meu cacifo e, como não atendeu, podia ser que estivesse alguma coisa errada e vim cá ver...
- Fui só à casa de banho - com a minha idade é normal uma pessoa demorar um bocado mais... e a ir mais vezes... Mas pronto... Vá lá então ao seu cacifo mas depois, já que está aqui e eu nao tive oportunidade durante o dia, passe por aqui que eu quero dizer-lhe umas coisas.
- Com certeza, sr. Dr. Com licença.
Dirigiu-se ao seu cacifo, pegou nos papeis que queria e regressou ao gabinete do patrão. Bateu à porta e entrou.
- Com licença, sr. Dr.
- Entra entra... Senta-te. - arrumou uns papeis - Então é o seguinte, como sabes, já estás cá há quase um ano, pelo que estás quase a acabar o período de experiência que te propus e aceitaste. Tenho a dizer-te que não me desiludiste, bem pelo contrário: és aplicado, diligente, pontual e o pessoal tem-te em boa conta. Ora, sei que ainda estás a viver com a tua mãe, não é assim?
- É sim, sr. Dr.. Mas estou quase a conseguir ter um pé de meia para me mudar. Mesmo assim, nunca antes de quatro meses.
- Pois, era isso que queria falar contigo. Decidi dar-te um prémio, ou um incentivo, como queiras. Vou-te aumentar em... - pausou por segundos, fechando os olhos.
- Sr. Dr., está-se a sentir bem?
- Sim, sim... - fez um gesto a acalmar - ... como estava a dizer, vou-te aum... - parou de novo - oh raios, isto não anda bem... vou-te aumentar em... - calou-se e perdeu os sentidos, caindo para o lado.
- Doutor?! Doutor?!
Levantou-se e foi verificar se o patrão tinha pulsação. Fraca mas tinha. Ligou para o porteiro.
- Estou?... Quem fala?... Daqui fala Terêncio! O patrão acabou de desmaiar.
- Mas então, chama-se uma ambulância!
- É demasiado tarde p'ra isso, vão demorar como o caraças a cá chegar. Venha mas é cá e ajude-me a trazê-lo p'ro meu carro, que eu levo-o ao hospital. Despache-se!
Passado meio minuto, o segurança apareceu e ajudou a transportar o patrão para dentro do carro, que se encontrava à porta do edificio dos escritórios. O carro deslizou em direcção ao hospital.

- Pois foi assim que aconteceu, juro-te... e se tens dúvidas pergunta ao segurança que está lá hoje!
- Eh pá, essa história é muito rebuscada... estás na tanga, é o que é! Queres é sacar a gaja da contabilidade! - disse-lhe Jaime, gozão.
- Olha, acredita no que quiseres... Se tens duvidas vai aos escritorios daqui a pouco e perguntas. Ou vais à portaria, que é o mesmo.
- E vou! E depois vou gozar contigo e chamar-te mentiroso até não me poderes ver nem pintado de ouro.
Ele fez um gesto como que dizendo "como queiras"... Passado uns minutos, foi chamado à Administração.
- Que é que eles querem agora?... Jaime, toma conta desta rebarbadora e vai preparando o torno, para quando eu chegar.
Passado uns minutos, voltou com um ar de quem não está bem neste mundo.
- Então pá? O que é que se passou?
- Nada, nada... o torno já 'tá pronto? Tem a peça montada com a fresa a jeito? estás à espera de que??
Mais tarde, chegado a casa, contou à mãe o que se tinha passado na noite anterior porque é que tinha sido chamado à recepção.
- Bem... se ele não confiar em ti depois disto, não sei!... Mas dizes tu que a mulher dele te ligou, foi?
- Ah, sim! Ligou hoje para à secretária, a pedir p'ra falar comigo: queria convidar-nos - a mim e a ti e à mana, se ela quiser - para um jantar lá em casa deles, de agradecimento, assim que ele tiver alta.
A mãe ficou contente e naquela felicidade os seus olhos brilhavam. Já não se lembrava quando tinha sido a ultima vez que a tinha visto assim. Talvez em miúdo, na escola, quando trazia uma boa nota ou um prémio mas isso já tinha sido há tanto tempo... Sentiu-se feliz pelo orgulho que a mãe tinha por si naquele momento, lembrando-se de onde tinha vindo, por onde tinha passado, por que é que tinha passado e onde estava agora. As coisas estavam a correr bem.

O dia do jantar chegou. Foi uma noite de festa, uma noite de celebração, comemorada intimamente pelas duas famílias. A casa era enorme e a família Terêncio estava deslumbrada com tudo; os miúdos corriam de um lado para o outro, fazendo longas incursões pelo jardim, correndo pela relva fora, caindo, correndo de novo, indo vendo os cães do patrão... O jantar foi repleto de risos e de histórias, e eis que se chegou, sem se saber bem como, à altura das sobremesas e do brinde.
- Caríssimos, estamos aqui reunidos para celebrar a vida. Como todos sabemos, aquilo que me aconteceu poderia ter um desfecho dramático, com consequências bem maiores do que o desapareciemnto de um ser Humano, facto já de si, profundamente lamentável. No entanto, foi graças ao coração e à frieza de um Homem que eu devo a minha vida. Este homem está aqui presente, a meu lado, esta noite, no que acaba por ser um desfecho muito feliz para todos. Em vez de uma reunião de lamento e lágrimas, é uma reunião de celebração. E mais feliz é ainda por este motivo: o Terêncio não sabia disto, obviamente, mas a minha mulher é a filha e irmã mais nova, do anterior e actual dono, respectivamente, da ourivesaria Brilhante.
Ao dizer isto, toda a família Terêncio ficou espantada e bastante embaraçada.
- Não te preocupes, Terêncio. Tal como disseste, em primeiro lugar, a tua dívida já foi paga com anos da tua vida e isolamento. Só por si, sei que isso é difícil para um homem. Mas o teu gesto de ontem, revelou que este homem que foi julgado, acusado e considerado culpado, não é de todo um criminoso de caracter distorcido, mas sim uma pessoa que, por força das circunstâncias de então, cometeu um erro e que, num momento dificil soube transcender os seus limites e encontrar a força para salvar a vida de outro ser Humano, que, quis o Destino, nos seus mistérios, fosse parente daqueles que um dia prejudicou.
A mulher do patrão acenou com a cabeça e pediu para ser ela a concluir.
- Terêncio, caríssimos, lembro-me, na altura, que foi bastante difícil à minha família ultrapassar o assalto que o grupo em que te incluias fez à ourivesaria do meu pai. No entanto, dessa vez, só se perderam bens materiais. Desta vez, perder-se-ia uma vida humana, a vida do meu querido marido. Nada pode pagar essa vida. Nem todo o recheio de todas as ourivesarias. Quero deixar aqui, de viva voz, que te perdoo, de coração e que agradeço a Deus por te ter encaminhado para a empresa do meu marido. Obrigado, Terêncio.
- O teu pai era um homem honrado, e também tu o és. - acrescentou o patrão - Muito obrigado!

Ele entrou na sala e desapertou a gravata. Olhou em seu redor e encontrou alegria nas fotografias, entretanto trocadas por outras mais recentes... excepto uma. Caminhou na sua direcção e pegou na moldura, acariciando o rosto da imagem aí presente. Pensou em todos os momentos bons que viveu com ele, e pensou nos que poderia ter vivido se não tivesse sido tão impulsivo e rebelde. Mas, então, um homem poderia, neste momento, estar morto. Achou tudo aquilo perfeitamente irónico mas de uma extraordinária beleza. Perguntou-se também se seria capaz de salvar a vida do patrão se não tivesse passado pela cadeia. Mas nada disso interessava... aquele era o seu momento, em privado, com o seu pai. Mais do que agradecimentos, mais do que jantares e brindes, o que ele mais queria era que o pai tivesse sabido que tinha salvo uma vida e que sentisse que estava orgulhoso dele. Sentia falta do seu perdão audível, do seu orgulho visível.
- Podes ter a certeza que ele está orgulhoso de ti... eu sei disso...
- Há quanto tempo aí estás? - disse ele a rir.
- Há tempo suficiente para te ouvir os pensamentos e te ter visto chorar... - pegou-lhe na moldura, arrumou-a e sorriu-lhe - Anda, vem - beijou-o na testa - vem dormir na tua cama, da tua casa, da tua família que se orgulha e te ama, toda.
Terêncio secou as lágrimas e foi deitar-se. Ao puxar os lençois, uma moldura de uma foto dele com o pai estava na sua cama. E foi aí que entendeu.

9 de setembro de 2009


There are many things of which a wise man might wish to be ignorant.
Ralph Waldo Emerson (1803 - 1882)

Ignorance of certain subjects is a great part of wisdom.
Hugo De Groot (1583 - 1645)

Innocence dwells with Wisdom, but never with Ignorance.
William Blake (1757 - 1827)

It's innocence when it charms us, ignorance when it doesn't.
Mignon McLaughlin, (1913 - 1983)

For the first time ever in the long history of this site, I'll be writing in fair Albion's idiom.

My posted tales have begun to get a life of their own. It's a strange feeling to me because, from the moment I decided to take a chance and write these short stories, they were not meant to be so long. I, therefore, hereby apologise for extensive length of them. But what happens is rather interesting: I begin to write on a given subject and some lines later, the story begins to demand more. Asking for more and more. She wants to grow, she wants to go into details, to show every emotion, every tear, smile, frown, shrug, everything. There's not one character's step that seems expendable. So, stories that shouldn't be more than three paragraphs long, become a novel to me. The will to break them in parts is very very strong and, for once, I gave in to it (here I, here II and here III). As I wrote it, I began to feel sorry for the poor reader who had to wait for the next part, and myself feeling frustrated because the pleasure of writing gave place to a obnoxious feeling of tiresome duty. A clear symptom of this is the rate which I wrote it - besides, I was on holiday, which made it worse.
Yesterday I was really tempted to do the same again, but only a two part story. Fábia's tale wasn't so intricate as the Architect's tale and I belive that if I'd broken the tale at the point where she attempts suicide and then develop the recovery further more in another part (how the friendship with Marcia developed and got deeper, how she found her calling, how she recovered from the problems, how the kids reacted to the suicide attempt news, and other topics that might show up afterwards). One of the comments (and personal talk), from Mag, sugested that there should be a follow-up story, just to know, for instance, what happened to Lourenço and everything related to him. I agree and disagree for two reasons: if you read the story on the worldly point of view, and since such emphasis was put on the Lourenço's affair and the divorce, it is fair that one should know what happened to him, specially because he acted as one of "God's hands" by saving her life, preventing the suicide. But that is not the issue, the reason why I wrote the tale. As any other tale I post here, there are several lessons included, underlying principles which I represent by the inicial quotes. However, I believe that someday I might return to these characters and use them, once more (that's what they're here for), to illustrate other life lessons. I think it would enrich them psychologically and it would be good as a 'première' for me, too.

Changing the subject...

Who hasn't never felt that one should know far less than one knows? That we should be more ignorant? I have no problems in saying that I have. Some things, some lessons I learned in life, some data I learned in school, are (or have, for some time, been) just too plain heavy to be carried in someone's mind or soul. Sometimes is the content of the lesson; others, is the way that lesson was learned, the price paid for it. There are lessons and there are "lessons"! It's not easy to learn things which will come into mind after one has suffered terribly - normally one focus too much on the pain and its causes, and too litle on the 'wider picture'. Some lessons are really awful, and I'm not talking about the ones that lead to the loss of a beloved one. Imagine rape cases, murder, disablement situations, lives competely torn apart... what can one say of this? What can one learn of all this?... But these are extreme cases, with a very own and very hard lesson associated. On the other cases, our Human nature, our Ego continuously puts himself in the front of the possibility of understanding the 'wider picture', dressed as Resentment and lack of Pacience. These are our limiting steps, which proves and is, also, to say (figuratively, of course), we are our best friends and our worst enemies.
I believe, ultimately, that what we desire, when those hard lesson come to us, that we should have stayed as innocent as before the lesson. Ignorance can easily be confused with innocence, the diference being that the Ignorant already has some blame of its actions, due to its lack of information - i.e., the ignorant could have done something, but he opted not to - but he is morally responsible and connected to the action which he could have prevented, and, therefore, should have done something. Opposedly, the innocent can sometimes have the knowledge, the information, but one choses to see the best part of it and use such knowledge in a positive way, i.e. he is morally 'clean'; some other times, one doesn't know the consequences of its actions but, logically or instinctively, using its Wisdom or deducing from other similar experiences, he choses tho follow the best path. The Innocent is normally far away from the problem but he, somehow, knows something can happen. Ultimately, and bottomline, no guilt of its actions can be inputed to him (therefore it use in Law) - and that's why the ignorance of the law isn't an excuse for the non-compliance. Morality is what makes the difference (and a nice way to put it is the above sentence by McLaughlin).
I, therefore, rephrase my question and answer: I wished for some times, to have stayed innocent relatively to some lessons I've learned - and I'm also grateful, however painful it was, that I grew out of ignorance, even if I wished, back then, that I'd still be there... but had I had the moral to keep it like that?... Had I searched for the purest Goodness, Kindness?... Ultimately, ignorance is proven wrong. It's always a temporary situation because the Light always shines, one day...

Your pain is the breaking of the shell
that encloses your understanding.
Kahlil Gibran (1883 - 1931), "The Prophet"

To him who is in fear everything rustles.
Sophocles (496 BC - 406 BC), "Acrisius"

The gods help them that help themselves.
Aesop (620 BC - 560 BC), "Hercules and the Wagoner"

No price is too high to pay for the privilege of owning yourself.
Friedrich Nietzsche (1844 - 1900)

O cheiro das outras pessoas no autocarro irritava-a. A rotina das coisas irritava-a. Pensando nestas coisas, acabou por não perceber o que é que a irritava mais, se o cheiro, se o facto de ter que cheirar as mesmas pessoas (ou quase) todos os dias. Os solovancos que o autocarro da irritavam-na. As conversas em voz alta irritavam-na. Os encontrões irritavam-na. As constipações que as pessoas traziam e 'partilhavam' com toda a gente, ou mais pessoalmente, de uma forma mais ou menos higiénica irritavam-na. A lista de coisas irritantes continuava.
Chegou a casa e ainda passou pelo supermercado para ir comprar algumas coisas. Enquanto esperava na fila para pagar, olhou para um expositor com uma série de livros de auto-ajuda. Os títulos eram sugestivos e parecia haver um para cada problema que as pessoas tivessem: depressões, desgostos, angústia de viver, stress, toda uma panóplia de sugestões, ajuda fácil, ali à mão de desfolhar. Flávia abanou a cabeça, desdenhosa e voltou a sua atenção para outro expositor, desta frita, de imprensa cor-de-rosa. Chegou mesmo a desfolhar uma mas pousou-a e avançou na fila.
Chegada a casa, cansada, foi saudada pelos seus três filhos. O marido ainda ia demorar mais uma boa hora pelo que começou por passar revista aos trabalhos de casa que as crianças traziam para fazer. Algumas recomendações algo impacientes depois, sentou-se a descansar um pouco antes de começar a fazer o jantar. Enquanto saboreava este merecido descanso, o marido chegou. Saudou-a com um beijo e foi pousar o saco de desporto e a pasta que trazia. Sentou-se um pouco com ela e depois seguiram os dois para a cozinha, preparar o jantar em conjunto. Desta rotina ela não se cansava. Amava profundamente o marido e tinha-se tornado o seu ritual habitual, durante a semana, preparar as refeições em conjunto, aproveitando para falar do dia de trabalho, das vitórias, derrotas, frustrações e regojizos e de algo de diferente ou extraórdinário que tivesse acontecido fora do trabalho. A conversa daquele dia não fugia a esta regra.
- E depois o Carlos pegou no molhos de relatórios... - riu-se com um riso surdo, e tomou fôlego - ... e atirou-os à cara da Fátima! Havias de ver a cara daquela megera! Nem queria acreditar!!... - riu-se mais um pouco com o mesmo riso surdo - Ainda foi atrás dele para lhe pedir explicações e a ameaçá-lo com um processo disciplinar mas o gajo tomou a dianteira e disse logo que não era preciso, que se despedia, que não estava mais para aturar uma cabra como ela. Bem, havias de ver, o pessoal nem sabia para que lado se havia de virar para se rir sem dar nas vistas... Foi péssimo. A estúpida nem sabia onde se havia de meter! Estava vermelha de raiva e de despeito! HAHAHAHAH!!! - disse Lourenço, rindo a bom rir.
- Só teve aquilo que merecia! Essa ordinária já há muito ano que anda a abusar da sorte, pelo que me dizes. A aproveitar-se do trabalho dos outros, a dá-lo como seu, a oprimir-vos com ataques de fúria, sem saber de onde vêm, a atacar-vos e a fazer-vos ficarem mal vistos nas reuniões de departamento, entre outras atitudes absolutamente estúpidas... Também não admira, geralmente pessoas burras, presunçosas e incompetentes como ela...
- ... e putas... - interrompeu-a.
- ...sim! e putas!, como de certeza que ela é, é que têm esse tipo de atitudes! Os teus chefes não sabem de nada dela?
- Os meus chefes foram todos "corridos" por ela. Ela fez-se a cada um deles quando estava a acabar de tirar o curso, ainda ela era uma simples secretária a trabalhar na contabilidade. Ela tem-nos a todos na mão. Ela pode ser incompetente mas não é totalmente burra. O máximo que lhe fazem é chamá-la à atenção em privado...
Flávia abanou a cabeça, sentindo-se revoltada.
- De facto, este mundo está cada vez mais ao contrário. Quem mais deve, é quem menos teme. Os ladrões andam à solta na rua e quem manda anda atrás da gente honesta. São os crimes, é a crise, a corrupção, são as doenças, os acidentes de carro, é o clube que não ganha, é o pobre cada vez mais pobre e o rico cada vez mais rico e poderoso. Qualquer dia nem vale a pena sair de casa... ou se sair, sai pela janela! P'ra quê ir trabalhar?? Uma pessoa mata-se cada vez mais a trabalhar e se até é competente metem-no no olho da rua, a ele e mais uns quantos, só para pôr lá um amigo ou uma gaja como a tua chefe a 'comer' por eles todos e mais ainda até. E querem que o país ande p'ra frente.
- Isto... é muito complicado...
A refeição ficou pronta pouco depois, a família jantou, deitaram-se, Flavia e Lourenço fizeram amor e adormeceram.

A manhã seguinte não trouxe surpresas nem gestos fora da rotina que os embalava naquela vida morna. Após levar os miúdos ao colégio e ao infantário, dirigiu-se ao emprego. Chegou ao seu posto de trabalho e passado um pouco começou a haver uma agitação na sala. Levantou-se do seu cubículo e foi saber do que é que se tratava.
- Que é que se passa, Almiro?
- Flávia, já viste o teu e-mail?
- Sim, vi-o há pouco qdo cheguei! - disse, assertiva.
- Não, não é de 'há pouco' que estou a falar. É de agora! Já o viste?
- Não, não estou sempre a ver o e-mail. Mas porquê? - disse, começando a ficar assustada.
- Então vai lá ver, que é melhor estares sentada.
Flávia voltou ao seu posto de escrita e abriu o e-mail. Tinha acabado de receber pela rede interna uma missiva enviada pelo Departamento de Recursos Humanos, com o conhecimento da Administração, que a empresa tinha aberto o processo de falência, com data de entrada em vigor a partir do dia seguinte - pondo isto em miúdos, a empresa ia fechar - ela estava no olho da rua.
Levantou-se e dirigiu-se aos Recursos Humanos. Lá, uma multidão em fúria esperava confirmação da mensagem que lhes tinha sido enviada e, a ser verdade, por mais dados relativos ao despedimento. Passado uns minutos, uma das secretárias aproximou-se do ajuntamento e confirmou o que se temia: a fábrica ia fechar, uma representação do sindicato tinha sido chamada para negociar e pedia-se agora que se reunisse uma comissão de trabalhadores para se juntar às negociações do processo de despedimento colectivo.
Tudo aquilo era surreal demais, pensou. Não havia motivos para tal, a empresa sempre teve pedidos, sempre teve encomendas de trabalho, era impossivel ter aberto falência. Pensava enquanto caminhava de volta ao seu cubículo, onde trabalhou durante quase dez anos, afincadamente, dando tudo quanto podia pelo trabalho em mãos que tivesse nesse momento. Não, não podia ser, não era possível, tinha de ser uma invenção. Sim, era isso, era uma maneira de verem quais eram os colaboradores mais subversivos de maneira a aliviar o número de empregados, para cortar despesas com o pessoal. Só podia ser isso. Pegou no que sstava a fazer anteriormente e no trabalho pendente e continuou a trabalharnormalmente, mas desejando a cada segundo que tudo aquilo fosse o que pensava ser e não o que lhe tinham dito que era.

À ida para casa a rotina cumpria-se, como de costume. Mas agora tudo era vazio. O cheiro das pessoas, os solavancos, os encontrões, as tosses e os espirros, as filas, nada disso a irritava mais. Era uma sensação estranha, um misto de vazio com alegria e com decepção. Aliás, não sabia muito bem o que sentir, qual o sentimento adequado para aquela situação tão inverosímil. Chegando a casa com os mais pequenos, arranjou maneira de os entreter ("Logo hoje não têm trabalhos de casa para fazer!...", pensou) e foi para a cozinha começar a fazer o jantar. Lourenço chegou pouco depois, como costume, e beijou-a.
- Amor, viste hoje as notícias? - perguntou-lhe Flávia, numa voz calma de tensão.
- Não!... - disse com alguma surpresa na voz - O que é que se passou?
- Não sei muito bem... lá na empresa hoje... disseram-nos que a empresa tinha entrado em falência e que estavam em negociação para o acordo colectivo de rescisão.
- O quê??? - sussurrou ele - Mas... como assim?... Falência?... Estás a dizer-me que vão despedir toda a gente?... Como é que isso é possível? Tu nunca notaste nada?? O que é que eles alegaram?? Diz-me!
- Não sei de pormenores... - disse, de olhar perdido no espaço - De manhã recebemos a noticia por e-mail. A Sónia dos R.H. veio à porta e confirmou que estavam a negociar com o sindicato e que queriam uma comissão nas negociações. Eu continuei a trabalhar e à hora de almoço disseram-nos que as negociações estavam bem encaminhadas. A meio da tarde anunciaram que tinham chegado a acordo: três salários por ano de trabalho efectivo. No meu caso, trabalhei oito anos, recebo vinte e quatro salários de compensação. Não disseram quando o iam pagar, mas prevejo que será depois do processo de falência se encaminhar para o fim, já depois de terem vendido material da empresa.
Lourenço mostrou-se estupefacto com tudo aquilo e andava de um lado para o outro da cozinha.
- Não posso acreditar... mas como?... OK, nem tudo é mau, vais ser relativamente bem indemnizada mas não sabes quando vais receber... E depois, da maneira como dizem que as coisas estão, quase de certeza que não vais conseguir emprego tão cedo... o que é que vamos fazer, Flávia?...
- Não sei, Lourenço, não sei de nada... não me faças perguntas agora, por favor... - disse, a meia voz, com ar fatigado - eu ainda mal acredito, estou em estado de choque.
Até à refeição, durante a refeição e até se irem deitar ficaram num silêncio só cortado pelas conversas que tiveram com os miúdos. Não lhes contaram, com receio que eles se enervassem. Era melhor assim, concordaram. Enquanto estavam na cama, tentaram delinear estratégias futuras como gerir o facto de passar a haver só um salário em casa, e, posto isso, adormeceram. Não foi um sono tranquilo para Flávia - acordou imensas vezes durante a noite, em angústia, com um medo que a gelava por dentro, sem saber o que fazer, como iria ser o futuro, sentindo-se já inútil. Para mais, começava a sentir um sentimento que tinha falhado, que era uma falhada, que aquilo tinha acontecido por culpa sua.

Amanheceu novamente. Quando Lourenço se levantou, já ela estava a pé há quase uma hora, sentada em frente à janela.
- Que vais fazer hoje, querida?
- Vou até à empresa saber desenvolvimentos. Espero lá estar à hora da entrada... quer dizer, à antiga hora de entrada... - disse, desviando o olhar para a rua. Lourenço afastou-se, indo preparar-se para mais um dia de trabalho. Flávia continuava a olhar para a rua. Olbservava as pessoas que passavam, de carro, a pé, a caminho do seu emprego ou com outro destino, mas, definitivamente, com um propósito. Observava as crianças de mão dada aos pais e pensava se os seus pareceriam assim tão tranquilos e alegres, quando tomassem conhecimento da situação, como os que observava agora a passarem na sua rua. Pensava também se eles sabiam que os seus pais poderiam estar desempregados ou não. Pensava se aquelas pessoas, de ar tão obstinado a andarem na rua, estavam mesmo empregadas num sítio qualquer. E quantas teriam, estariam ou iriam passar pelo tormento, pelo terror que ela estava a passar naquele momento.
Depois de dado o pequeno almoço aos miúdos, Flávia levou-os até à escola. Seguiu depois para a empresa, como sempre e, ao chegar, deparou-se com uma manifestação enorme à porta, que estava fechada a cadeado, com bandeiras negras e faixas. A polícia também lá estava. Com medo que tudo aquilo pudesse degenerar em algo violento, chegou-se ao pé de alguns colegas e perguntou o que se passava.
- Foi o sindicato que quis este aparato todo. Decidiram isto depois de terem chegado a acordo, mais ao fim da tarde. Lembraram-se depois de perguntar como iriam obter o dinheiro para pagar aos empregados e eles disseram que iam vender as máquinas. Eles não gostaram de ouvir isso, acharam que a fábrica tinha dinheiro em caixa suficiente para assegurar as compensações sem ter que se vender património e decidiram bloquear a entrada da fábrica para não levar as máquinas. Acreditam que, mesmo assim, a empresa é viável num futuro próximo. - disse Renato, que pertencia à Manutenção.
- Pff... típico de sindicalistas... - disse ela com desdém - Já agora vou aqui ficar para ver no que é que isto dá, mas se vir o pessoal a agitar-se demais, saio daqui a correr.
Ficou lá até à hora do almoço, pelo que decidiu ir ter com Lourenço, para lhe contar os últimos desenvolvimentos. Além disso, há tanto tempo que não almoçavam juntos durante a semana, que iria ser bom variar.
Chegou ao emprego do marido e esperou à saída por ele. Alguns minutos mais tarde ele saiu, ficando muito surpreendido por ver Flávia.
- Querida... por aqui?
- Sim! - sorriu - Fui à empresa e como nao tinha nada a fazer por lá, decidi vir ter contigo para um almoço, só nós os dois!
- Oh, querida... devias ter dito antes! Vou almoçar com um cliente agora, não vai dar para almoçarmos juntos...
- Bolas... Pronto, se é de negócios, não há nada a fazer... Posso ficar a fazer-te companhia até ele chegar?
- Flávia, eu queria ir andando ter com ele, se não te importas... - beijou-a - Eu depois compenso-te! Bom almoço! Até logo! - e afastou-se.
- Até logo... Bom almoço!
Ela caminhou em direcção ao carro e entrou. Procurou o baton do cieiro e ajeitou o espelho retrovisor para o efeito. Assim que acabou de retocar, e repôs o espelho, viu algo que juraria impossível, uma alucinação: Lourenço estava à porta do emprego, de novo, e acompanhado. Uma mulher. Pensou que seria o cliente que ele lhe tinha falado mas, ao beijarem-se, todas as esperanças esfumaram-se. Durante largos segundos ficou a olhar a cena, sem ter noção do que fazer mas, sem saber a que misteriosa força o conseguiu, decidiu então confrontá-lo. Saiu do carro, muito direita, de expressão firme e carregada. Estava a ser movida a orgulho e fúria, uma fúria com a força dos doze anos de casados que tinham.
- Parabens, Lourenço. Muitos parabens. Não sei que hei-de pensar, sabes?... - cruzou os braços e falou com uma calma temperada a ódio - Se és tu que és um cara de pau canalha e sem carácter, ou se sou eu que sou tão estúpida que pensei ser a mulher da tua vida.
- Paixão?... Quem é esta?... - disse a outra mulher, com uma fala afectada por uma óbvia vida de mimos e luxos.
- Quem é esta?? Lourenço... eu nao acredito... ela nem sabe que tu és casado comigo?...
- Calma Flávia... vamos todos ter calma, porque tudo se explica... isto não é o que parece...
- ... bem, ao menos não és só cara de pau comigo!... Pelos vistos é mesmo uma falha de carácter... se tu o tivesses, é claro, meu grandessíssimo cabrão filho da puta!
- Lourenço... eu não acredito... tu és casado?... Então... então... e aquilo que falámos, de vires comigo para a tua casa nas Caraíbas e vivermos juntos até ao fim dos nossos dias?... estavas a mentir-me? - disse a 'fashionista', estupefacta.
- Não, coelhinha... na-a-ão era mentira... eu-eu-eu ia mesmo partir contigo para ficarmos juntos... só precisava de tratar dumas coisas...
- Pois, umas coisas, tais como o teu casamento e os teus três filhos em casa, não é?... - disse Flávia a começar a exasperar-se - Lourenço... por favor... por uma vez na vida, sê um homenzinho e diz a verdade a todos, a começar por ti próprio...
- Flávia... não... Coelhinha, espera, eu explico... Flávia, eu vou explicar... é que isto..
- CALA-TE Lourenço! - gritou ela, num repente de raiva - Ouvi-te durante doze anos... estive sempre lá para ti... tive três filhos por ti, passei pelas piores dores do mundo três vezes, por ti, por nós... - com uma calma súbita - Agora, CHEGA!
Com um pontapé bem aplicado e forte nas partes baixas, ele deixou-se cair no chão, gemendo de dor. Ela lançou-lhe um último olhar de desdém e concluiu:
- Obrigado, Lourenço... por nada. - e virou costas.

Lourenço tentou à noite, novamente, arranjar uma explicação e tentar que Flávia ouvisse, mas, obviamente, em vão. Flávia mostrara-se irredutível e, no papel de esposa traída, achava que quem tinha de sair de casa, até o assunto ser resolvido em tribunal, era ele.
O processo de divórcio começou, então. Após algumas sessões com o juiz do processo e diversas tentativas de reconciliação, chegou-se a uma última sessão para a deliberação final.
- ... e goradas que foram todas as tentativas de reconciliação, não tenho outra alternativa senão deferir o pedido de divórcio feito por Flávia Costa de Azevedo a este tribunal. Visto haverem posses e, mais importante, descendentes de idade menor, houve que deliberar sobre a justa divisão de bens e o processo de tutela dos menores. Assim, e atendendo a que uma das partes em conflito se encontra temporariamente em situação de desemprego, decidimos que a casa passará a ser propriedade de Flávia Costa, assim como toda a mobília que a guarnece. Os restantes bens adquiridos por cada parte serão distribuidos consoante quem os adquiriu ou outro qualquer critério, desde que de mútuo acordo. Em relação aos menores, é meu firme crer, apoiado por pareceres de técnicos competentes na área psico-pedagógica, que os menores devem estar, na esmagadora maioria dos casos, à guarda da mãe. Este facto torna-se ainda mais relevante atendendo à atitude leviana e displicente pela parte do pai em relação à instituição família. É, assim, deliberação deste tribunal entregar a custódia parental dos menores ao cuidado do pai. Esta situação é, no entanto, e sublinhe-se, temporária. Assim que a mãe tiver encontrado um novo emprego, os menores deverão ser entregues de imediato à mãe. Estas deliberações entrarão em vigor de imediato.
No final da audiência, Lourenço tentou aproximar-se de Flávia mas sem sucesso.
- Depois ligo-te. - disse friamente e sem o olhar de frente.

Os tempos seguintes foram terríveis para Flávia, como se adivinhava. Sem emprego, sem os filhos por perto senão por dois fins-de-semana por mês, com uma boa parte dos amigos a afastarem-se, sentiu a sua vida escapar-se-lhe pelos dedos. A sua própria mãe atribuia-lhe uma parte das culpas.
- Ninguém tem toda a culpa. Se ele fez o que fe foi porque alguma coisa falhou da tua parte, para que ele fosse procurar fora de casa.
De todas as pessoas, nunca esperara que a própria mãe lhe dissesse aquilo. O último dos apoios fugia-lhe. Frases como aquela encontraram ressonancia dentro de si, em algumas das dúvidas que ela própria tinha desde que tudo aquilo começara. Essa era, obviamente, uma delas, julgando de seguida a sua competência como mãe, como trabalhadora e, inevitavelmente, como pessoa, como ser humano. Não deorou muito tempo até que começasse a achar que não valia a pena levantar-se de manhã e, quase imediatamente, que não valia a pena viver... Vivia num limbo de realidade, em que já nao sabia o que era real, e o que era surreal, o que era sonho, o que era imaterial, o que era possível e o que era impossível... Já não procurava emprego, já não se alimentava bem, não cuidava de si e muito menos da casa. Passava dias inteiros a chorar e, quando se cansava, ficava a olhar para o tecto, indefinidamente. Não havia horas, não havia noite nem dia, não havia fome, não havia sede. Só havia dor. Uma dor tremenda. Uma dor que não cessava, que tornava todos os segundos iguais, uma dor que se tinha agarrado ao seu coração, ao seu corpo, à sua alma como alcatrão, como resina para a qual não havia solvente, que alastrava e se empregnava em cada cova, cada fissura, cada milímetro quadrado de ser, cobrindo toda a luz, causando a maior dor possível e que enquanto houvesse dor, assim continuaria até que, no final, não sobrasse nada, absolutamente nada.
Chegou o dia em que nem com os filhos conseguiu estar. Sentia-se demasiado fraca, demasiado 'menos'. Assim que fechou a porta, com a imagem do desânimo das crianças gravada na alma, sentiu que só havia uma coisa a fazer: por fim á sua miserável vida.

Deixou tudo preparado, todas as instruções cuidadosamente escritas numa carta colocada em cima da sua cama. Despida, procurou no forno o seu fim... Bateram à porta. Flávia estava já inconsciente. Bateram de novo. Minutos mais tarde, a porta foi arrombada e Flávia retirada do forno.
No dia a seguir, acordou numa cama branca, no hospital. Ao início, toda aquela brancura fê-la pensar que estaria no céu, mas, à medida que os seus olhos se foram habituando, percebeu que estava viva... ainda... e com uma grande dor de cabeça. E náuseas, muitas muitas náuseas... Dias mais tarde teve uma visita. Lourenço.
- Como estás?
Nao respondeu.
- Bem me parecia. Bem, pensei em te vir dizer o que é que se passou e que, agradecendo o facto de estar viva, voltasses a ter o mínimo de consideração para voltares a falar comigo.
Flávia era o silêncio.
- Ok, já vi que perco aqui o meu tempo. Antes de me ir embora devo dizer-te que fui eu quem ligou para os bombeiros e te salvou. Adeus.
Viu-o afastar-se mas manteve-se em silêncio. Absurdo. Completo e louco absurdo, disconexo da realidade. Mais uma das incoerências de Lourenço, com certeza, mais uma vâ tentativa de a reconquistar.
- Que belo pedaço de homem... como é que o deixou escapar?
- Escapar?... humpf...
- Não foi?... E como é que alguem se mata com um homem assim, Deus do céu?!
- Pode ficar com ele todo só para si, se quiser... e se conseguir, enfermeira Marcia. - disse, de olhos fitos na janela do quarto.
- Se conseguir?... Não desvalorize os meus talentos, menina. Olhe que já não sou nova, mas tenho experiência e conheço os homens muito bem. E as mulheres também. E se há algo que consigo ver aqui, são dois casmurros que não querem dar o braço a torcer: ele está arrependido e você ainda está agarrado a ele com unhas e dentes. E não há tentativa de suicídio que o contradiga. - disse a enfermeira, enquanto retirava os medicamentos.
Novamente o silêncio.
- Olhe, menina Flávia, esses silêncios podem resultar muito bem com os seus filhos ou com o seu marido, mas não se esqueça disto: como você, já eu criei quatro. Todas com muito pior génio do que o seu. Não me afecta minimamente que esteja em silêncio. Melhor é para mim, que oiço menos barulho ou asneiras. Bem bastam os do bloco C... - disse com desdém - Tome. Está na hora dos comprimidos. Até amanhã.
Saiu, com os olhos de Flávia postos na enfermeira...

À medida que os dias foram passando, Flávia foi começando a abrir-se com Marcia e lentamente foi-lhe contando como tudo aconteceu. Marcia revelou-se uma excelente ouvinte, com um coração imenso. A sensação que Flávia tinha quando falava com a enfermeira era que esta tinha todo o tempo do mundo para ouvi-la. De facto, começar a abrir-se foi mais fácil e rápido do que imaginara. Preguntara uma vez a Marcia porque é que ela era assim: ela respondeu que, desde que o marido morrera num acidente de trabalho, percebera que a vida era preciosa e que cada momento que passamos com as pessoas é único. Desde aí que tentava que as pessoas sentissem isso quando falava ou passava tempo com elas. Mas era difícil, as pessoas estavam demasiado centradas nelas próprias para perceberem isso.
Um dia, durante uma conversa, Marcia perguntou-lhe:
- Flávia, que sonhavas tu da tua vida?
Flávia olhou para a janela de novo, como era costume semrpe que um assunto lhe era particularmente difícil.
- Não sei. Acho que nunca pensei nisso. Para mim a vida era arranjar um emprego qualquer, casar, ter a minha família e vê-los crescer até sairem de casa, altura em que eu e o meu marido envelheceríamos juntos... e com estilo! - esboçou um sorriso.
- Já é alguma coisa! Mas será que isso chega?
- Chega? Para quê?
- Para saber para onde vais, filha. Pensa nisto: quando dizias que ias para casa, tu ias para casa ou ias para a tua rua, ou bairro?
Sorriram ambas.
- É obvio que ia para a minha casa. Eu sabia que ela estava lá. Não podia dormir na rua, seria estúpido.
- Precisamente! Também assim são as coisas na vida: ou tu sabes o endereço final, aquilo que queres fazer e para onde ir, ou então ficarás pelo caminho e tudo te saberá a pouco ou sem sentido mesmo, tal como não fazia sentido dormires na rua.
Flávia abanou a cabeça, compreendendo.
- Não te peço a resposta agora. Vai pensando, devagar, vai porfiando a retirar todo o pó que estes anos de inercia, de conformismo, lentamente depositaram sobre ti, sobre o teu querer...

- Sabes... agora que todas estas coisas estão mais ao longe, consegui perceber duas coisas: que não estamos sós e que muitas coisas há que acabam por ser melhores para nós. - disse Flávia, acabando de beber o sumo.
- Hmm... - disse Marcia, abanando a cabeça como que dizendo "pode ser que tenhas razão...", com boca cheia de sumo - Mas será que perceberias isso se não tivesses passado pelo que passaste?
- Mas também quanto é que é preciso para que uma pessoa perceba isso? Por exemplo, eu não ia percebendo... ia partir daqui, desta vida, sem chegar a perceber... quão grave que isso poderia ser?
- O que é que queres dizer?
- Quero dizer... como é que hei-de explicar?... estas coisas não tiveram só o efeito que agora vemos: a minha empresa de cosmética, os meus filhos de volta a casa, eu com mais tempo para eles, eu com mais tempo para mim, eu a apreciar cada segundo da vida, essas coisas... - piscou o olho a Marcia a rir-se - Mas tudo isso, olhando para a história toda, insinua que existe um algo muito maior, uma mão por detrás de tudo o que aconteceu que me levou de um estado letárgico a um estado atento, a olhar mais para mim e para os outros, pelo seu maior bem, por eles próprios, por Mim. Sei que a maioria das pessoas só fala de Deus em termos da igreja ou de uma perspectiva religiosa, mas para mim tudo o que aconteceu, foi Deus a mostrar-se e a sorrir para mim. Lentamente comecei a ver nas coisas que aconteciam, o Sentido Maior, que não é mais do que sermos felizes nesta vida, fazendo os outros felizes. No fundo, praticar o Bem...
- No fundo, sermos o rosto de Deus na Terra...
Riram-se as duas. Era um riso bom, um riso gostoso de rir, um riso que ecoava nas suas almas e que ganhava vida ao fazê-lo. As suas vidas mudaram enquanto o fizeram, inumeras vezes, umas entre as lágrimas que cairam de tempos a tempos, outras após as vitórias em que lhes apetecia gritar a todo o mundo o que tinham conseguido. Agora, naquele fim de tarde com o sol a pôr-se, frente ao mar, tudo fazia sentido. Recordaram historias boas e más, comuns e de cada uma, e brindaram, rindo-se novamente, a tudo quanto a vida lhes trouxe e que, um dia, a seu tempo, lhes iria trazer.