
"Estou além sono, num sonho de papel, fio de ópio, sombra chinesa tatuada no céu.
Hoje não me apetece ser do contra, uma enfant terrible..."
Intangibilidade da vida. Tocarmos como se fosse a nossa própria mente e alma, a essência de outra pessoa (que não são só estas duas coisas...). Muitas vezes o disse e torno a dizer: nós não estamos preparados para nos apercebermos como é que outras pessoas estão a percepcionar o mundo, como é que nos percepcionam. Há algo que nos "tapa" o caminho e que nos deixa atónitos na espessa tarefa de compreensão do próximo. Pedimos uma bússola, pedimos um mapa para as profundezas do ser de outrem mas de nada serve pedir a um mapa a quem o não pode dar porque nunca ninguém se deu ao trabalho (nem conseguirá) conhecer-se o suficiente para delinear um mapa conciso e universal de si...
"...Quero apenas os novos códigos, quero apenas entrar e participar..."
Posso espreitar pelas janelas e observar de fora. Olho pelos portais do Tempo e observo que é isso mesmo que tenho feito, com raríssimas excepções: observo de fora, como que tentado pelo brilho das luzes e do calor de "lares" diferentes do meu... É o fascínio do diferente, procurando sempre, no entanto, o Semelhante, aquele gesto que compreende cada passo que se dá, cada gesto que se executa, sem dúvidas, sem confusões, sem pó que arranhe a agulha no disco da Partilha...
"A cidade está submersa numa manhã chuvosa
Pântanos e dinossauros tomas de assalto as avenidas
A menina tem insónias e só às vezes dorme
Desaparece e acorda com fome... acorda com fome...
Esta é a minha nova dor. Diz-lhe olá... Não a faças esperar..."
Passando pelas ruas cinzentas, passeio as minhas dúvidas, incertezas, tempestades da Alma, do Coração e mesmo até da Mente... olho as Sombras e estabeleço imensas analogias, paralelismos, comparações e perco-me nas infindas hipóteses que se me levantam... somos um Universo interno, já se sabe... as Sombras que se levantam dentro de nós podem ter metros, quilómetros mas podem ser geradas por algo tão irrisório como um pequeno rato em frente a um projector. E é isso que as pessoas às vezes se esquecem: é que para haver sombras, tem de haver Luz, uma grande Luz, uma Luz tão forte que tudo ilumina os confins do Universo... é dificil não olhar para a sombra é mais confortável, a Luz pode cegar...
Prossigo. Por entre pedras, muros, calçadas e escadinhas aprecio o ritmo de uma comunidade que mal se olha nos olhos... têm medo de quê? de encontrar a alma dos outros?... é difícil... Entrando num tunel, abobadado, começo a cantar...
"Oh! meu Anjo da Guarda, eu sei que te dou trabalho,
Eu e Tu somos iguais... eu queria tanto fazer-te feliz...
Não esperes que eu consiga mudar da noite para o dia..."
... e sem saber estou a fazer eco. Impossível! Num sítio tão populoso! A esta hora! Com o "barulho das luzes" ninguém deveria notar... noto eu... soa bem, estranho timbre que me é devolvido. Deixo-me entao levar pelo que canto e pelo que recebo, numa estranha fusão de sons, como se numa catedral me encontrasse, embalado pelos acordes celestiais de um canto sacro... penso o quanto a Vida não o será assim também: tudo o que fazemos tem uma repercussão, muitas vezes superior ao que esperamos e, quando esta a nós retorna, a fusão resultante pode maravilhar-nos ou ser extremamente dissonante e estarrecer-nos. No entanto, são sempre pequenos sinais que enviamos para o exterior, como fragmentos de uma imagem, de uma música, que em nada nos conseguirão definir... porque, para se conseguir compor a imagem, é preciso Querer e Tempo... e é de Tempo que não Queremos dispor.
"Quando as palavras não dizem o que somos,
Gastamos em tinta, prometemos em sonhos,
Quando as palavras não dizem o que somos..."




